O tom do duelo é dado sem cerimônia, sem receio, sem medo. Magic Johnson, astro dos Los Angeles Lakers, não sorri e não aparenta estar de brincadeira.
"Uma coisa que eu odeio, na vida, é o Boston Celtics."
O pentacampeão da NBA sabe do que fala. E não faltam credenciais. Afinal, ele foi um dos inúmeros personagens daquela que é considerada a maior rivalidade do basquete profissional dos Estados Unidos.
O título da liga foi decidido por Celtics e Lakers nada menos que 12 vezes - um recorde. Ao único encontro na década de 50, somaram-se seis finais nos anos 60, três no anos 80 e mais duas nos anos 2000.
Um histórico invejável de decisões para uma rivalidade. Tão invejável que virou documentário: Celtics/Lakers: Best of Enemies (disponivel no WatchESPN) conta exatamente o desenvolvimento deste confronto - e como o ápice dele, nos anos 80, ajudou a catapultar a NBA e balançou o público norte-americano como ninguém havia visto antes.
Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

NO PRINCÍPIO, EXISTIAM OS CELTICS

Ou no princípio existiam os Lakers? Ao final década de 50, o então Minneapolis Lakers já somava cinco títulos. Poderiam ser seis, se a equipe não tivesse perdido em 1959 a final para... o Boston Celtics.
À época, era o segundo título da franquia de Massachussetts. E o começo de uma sequência avassaladora. Entre 1957 e 1969, os Celtics disputaram 12 finais da NBA. Venceram 11. E destas 11, os Lakers foram derrotados nada menos do que sete vezes.
Bill Russell era o principal nome do time verde e prata. Pivô dominante, ele estava nos 11 primeiros títulos da equipe. Mas pelo forte racismo presente na cidade, não conseguia, ao lado da equipe, encher o Boston Garden.
Eles jogavam para cadeiras vazias.
"Eu disse, muitas vezes, que os maiores fãs dos Celtics estavam sentados no banco de reservas. Nós fizemos uma pesquisa para descobrir o que poderíamos fazer para melhorar a presença de público. E 50% das respostas era que havia muitos jogadores negros", lembra Russell, em entrevista ao documentário da série 30 for 30.
O Boston Bruins, franquia da cidade da NHL, não teve na época o mesmo sucesso. Mesmo assim, a arena estava sempre lotada.
NO MEIO DO CAMINHO, TINHA MAGIC E BIRD

Se os anos 70 foram relativamente calmos para a rivalidade - nenhuma final entre as franquias -, os anos 80 chegaram para abrir os olhos. E os motivos tinham nome e sobrenome.
Aproveitando-se de uma brecha nas regras, Red Auerbach, general-manager dos Celtics e mentor do time multicampeão de 1957 a 1969, garantiu a escolha de um jovem de Indiana State: Larry Bird.
Bird não precisou convencer ninguém rapidamente. Fora suas habilidades, o fato de ser branco e da classe trabalhadora fez com que torcedores do Celtics da época se identificassem com ele rapidamente. O Boston Garden ficaria cheio novamente.
Na Costa Oeste, o sol californiano ganhava um sorriso contagiante como reforço. No Draft de 1979, o Los Angeles Lakers levou Earvin "Magic" Johnson na primeira escolha.
Boston e Los Angeles não tinham apenas as duas maiores promessas do basquete na época. Eles levaram dois armadores também com um histórico de oponentes. Na final da NCAA de 1979, Michigan State, de Magic, venceu Indiana State, de Bird.
UMA LONGA ESPERA PARA UMA FINAL ÉPICA
O confronto tão antecipado das duas franquias e das duas jovens estrelas não aconteceu de imediato. Ao contrário. Em 1980, em sua temporada de estreia, Magic Johnson foi decisivo na final contra o Philadelphia 76ers para levantar seu primeiro troféu na NBA.
No ano seguinte, os Celtics chegaram à final e venceram o Houston Rockets. Bird também tinha sua primeira taça. Em 1982 e 1983, os Lakers voltariam a figurar nas finais, vencendo uma e perdendo outra.
E então veio 1984. E as duas franquias voltavam a se enfrentar. No primeiro jogo, em Boston, o clima era absolutamente de outro nível.
"Magic... Larry vai matá-lo, Larry vai matá-lo", imita Magic Johnson, explicando como foi recebido por fãs dos Celtics.
Na quadra, a virada veio no jogo 4, quando os Lakers venciam a série por 2 a 1. Quando pareciam sem resposta ao jogo do adversário, os Celtics começaram a usar o trash talking e uma atitude mais física. A partida mudou.
"Kareem (Abdul-Jabbar) deu uma cotovelada em Larry. E ficava gritando: 'Branquelo, eu vou lhe dar uma surra'. Kareem era o pensador. E quando você entra na mente do pensador...", relembra Cedrix Maxwell, ala-pivô daquele Celtics.
Uma sequência de erros de Magic Johnson, uma cesta decisiva de Larry Bird e lances livres perdidos por James Worthy - com uma provocação de estrangulamento feito por Maxwell em cena icônica -, determinaram a vitória dos Celtics.
No jogo 5, veio o calor. Com 36 graus dentro do Boston Garden, os Lakers não tiveram resposta. "Estava um inferno", recorda Kevin McHale, do time da casa. "Estávamos suando como se estivesse chovendo", complementa Magic. Os Celtics venceram a partida conhecida como "Heat Game" (Jogo Quente).
O time da Califórnia chegou a vencer o jogo 6 e forçar a partida decisiva. Mas os Celtics, dominando praticamente do começo ao fim, venceram o sétimo duelo, fecharam a série em 4 a 3 e comemoraram mais um título. Pela oitava vez, as duas franquias tinham se enfrentado nas Finais da NBA. Pela oitava vez, Boston saía com o título.
REMOVENDO UMA FRASE

As oito finais com o mesmo resultado, o jogo físico, as provocações, as discussões. A rivalidade chegava ao auge. E na decisão de 1985, os Lakers tinham um pensamento.
"Queríamos provar que não éramos moles e mostraríamos isso ao time que espalhou estes boatos", explica Byron Scott.
Mas não foi bem isso que aconteceu no primeiro jogo. Os Celtics venceram fácil em casa: 148 a 114. Uma surra. E uma surra ainda maior para Kareem Abdul-Jabbar, extremamente criticado por sua atuação, vista como um sinal do fim de sua carreira.
Para o jogo 2, ainda no Boston Garden, a atitude dos Lakers foi outra. Kareem foi o pivô dominante - como havia sido ao longo da carreira. Com 30 pontos e 17 rebotes, liderou na vitória no Boston Garden. "É bom saber que você não está morto", definiu o maior pontuador da história da NBA à época.
A série voltou a Boston no jogo 6, com os Lakers precisando de uma vitória para fazer 4 a 2 e enfim vencer seu maior rival. E ela veio: menos sofrida, menos física e sem a sombra de uma tragédia esportiva ao lado.
Na nona final, na casa do rival que o havia derrubado oito vezes, os Lakers enfim limpavam o nome. "Vencer um jogo assim e silenciar o Boston Garden... foi incrível", define Abdul-Jabbar.
Mas a frase mais icônica veio de Jerry Buss, dono dos Lakers.
"Isso remove a frase mais feia do inglês. Nunca mais pode ser dito que os Lakers nunca venceram os Celtics."
O time de Los Angeles ainda venceu o rival nas finais de 1987 e 2010. Os Celtics tiveram sua última comemoração contra o rival em 2008.
A história ainda não acabou.

