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Ex-Buccaneers quer voltar à NFL e encerrar tabu centenário: 'Posso ser bissexual e jogar futebol americano'

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Após três anos de NFL e uma lesão séria no ombro que o afastou dos gramados, o veterano Ryan Russell decidiu não mais se esconder. Em uma carta aberta, o jogador de linha defensiva, atualmente sem contrato com nenhuma equipe, deixou claro que só voltará a atuar com uma condição: que a franquia que o contrate saiba da verdade. Afinal, além de atleta, ele é também um homem bissexual.

“Definir minha masculinidade e me rotular como o arquétipo do que eu acreditava que um jogador deve ser foi a dificuldade que me acompanhou por toda a minha vida”.

Selecionado na 5ª rodada do Draft de 2015 pelo Dallas Cowboys, Ryan entrou na liga, sem alarde, como um defensive end de 1,96m de altura vindo da universidade de Purdue. Agora, quando pisar novamente em um campo de futebol americano, o fará como um novo homem.

A passagem pelo Texas, seu estado natal, durou apenas um ano. De lá, o jogador seguiu para o Tampa Bay Buccaneers, time que defendeu por duas temporadas. Até 2018, quando foi dispensado pelo Buffalo Bills antes do início da temporada regular, sua sexualidade era um assunto privado, sobre o qual Ryan nunca havia falado com companheiros ou treinadores. “Sendo bissexual, eu sentia que não precisava dizer nada a ninguém. Se eu dissesse que sou bissexual, me apaixonasse por uma mulher e me casasse, tudo teria sido à toa. Essa era a minha percepção do que o futebol americano é”, explica, em entrevista ao ESPN.com.br. “Para mim, me abrir nem era uma opção. Eu também não estava em um estágio da minha carreira em que me sentia confortável e confiante com quem eu era”.

Tudo mudou após um teste com o San Francisco 49ers. Recuperado da lesão no ombro e convidado para participar de sessões de treino com os recrutadores, o defensive end quase conseguiu retornar à liga. A vaga almejada, porém, acabou não sendo aberta pela franquia. Ainda assim, o ótimo desempenho no tryout fez os treinadores dos Niners afirmarem: se alguém fosse contratado, seria ele.

“Levei isso a sério. Eu precisava estar pronto para jogar, mas também ser autêntico e inteiramente eu mesmo”.


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Para romper o silêncio, aproveitou um de seus maiores talentos, a escrita, e se pronunciou por meio de uma carta, enumerando os componentes de sua personalidade em pé de igualdade: “sou um jogador talentoso, um escritor muito bom, um filho amoroso, um irmão autoritário, um amigo carinhoso, um amante leal e um homem bissexual”. O texto foi publicado em 2018.

Desde então, nenhuma chance surgiu. Ainda na expectativa de receber uma oferta, ele fala da importância do acolhimento para jovens que, como ele, não se encaixam em um padrão até hoje exigido pelo esporte.

“Eu definitivamente sinto que perdemos alguns ótimos atletas LGBTQI+ pela forma como permitimos que a cultura esportiva seja ensinada a nossas crianças”, diz. “Historicamente, os esportes profissionais masculinos não são os lugares mais convidativos. Há muita homofobia e misoginia”.

Confiante em seu potencial, Ryan acredita ainda ter gasolina no tanque. Para provar isso, quer voltar à NFL e romper um tabu centenário: nunca alguém abertamente gay ou bissexual jogou uma partida de temporada regular na história da liga. Em 2020, a NFL completou sua 101ª temporada.

Alguns atletas aposentados já expressaram sua sexualidade depois de encerrarem suas carreiras. Mas, enquanto jogadores profissionais, não se sentiram à vontade para revelar a verdade.

O eventual retorno de Ryan Russell à NFL romperá essa barreira para sempre.

Um ano antes de ser selecionado pelos Cowboys, ele viu o linebacker homossexual da Universidade de Missouri Michael Sam ser draftado pelo St. Louis Rams (hoje Los Angeles Rams). Sam, entretanto, nunca atuou em um jogo oficial — foi cortado de equipes em sua primeira pré-temporada e nunca mais voltou à liga.

Para Ryan, a homofobia no esporte ainda está em segundo plano no debate sobre intolerância. “Se alguém me dissesse uma ofensa racista, meus companheiros de time e treinadores me defenderiam, tenho certeza. Racismo é reconhecidamente inaceitável. Mas se alguém diz uma ofensa homofóbica, isso não é encarado com a mesma intensidade”.

“Quando se ouve termos assim desde os quatro anos de idade, por treinadores ou jogadores, ouvir aos 24 não é tão chocante. E isso, para mim, é o precedente. Podemos tentar mudar profissionais adultos, mas a principal questão é o que fazemos com as crianças”, opina.

O medo da rejeição, conta, limitou sua liberdade e despertou o receio de que trazer a verdadeira orientação sexual à tona significasse a morte de sua carreira.

“Na minha cabeça, descobrir minha sexualidade e jogar futebol não combinavam”, explica. “Eu acreditava que não podia ser bissexual no futebol americano”.

Enquanto treina e espera por uma nova chance, Ryan se dedica a outras atividades, como a poesia. Segundo ele, escrever sempre foi, além de uma busca pelo autoconhecimento, um ato terapêutico e uma forma de lidar com seus conflitos internos sobre o esporte, a sexualidade e a perda de pessoas importantes, como seu padrasto, falecido em um acidente de carro, e o melhor amigo da faculdade, vítima de câncer.

Com os times ainda se ajustando e trazendo peças para os elencos, a temporada 2021 da NFL, que começa em setembro, pode entrar para a história como a primeira a ter um jogador LGBTQI+ em campo. Como potencial precursor, Ryan espera que o futuro seja mais acolhedor para aqueles taxados como diferentes.

“É uma pena que as pessoas tenham que escolher entre a carreira e o amor próprio”.

Hoje, ele não precisa mais escolher: “Eu posso ter as duas coisas”.