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NBA - O efeito Jimmy Butler: como astro superou infância difícil e cria amigos e inimigos

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Astro do Heat é famoso por seu jeito; relembre casos marcantes (8:28)

Jimmy Butler, o astro do Miami Heat, é daquele tipo de jogador sem meio termo – ou você ama, ou odeia.

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Tido por alguns como egoísta e um mal para o vestiário, chocou a NBA ao deixar o elenco estrelado do Philadelphia 76ers para a franquia da Flórida.

Em agosto do ano passado, pouco depois o anúncio da troca, eu estava em Shanghai, na China, para o Mundial de Basquete. Ainda no aeroporto conversei por um bom tempo com o repórter sênior da ESPN, Brian Windhorst, sobre Butler.

Ele ponderou que um dos fatores decisivos foi o impacto fiscal. Cada estado norte-americano cobra uma taxa diferente de impostos. A Florida, onde a cidade de Miami está, isenta seus cidadãos dessa cobrança. Então uma parcela maior do contrato de US$ 142 milhões fica para o jogador.

A cobrança do governo é feita em quase todo o país, com exceção de Nevada, Alaska, Florida, South Dakota, Texas, Washington, e Wyoming. Para se ter uma ideia, Stephen Curry, do Golden State Warriors, paga quase US$ 5 milhões nessa taxa por morar na Califórnia.

Mas esse não é o único fator na balança. Jimmy Butler é um notório apaixonado por disciplina. Windhorst descreveu o ritmo no complexo de treinamento de Miami como “militar”. Deu match! Há um controle grande dos atletas: o percentual de gordura é medido toda semana, há horários rígidos, exercícios semelhantes aos aplicados no exército e um controle regrado do que é ou não permitido.

No primeiro dia de treino, o jogador de 30 anos apareceu às 3h30 da manhã no ginásio, mesmo com as atividades previstas apenas às 10h. O segredo? Dormir às 7h da noite.

A atitude, assim como a decisão de assinar com o Miami Heat, causou estranhamento. Mas há precedentes: é que Butler sempre aposta em si mesmo.

Em 2014, o ala-armador recusava um contrato de extensão com a franquia que o revelou, o Chicago Bulls, oferecida em sua última temporada como novato por lá. Ele achava que valia mais do que os US$ 44 milhões oferecidos por quatro anos. Então, treinou como nunca. Foi quando seu status mudou – de um bom jogador defensivo, para um two-way-player, perigoso dos dois lados da quadra. As médias aumentaram de 13 pontos por partida para 20, 15ª melhor marca da NBA naquela temporada, 5.8 rebotes e 37.8% nas bolas do perímetro. Jimmy Butler foi, pela primeira vez, selecionado como um All-Star e ganhou o prêmio de jogador que mais evoluiu na temporada 2014/2015. Isso lhe rendeu uma extensão máxima de US$ 95 milhões por cinco anos com o Bulls.

A mentalidade de que o trabalho duro irá recompensá-lo o acompanhou desde cedo, durante uma infância difícil.

Abandonado quando bebê pelo pai, Jimmy foi expulso de casa em Tomball, subúrbio de Houston, no Texas, por sua mãe aos 13 anos de idade.

“Eu não gosto da sua aparência. Você precisa ir”.

Durante anos o jovem ia de casa de amigo a abrigos, sem saber onde dormiria muitas noites. Somente aos 17, jogando pelo time de basquete do Tomball High School, foi acolhido pela mãe de um dos seus colegas de equipe. Michelle Lambert já tinha sete filhos, mas havia espaço para mais um.

Eventualmente, com o aconselhamento dela, Jimmy escolheu jogar pela não muito conhecida universidade de Marquette, em Millwaukee, pensando também na sua educação caso a carreira no basquete não desse certo. Em 2011 foi draftado por uma das maiores franquias da NBA.

De azarão a superestrela, a intensidade de Jimmy Butler sempre o fez protagonista - dentro e fora de quadra, se envolvendo em incontáveis polêmicas ao longo da carreira.

Chicago Bulls (2011-2017)

Como novato em Chicago começou saindo do banco. Naquele ano, Derrick Rose tornara-se o jogador mais novo da história a ganhar o prêmio de MVP (Most Valuable Player). O estilo agressivo fez com que o calouro ganhasse minutos gradativamente, assumindo o papel de franchise player com as lesões de D-Rose e, posteriormente, Joakim Noah. Para o bem e para o mal, Jimmy sempre teve um instinto de liderança dentro e fora de quadra. Quando Tom Thibodeau foi demitido, o estilo defensivo característico da equipe foi deixado de lado com o comando de Fred Hoiberg. Isso impactou a forma de jogar e a química entre os atletas. Em 2017, última temporada de Butler pelos touros, a imprensa americana noticiou que o ala confrontou companheiros de equipe por não se esforçarem tanto quanto ele.

“Eu não acho que eles não estejam na mesma página que eu quanto a ganhar jogos. Definitivamente não estávamos na mesma página sobre qual seria o papel de cada um para isso”.

Butler também desferiu palavras contra o técnico Hoiberg, dizendo que o time precisa ser muito mais bem treinado em alguns momentos.

Depois disso, vieram os veteranos Dwayne Wade e Rajon Rondo, mas a sequência de derrotas continuou, bem como a cobrança de Butler – especialmente com o núcleo jovem. Ali já havia uma pressão da diretoria para o “tank”, quando uma equipe joga a toalha visando boas escolhas no draft.

