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Steve Kerr, praia, gritaria e festa: o dia que Durant deixou os Warriors e escancarou quem manda na NBA

STEVE KERR COLOCOU a sua mochila ao lado de uma espreguiçadeira na praia, em um local tranquilo, longe de outros turistas que estavam curtindo as ondas espetaculares do Havaí. Ele ansiava pela solidão, tentando se desligar um pouco de tudo após a final mais desgastante e triste de sua vida, que chegou ao clímax com lesões catastróficas de Kevin Durant e Klay Thompson. Era demais para qualquer um.

"Eu estava frito", admite Kerr.

Ele se acomodou em sua cadeira e abriu seu livro, "Billion Dollar Whale" (sem tradução para o português), a verdadeira história de um homem que conseguiu um dos golpes mais incríveis da história da indústria financeira. Kerr deixou seu celular no quarto, mesmo sabendo que a free agency havia começado. Ele ficou momentaneamente perdido no livro, até que um homem de 30 e poucos anos, e que estava do lado de Kerr, sem o reconhecer, gritou.

"Meu Deus do céu!", ele gritou para o seu amigo. "KD vai para os Nets!"

A aproximadamente 8 mil quilômetros de distância das praias onde Kerr estava, o técnico do Brooklyn Nets, Kenny Atkinson, andava de um lado para o outro no escritório do GM Sean Marks, observando os segundos passarem até que a chegada oficial da free agency fosse realidade. Atkinson não conseguia entender por que todos previam que Durant iria para os Nets. Nem ele nem Marks haviam falado com KD. Ele nunca havia visitado as instalações da equipe. Nada disso fazia sentido.

"Eu estava [naturalmente] cético", Atkinson confessa agora.

Brooklyn tinha seu quatro planos em mente. Eles estavam confiantes de que Kyrie Irving, que estava sem clima no Boston Celtics, estava chegando. Mas Durant era a joia da coroa.

KD disse que revelaria seu destino em sua página no Instagram. Às 19h (de Brasília) do dia 1° de julho, funcionários do Nets estavam gritando e se abraçando. Atkinson olhou para a tela, enquanto uma música de Notorious B.I.G. tocava no fundo.

Kevin Durant estava declarando seu amor pelo Brooklyn Nets.

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"Eu não acreditei nem depois de ver aquele post. Durant vai sair de Golden State? Eu simplesmente não conseguia acreditar," disse Atkinson.

Marks atendeu o celular. Ele se envolveu em uma breve conversa com Rich Kleiman, agente de Durant.

Ele se virou para o seu treinador, sorrindo.

"É verdade", disse Marks.


KERR NÃO ESPERA que alguém sinta pena dele. Ele ressalta que ele e os Warriors se beneficiaram desse movimento de jogadores, quando Durant rejeitou o Thunder pelos Warriors como agente livre. Ironicamente, Kerr diz que ele estava sentado na mesma praia quando soube da primeira decisão de KD, que levou a dois campeonatos e dois troféus de MVP das Finais da NBA para Durant.

Kerr, ironicamente, diz: "O Havaí nos dá e nos tira."

Por causa da saída de Durant e da lesão de Thompson, Golden State não é mais um favorito da NBA. Nem Toronto. Nem mesmo Boston, que perdeu Irving, para os Nets, e Al Horford para Philadelphia, rivais de Conferência Leste. Em um instante, a estrutura de poder da NBA mudou.

"Parece injusto, de certa forma", admite Atkinson. "Você pode fazer um trabalho melhor do que o Steve Kerr? E Nick Nurse, que venceu logo no seu primeiro ano? Você se pergunta por que os jogadores não dizem: 'Vamos continuar aqui'."

Warren LeGarie representa dezenas de treinadores da NBA, e Nurse e Mike D'Antoni, do Houston Rockets, estão entre eles. Ele diz que o que seus clientes exigem mais do que nunca é o suporte dos donos a para que eles possam manter sua voz com os jogadores.

"A única forma de os técnicos terem uma chance é que a administração fique no mesmo nível que eles, de modo que não haja espaço para tentar dividi-los", diz LeGarie. "Uma vez que estão divididos, as coisas começam a desmoronar."

D'Antoni entende esse conceito muito bem. Ele ainda está empregado, mas os Rockets ofereceram apenas uma extensão parcial. Além disso, Daryl Morey não permitiria que ele trouxesse de volta alguns de seus assistentes técnicos, incluindo Jeff Bzdelik, a quem a equipe implorou para sair da aposentadoria no inverno passado.

"Jeff não é apenas um grande treinador, ele é um grande amigo e eu adoraria tê-lo de volta", diz D'Antoni. “Quando a diretoria quer mudar algo, eles vão mudar. Quer você queira ou não. Você fica chateado por um tempo. É difícil."

D'Antoni foi indiretamente impactado por essa enxurrada de free agents. Uma vez que Paul George pediu para sair do Thunder, OKC decidiu negociar Russell Westbrook, que chegou em Houston por Chris Paul.

"Eu mantenho contato com os jogadores o tempo todo", diz D'Antoni. "Estamos no mesmo barco. Eles poderiam ter ido embora, eu poderia ter ido embora, eles poderiam ser negociados, eu poderia ser demitido."

"Estou chateado com o que aconteceu no verão? Vou me certificar de que vamos lidar com isso. Vamos recuperar a confiança da equipe e ir para cima."

A ficha de Atkinson caiu quando Durant apareceu no centro de treinamento dos Nets apenas uma hora após o seu anúncio. Atkinson embarcou em seu discurso sobre a excelente cultura da equipe, sua ética de trabalho e depois se conteve. Por que ele estava tentando convencer alguém que já havia feito a decisão?

"Estou falando com KD e ele está olhando para as nossas instalações e dizendo: 'Uau, isso é fantástico. Que visão da cidade!'", diz Atkinson.

Ele sabe que, de repente, há uma pressão para vencer e que cabe a ele administrar os egos de Durant e Irving - coisa que se provou ser difícil.

Nick Nurse, que deveria ser imune a pressão, tem que tomar decisões. Ele precisa reintegrar OG Anunoby, que perdeu partes da temporada passada com lesões. Ele está pensando em mudar a posição de Pascal Siakam - de PF para SF.

"Eu vi Fred [VanVleet] e Pascal no dia seguinte da saída de Kawhi", diz Nurse. "Eu disse a eles: 'Temos 20 arremessos por jogo disponíveis'. "Ambos fecharam a cara e disseram 'Estamos prontos'."

Doc Rivers sabe que é título ou fracasso para os Clippers. Ele também sabe como é difícil assinar com o grande free agent da classe. Em 2000, ele quase convenceu Tim Duncan a deixar San Antonio por Orlando.

Será que Anthony Davis deixará os Lakers, que trocaram meio mundo por ele, de coração partido? Em resposta a uma pergunta sobre seu futuro, Davis contou recentemente a Rachel Nichols, da ESPN: "Eu não sei o que vai acontecer. Eu tenho um ano aqui".

Steve Kerr vai além e questiona: "Imagina se o Kawhi optar por sair no seu segundo ano de contrato após tudo que os Clippers fizeram por ele?"

Esta é a nova NBA. Os jogadores controlam seus destinos, as equipes estão hipotecando seu futuro para acomodá-los e os treinadores precisam aprender a se adaptar rapidamente.

"Você diz que os jogadores estão empoderados", diz Rick Carlisle. "É o nosso trabalho agora para capacitá-los ainda mais."

"E se você não descobrir como fazer isso, você fica sem emprego."