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De desconhecido e motivo de piada à lenda do basquete: entenda como Manu Ginóbili mudou a NBA

Considerado um dos maiores estrangeiros a jogar na NBA, Emanuel Ginóbili nem sempre foi respeitado por outros atletas e pela imprensa como agora. O argentino, que teve a camisa número 20 aposentada pelo San Antonio Spurs, chegou à NBA com muita desconfiança em 2002 e logo mostrou para todos que tinha muito talento e que poderia trazer novos elementos para a melhor liga de basquete do mundo.

Após começar a carreira de profissional em 1995, Manu se transferiu para a Itália três anos depois. Mesmo jovem, o armador já mostrava que era diferenciado. Com um ritmo frenético e arremessos certeiros, ele passou a encantar a Europa e começou a chamar a atenção de alguns times dos Estados Unidos. Em 1999, no Draft da NBA, ele foi selecionado na 57ª posição pelos Spurs, mesmo sem nem saber que isso tinha chances de acontecer.

Contudo, o argentino preferiu esperar. Permaneceu mais alguns anos na Itália, sendo campeão nacional e europeu, e chegou à NBA apenas no meio do ano de 2002. Assim, começaram as desconfianças, desde alguns jogadores do elenco até por parte da mídia. Em sua estreia na liga, logo em um jogo contra o Los Angeles Lakers, tendo que marcar Kobe Bryant, Ginóbili chegou a ser motivo de piada do narrador da partida. A resposta - como sempre para o armador - veio em quadra: enterradas, arremessos e jogadas explosivas.

O auge de Manu veio na temporada 2004-05. Antes do início da NBA, ele ajudou a seleção argentina a chocar o mundo nos Jogos Olímpicos de Atenas. Após eliminar os Estados Unidos, os argentinos ficaram com a medalha de ouro inédita para o país, com o armador sendo o principal jogador da equipe. Nos Spurs, ele se firmou como titular, foi selecionado para o All-Star Game e ainda foi um dos destaques do time nos playoffs e nas Finais da NBA, onde a franquia de San Antonio conquistou seu terceiro título, o segundo com Manu no elenco.

Ginóbili ainda foi campeão mais duas vezes com os Spurs, em 2007 e 2014, sendo uma das principais armas de Gregg Popovich ao lado de Tony Parker e Tim Duncan. Além disso, foi eleito o melhor sexto homem da liga em 2008 e voltou ao All-Star em 2011. Mas os maiores legados do argentino para a NBA foram seu “eurostep”, que influenciou a geração futura e agora se tornou uma jogada muito utilizada até pelos jogadores norte-americanos, e seu ritmo frenético dentro de quadra. Ele foi um dos responsáveis por deixar a liga um pouco mais rápida, tanto que o próprio Kobe Bryant admite que teve que se adaptar a este novo estilo após a chegada do argentino.

O especial “Manu Eterno”, disponível no WatchESPN, relembra toda esta trajetória de Ginóbili, saindo da Argentina, causando impacto na Itália, ganhando o mundo com a seleção e criando tendências na NBA até chegar o momento de sua despedida das quadras, em 2018.

Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

CONQUISTANDO A NBA

Mesmo após ser bicampeão italiano (2001 e 2002), campeão da Euroliga (2001) e sendo eleito MVP das finais continentais, Manu Ginóbili era praticamente um desconhecido nos Estados Unidos quando decidiu se juntar ao San Antonio Spurs no meio de 2002.

Ele tinha sido selecionado no Draft de 1999, mas preferiu passar alguns anos na Europa antes de encarar a NBA. Inclusive, na noite que foi draftado na 57ª posição, ele sequer estava acompanhando a transmissão do evento. O armador estava no Brasil, disputando um torneio com a Argentina, e não esperava ser escolhido por nenhum time.

Assim, Manu chegou para a temporada 2002-03 da NBA e, primeiro, precisou provar para os próprios companheiros de time que merecia um lugar ali. Tim Duncan admitiu que, no começo, não acreditou que o argentino estava na NBA e só ficou convencido depois, quando Manu enfrentou Bruce Bowen dia após dia nos treinamentos e mostrou que merecia respeito.

Na estreia dos Spurs temporada, em um jogo contra os Lakers transmitido para o país inteiro, Ginóbili chegou a ser alvo de piadas do narrador e comentarista da partida, que satirizou seu nome e ainda garantiu que ele não teria a menor chance marcando Kobe Bryant. Não demorou muito para a resposta chegar pela quadra. Com um ritmo frenético, arremessos e enterradas, o argentino logo calou os críticos e conquistou o respeito de todos, sobretudo dos rivais.

Gregg Popovich, técnico de San Antonio, passou a dar ainda mais minutos para o argentino nos playoffs da mesma temporada, quando ele jogou em todas as partidas e passou a dar uma nova movimentação para a equipe. Deste modo, logo em seu ano de estreia, Manu foi campeão da NBA pelos Spurs.

