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'Purple Rain', celulares, Kawhi e Davis: os bastidores do poder das estrelas que mandam na NBA

A INCONFUNDÍVEL DISTORÇÃO da guitarra elétrica fez com que Nick Nurse se levantasse. O grand finale que ele tanto esperou estava prestes a acontecer, e o técnico do Toronto Raptors agitou os braços para o céu, alegremente balançando ao ritmo do resto da casa lotada, o Tropicana, em Las Vegas.

Qual fã de Prince não adora "Purple Rain"? Ele se virou e sorriu para o assistente técnico dos Raptors, Nate Bjorkgren, que tinha trabalhado ao lado de Nurse na G-League com o Iowa Energy antes de se juntar a ele em Toronto - onde eles haviam acabado de conquistar o primeiro título de NBA na história da franquia.

Os dois jovens treinadores, ainda completamente estupefatos com o título, cantavam:

I never want to cause you any sorrow...
I never want to cause you any pain...
I only wanted to see you laughing...
in the purple rain".

(Eu nunca quero causar-lhe qualquer tristeza...
Eu nunca quero causar-lhe qualquer dor...
Eu só queria ver você rindo...
na chuva roxa)

Era muito alto para ouvir seus telefones enquanto a música aumentava, mas tanto Nurse quanto Bjorkgren estavam recebendo ligações. Instintivamente, eles pegaram seus bolsos, enquanto a névoa roxa produzida pela extravagância de Vegas os engolia.

Nurse olhou para baixo. A mensagem de texto simplesmente dizia: "Estou indo para casa."

Kawhi Leonard tinha ido embora.

Enquanto isso, nos arredores de Los Angeles, o técnico dos Clippers, Doc Rivers, estava distraído. Era 5 de julho e ele já deveria ter recebido a ligação.

Nada havia acontecido, e os companheiros de Rivers, que não tinham conexão com a NBA, entenderam por que ele olhava tanto para o celular, se preocupando com o tempo que passava e com a magnitude que essa potencial transação teria em sua franquia e sua carreira.

Há apenas 15 meses, o futuro de Rivers era incerto. Sua equipe parecia tomar o rumo que ele havia evitado em Boston - o da reformulação. Ele teve que esperar antes de finalmente conseguir um dono como Steve Ballmer - exigente, mas que quer ganhar agora.

A busca por Kawhi foi complicada. Uma enxurrada de mensagens de texto do presidente dos Clippers, Lawrence Frank, atualizava Rivers regularmente, à medida que a perseguição por Paul George, a "isca" que faria Leonard aceitar a proposta, começou a esquentar. O preço que o Oklahoma City Thunder estipulou era alto - o jovem armador Shai Gilgeous-Alexander, um jogador que Doc adorava, e várias escolhas na primeira rodada.

"Não foi apenas para Paul George", explicou Rivers depois, "Era para Paul George e Kawhi. Não conseguiríamos um sem o outro."

Doc Rivers voltou, tentando se envolver na conversa animada em sua mesa. Foi inútil. Seu peixe estava frio e seu telefone ficou em silêncio.

Morte silenciosa.

"Eu não posso fazer isso", ele pensou, mas sua tela de repente se iluminou. E antes que Doc pudesse passar pela árvore Bonsai do lado de fora da saída do restaurante, ele estava ao telefone.

"Nós conseguimos", Frank declarou.


O EMPODERAMENTO DOS JOGADORES pode ter feito os atletas da NBA vibrar, mas isso elevou o nível de estresse dos treinadores a níveis desconhecidos, incomparáveis, afligindo todos, desde jovens iniciantes até estrategistas experientes. Em um instante, ele pode fortalecer ou dizimar um elenco. Tudo muda muito rápido.

"A verdade é que o que a gente faz é quase fatal", disse o técnico do Dallas Mavericks, Rick Carlisle, que é o presidente da Associação de Técnicos da NBA. "Mas os contratos são historicamente fortes. Acredito que os donos, mais do que nunca, compreendem a necessidade de continuidade de trabalho."

