Para mim, o judô sempre foi o esporte mais legal das Olimpíadas, mas é um fato: assassinaram o judô. Esta é a verdade. As mudanças de regra feitas em 2016 e as que vieram depois das Olimpíadas 2020, em Tóquio, acabaram com a modalidade.
O judô foi de um dos esportes mais legais das Olimpíadas a um dos mais chatos. Quem não acompanha o judô, quem não aconhece e para nas Olimpíadas para assistir a ele, como agora em Paris 2024, sofre com o que vê. Inclusive, vi muita gente colocando no X (antigo Twitter) "é impressão minha ou o judô em 2016 [Jogos do Rio] e 2012 [Jogos de Londres] era muito mais legal do que agora?". Claro que era!
O fim do yuko e do koka, que eram duas pontuações mais básicas e faziam os atletas irem para cima em busca delas porque podiam decidir uma luta, minou a modalidade que, até hoje, é a que mais rendeu medalhas olímpicas ao Brasil, 26, duas delas na França (prata com Willian Lima na categoria até 66kg e bronze com Larissa Pimenta na disputa até 52kg). Hoje, esses pontos não existem mais, então, é só ir no 'golpe certo'.
Basicamente, foi criada uma luta de defesa contra defesa em que todos os combates vão para o golden score, fica-se cinco minutos nesta, digamos, prorrogação com gol de ouro e se resolve no shidô, que é a punição. Com isto, repito: o judô foi de um dos esportes mais legais das Olimpíadas a um dos mais chatos.
E isto, além de ruim para o esporte, é ruim para a parte do entretenimento que esta modalidade gera. Porque se você fica quatro anos sem ver o judô, que é o que a maioria das pessoas faz, vai assistir a ele nos Jogos e vê este judô aí, não vai haver interesse. Se toda luta que eu for ver terminar no golden score e, nele, ela acabar por uma decisão do árbitro por punição, então, por que eu vou perder quatro anos assistindo a este esporte durante o ciclo olímpico?
A própria disputa pelo bronze da Rafaela Silva contra a Haruka Funakubo, na última segunda-feira (29) pela categoria até 57kg, foi decidida assim. Nenhuma das duas atacou quase, ficaram se defendendo, foram para o golden score e, nele, foram para o shidô, e aí a Rafa acabou desclassificada por conta do mergulho de cabeça no tatame - desde 2022, a regra proíbe este movimento com o intuito de evitar lesões cervicais, ou seja, é para a própria proteção dos atletas. Em resumo, ao todo, a brasileira perdeu com três punições contra duas da japonesa. É muita coisa para um mesmo combate.
Um amigo, no X, me disse "eu não vejo judô, mas todas as lutas que eu vi foram para o golden score, isto é normal?" Eu respondi "é, infelizmente é, virou o normal".
Outra prova de que assassinaram o judô é a luta do Rafael Macedo nesta quarta-feira (31) contra o Maxime Hambou pelo bronze na categoria até 90k. O francês ficou andando para trás o tempo todo, e o brasileiro acabou punido e, obviamente sem medalha, após tentar um golpe - entenda aqui o que aconteceu.
Então, para mim, é evidente: em Tóquio 2020, o judô já tinha sido abaixo e em Paris está insuportável!