Meses depois de dizer que queria jogar com atletas que se importassem e havia espiões da diretoria de Chicago nos vestiários, foi trocado para o Minnesota Timberwolves por Kris Dunn, Zach LaVine e Lauri Markkanen.

Chicago ficou de fora dos playoffs desde então.

Minnesota Timberwolves (2017-2018)

Com Thibs no comando do Minnesota Timberwolves , Butler entrava em um território relativamente conhecido. A equipe investiu muito em dois jogadores selecionados na primeira posição do draft em 2014 e 2015 – Andrew Wiggins e Karl Anthony-Towns – mas ambos ficaram aquém das expectativas projetadas. No primeiro mês da temporada 2017/2018, um enfurecido Jimmy brigava com os jovens no treino, pedindo que eles aumentassem o esforço e a ética de trabalho. Na mesma época, vociferou contra o GM Scott Layden que a franquia precisava dele para vencer e pediu para ser trocado. Apesar do desgaste, o Wolves chegou aos playoffs pela primeira vez em 14 anos.

A troca veio no começo da temporada seguinte. Butler afirmou que a questão com a franquia não era sobre dinheiro. Era sobre demonstrarem que o queriam lá.

Minnesota segue falhando na missão de ficar entre os melhores colocados e avançar para a fase de mata-mata da NBA. Karl-Anthony Towns resolveu tentar ser o líder que sempre esperam. Na offseason, levou seus companheiros para as Bahamas e distribuiu a todos uma cópia do livro “O Profeta” , seu livro favorito, dizendo que aquilo lhes daria poder.

Hoje a franquia de Minneapolis não só é a terceira pior da liga como abriu mão do outrora intocável Andrew Wiggins por D’Angelo Russell em uma troca com o Golden State Warriors.

Uma fonte próxima de Wiggins chamou, durante uma conversa comigo, Jimmy Butler de “intragável” e disse que “ninguém o suporta na NBA depois de tudo que aconteceu”.

Philadelphia 76ers (2018-2019)

O torcedor do Sixers entendeu logo de cara o jogo de Jimmy Butler. Durante a temporada em que esteve lá, acertou uma série de bolas decisivas. Com a chegada dele a equipe, que amargava oito vitórias e seis derrotas, ganhou dez jogos dos doze seguintes à troca. O ataque, 21º na liga, escalou para a 8ª posição. Ao lado de uma equipe talentosa, mais uma vez se viu lidando com jogadores badalados que ainda precisavam evoluir.

Joel Embiid e Ben Simmons não eram o complemento perfeito para Butler. Quando os três estavam em quadra, o desempenho dele caía, diferentemente de quando jogava com apenas um deles. Butler queria que o técnico Brett Brown lhe desse mais minutos em quadra. A equipe terminou a temporada regular em terceiro no leste. E ficou a uma cesta com quatro quicadas de distância(com os cumprimentos de de Kahwi Leonard) das finais de conferência.

Na intertemporada, Butler se recusou a assinar uma extensão com o Sixers. Meses depois, falou em uma entrevista ao Yahoo Sports que “as coisas apenas não funcionaram e ninguém sabe o que realmente aconteceu na Philadelphia” – deixando claro que Embiid não foi a razão de sua saída. Com a perda, a diretoria da equipe ofereceu um controverso contrato máximo para Tobias Harris e trouxe o cinco vezes All-Star Al Horford do Boston Celtics para completar a equipe.

A química não fez jus às expectativas e Philadelphia, outrora tida como um dos favoritos ao título, ocupa apenas a sexta posição na Conferência Leste.

Miami Heat (2019-?)

Em um movimento ousado, Jimmy “Buckets” fechou um contrato de 142 milhões de dólares por quatro anos com o Miami Heat – muito embora o Sixers tenha lhe oferecido o valor máximo por 5 anos. Com a aposentadoria de Dwayne Wade, a franquia estava sem perspectivas. O ala viu a chance de ocupar espaço para tentar liderar uma equipe desacreditada aos playoffs.

E tem dado certo. Miami está nas Finais da NBA.

Um elenco quase disfuncional a primeira vista encaixou perfeitamente: Bam Adebayo, selecionado All-Star aos 22 anos, atua como um “faz tudo” nas duas pontas da quadra. A 13ª escolha, Tyler Herro, entre os grandes achados do draft e queridinho de Butler. O nem-sequer-draftado Duncan Robinson, saído de uma universidade de terceira divisão, batedor de inúmeros recordes de bolas de 3 pontos. Isso somado à sagacidade familiar do técnico Erik Spoelstra.

A personalidade de Jimmy Butler encaixou como uma luva no Heat: vale lembrar que o conceito “self-made” está no DNA de Pat Riley,presidente da franquia desde o século passado. Além de colecionar quatro títulos como técnico do Los Angeles Lakers na década de 80, foi responsável por montar todas as equipes campeãs do time da Florida – com Shaquille O’Neal e Dwayne Wade em 2006 e LeBron James, Wade e Chris Bosh em 2012 e 2013.

Erguer um time sem nomes badalados, onde nenhum jogador tem privilégios vai ao encontro da mentalidade de Butler.

“Se eu estou sorrindo e meus companheiros querem que eu esteja aqui, a organização quer que eu esteja aqui, eu quero estar aqui e dirigir esse negócio até as rodas caírem”, disse sobre o Heat.

Desde cedo o desafio sempre foi a maior fonte de energia para Jimmy Butler.