Na temporada seguinte, ele foi conquistando ainda mais espaço, já figurando como titular em diversas partidas até que, na temporada 2004-05, esteve no quinteto inicial em todos os jogos que disputou. Além disso, passou a ser peça essencial da equipe ao lado de Tony Parker e Tim Duncan. Não foi surpresa para ninguém quando ele foi eleito para o All-Star Game da NBA. A franquia de San Antonio voltou às Finais da NBA e contou com uma grande partida do camisa 21 no sétimo jogo contra o Detroit Pistons para ser campeão novamente.

A partir de 2007, Ginóbili aceitou um novo desafio. Após uma conversa com Popovich, o armador aceitou não ser mais titular dos Spurs para começar a vir do banco, mesmo sendo um dos melhores jogadores da franquia. No mesmo ano, já como reserva, ele conquistou mais um título da NBA junto com seus companheiros. E, na temporada seguinte, ele ficou com o prêmio de melhor sexto homem da liga.

Os anos foram se passando e as boas campanhas com o San Antonio continuaram, mas a equipe só voltou para a grande final em 2013 e acabou sendo derrotada em sete jogos para o Miami Heat, em uma das séries mais emocionantes da história do basquete. A revanche veio no ano seguinte. As franquias voltaram a se enfrentar na decisão, mas, desta vez, os Spurs não deram chances a LeBron James e Dwyane Wade e venceram por 4 a 1, garantindo o quarto título do argentino.

Já veterano, Manu foi perdendo seus minutos de quadra, mas continuou fazendo bonito na liga até se aposentar após a temporada 2017-18. Em 2019, ele foi homenageado pelo San Antonio Spurs, tendo sua camisa 20 aposentada pela franquia.


ARGENTINA DOURADA

Por mais que seja um grande ídolo na NBA, Manu Ginóbili é ainda mais adorado pelos torcedores da Argentina. Representando o país, ele elevou a seleção nacional de basquete a um nível que ela nunca tinha chegado.

Em 2002, no Mundial de Basquete disputado em Indianápolis, ele liderou o jovem grupo da Argentina a fazer história. Na segunda fase de grupos, com um grande jogo de Manu, sua seleção causou a primeira derrota dos Estados Unidos usando jogadores da NBA, chocando o planeta. Além disso, eles chegaram até a decisão da competição, mas acabaram sendo derrotados pela então Iugoslávia.

Porém, a verdadeira glória veio dois anos mais tarde, nos Jogos Olímpicos de Atenas. Logo no primeiro jogo da competição, Ginóbili mostrou a que veio. Com uma improvável cesta no estouro do cronômetro, o armador deu a vitória ao seu país contra a então Sérvia e Montenegro. Nas fases mata-mata, a Argentina eliminou a Grécia nas quartas de final e enfrentou os Estados Unidos na semifinal. Mesmo com os jovens LeBron, Wade e Carmelo Anthony, os norte-americanos acabaram derrotados pelo time sul-americano, que na final ainda bateu a Itália e ficou com a medalha de ouro histórica.

Manu ainda liderou seu país a mais uma boa campanha nos Jogos Olímpicos de 2008 na China, onde ele ficou com a medalha de bronze após ser eliminado pelos Estados Unidos na semifinal e vencer a Lituânia na disputa de terceiro lugar.


LEGADO NA NBA

Obviamente, os números, os troféus individuais e os títulos na NBA e pela seleção nacional de Manu Ginóbili ficam para a história. Porém, seu maior legado não fica dentro das estatísticas e sim na influência que ele trouxe para o basquete. O armador, além de abrir as portas para diversos sul-americanos entrarem na NBA, também foi responsável por algumas mudanças no jogo praticado nos Estados Unidos.

Seu eurostep ficou muito conhecido e passou a ser difundido por toda a liga. No começo de sua trajetória nos Spurs, muitos adversários não sabiam se era uma jogada válida, se ele estava andando com a bola, e a maioria também não conseguia marcar. Agora, praticamente todos os jogadores da NBA utilizam a técnica.

Além disso, o ritmo explosivo que ele trouxe para dentro da quadra foi uma grande novidade no início dos anos 2000. Diferente do usual da época, Ginóbili gostava de acelerar quase todas as suas jogadas, trazendo um novo estilo de jogo para seu time. O próprio Kobe Bryant, em entrevista para o documentário Manu Eterno, admitiu que aquilo o surpreendeu e que toda a liga teve que se adaptar a esta novidade.

Por último, sua maior influência foi no jogo coletivo. Mesmo sendo um grande jogador individualmente, ele aprendeu a trabalhar em grupo, no modo que Popovich preferia. E mesmo quando sabia que deveria ser titular e poderia ser em praticamente todos os times da NBA, aceitou ser reserva nos Spurs para ajudar o time de outras formas.