Nem todos concordam. O prazo médio para um técnico da NBA é de 3,8 anos, mas esse número é um pouco inflacionado pelo longo mandato da lenda do San Antonio Spurs, Gregg Popovich (23 temporadas), do treinador do Miami Heat, Eric Spoelstra (11) e do próprio Carlisle (11). Subtraia esses valores e a média dos 27 treinadores restantes cai para 2,6 anos. As equipes traçam, tradicionalmente, um plano de cinco anos (ou mais) para o crescimento, considerando os drafts futuros, negociações e contratações de free agency.

"Mas tudo pode ser jogado pela janela a qualquer instante", disse o treinador do New Orleans Pelicans, Alvin Gentry. "Há muitas mudanças - muitas mudanças inesperadas. Você não pode planejar além do ano que vem."

Assim, enquanto os fãs da NBA celebram essas metamorfoses, os técnicos quebram a cabeça para prever a próxima.

"Se uma equipe gasta todo esse dinheiro para conseguir os melhores jogadores, você sabe que eles vão fazer o que quiserem", disse um treinador da Conferência Oeste. "E se esse jogador disser 'quero que o treinador vá embora', o que podemos fazer?"

Estrelas cerrando os punhos e tomando decisões não são novidades para a NBA. Magic Johnson pressionou os Lakers a demitirem Paul Westhead em 1981. Kareem Abdul-Jabbar pediu para ser trocado de Milwaukee para Los Angeles enquanto ainda estava sob contrato em 1975, e Charles Barkley saiu do Philadelphia 76ers em 1992.

"Paul George, um dos nossos principais jogadores, que foi pago muito bem pela equipe, de repente anuncia: 'Ei, eu quero ser negociado'. Você não tem nenhum recurso a não ser conseguir o melhor negócio possível - em 48 horas."
Alvin Gentry, técnico dos Pelicans

Mas eles são como exceção à regra. Jogadores de gerações anteriores permaneceram na maioria das vezes. Eles também não ficavam amigos de seus oponentes. Como Magic bem citou recentemente: "Eu queria vencer Larry Bird, não jogar com ele."

"A liga sempre girou em torno dos 15 melhores jogadores", explica o técnico do Golden State Warriors, Steve Kerr. "Mas quantos deles sobraram? Larry [Bird] ficou, Magic [Johnson] ficou, Tim Duncan ficou, Kobe [Bryant] ficou, até Michael [Jordan] ficou. O que é chocante é o calibre dos jogadores - LeBron, KD, Kawhi - que estão indo embora. E eles meio que mandam na liga."

Kerr diz que não tem problemas com jogadores que trocam de time, mas ele se ofende com aqueles que forçam a saída da cidade antes de seus contratos terminarem, citando Anthony Davis e Paul George como exemplos. "Esse é o perigo real. É aí que você começa a se preocupar."

Gentry diz que há um jeito certo e um jeito errado de solicitar uma troca. "Sou realista. Quando Anthony Davis assinou com a Klutch Sports, eu sabia o que iria acontecer. Eles me disseram: 'Não, não estamos tentando trocá-lo, mas todos percebemos que era apenas uma questão de tempo'."

"Entendo que alguns jogadores sentem a necessidade de seguir em frente. Com Anthony poderia e deveria ter sido tratado de forma diferente. Se fosse, eu teria ficado bem com a situação."

Depois que Paul George solicitou sua troca do Thunder - e pediu para que fosse consumado em 48h -, o gerente geral do Oklahoma City, Sam Presti, não tinha muito para fazer se não lamentar.

"Paul George, um dos nossos principais jogadores, que foi pago muito bem pela equipe, de repente anuncia: 'Ei, eu quero ser negociado'", diz Gentry. "Você não tem nenhum recurso a não ser conseguir o melhor negócio possível - em 48 horas."

Gentry sente que, cada vez mais, os contratos "não significam mais nada, então vamos tornar todos os contratos em acordos de dois anos. Vai nos poupar as dores de cabeça."

Nurse sabia o tempo todo que Kawhi Leonard poderia acabar sendo um empréstimo de uma temporada. Quando ele viu o texto de Kawhi, ele xingou, depois exalou, depois voltou a agitar os braços para "Purple Rain".

O que não dá para dizer é que isso pegou todo mundo de surpresa - Kawhi indo embora de um time com uma cultura vencedora. Apenas um verão antes, ele, chateado com o tratamento que recebeu na lesão na coxa, rejeitou Popovich, o treinador mais respeitado da liga, exigindo uma troca.