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Luto pelo pai, emoção dos Spurs e revolução nos Raptors: a história de Kawhi Leonard, da infância à NBA

Kawhi Leonard é um homem de poucas palavras. Pouquíssimas. Tanto que a entrevista mais lembrada do camisa do camisa 2 do Toronto Raptors não é lembrada por uma frase, mas, sim, por uma risada.

Kawhi sempre foi uma figura curiosa no mundo da NBA. Não apenas por sua personalidade, moldada no método do San Antonio Spurs de Gregg Popovich, mas por sua trajetória no basquete.

No Draft de 2011 da liga, ele era considerado um dos 10 melhores jogadores da classe. Mas ele, na época com apenas 20 anos de idade, decidiu não treinar com alguns dos times com escolhas altas no recrutamento. A consequência desta decisão mudou sua carreira pela frente - e criou um cenário assombroso na NBA.

Kawhi foi selecionado pelo Indiana Pacers com a 15ª escolha daquele Draft. Mas Paul George já era o ala e o nome do futuro da franquia, que buscava um armador para seguir crescendo e brigando nos playoffs da Conferência Leste.

Foi o momento em que os Spurs encontraram uma oportunidade.

Quando Kawhi subiu ao palco do Draft, Popovich estava ao lado de R.C. Buford, general manager da franquia. Ele pegou o telefone e ligou para "Georgie".

"Foi emocionante. Eu estava lá. Eu vi. Foi incrivelmente emocionante", relembra Buford. "Eu não faria aquilo. Foi muito difícil", disse ele em 2013, para o extinto Grantland, da ESPN, descrevendo o momento que Hill foi avisado da troca.

Kawhi, Davis Bertans e Erazem Lorbek eram dos Spurs. George Hill, dos Pacers.


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Kawhi Leonard cresceu ao lado de quatro irmãs mais velhas na grande Los Angeles. Quando fez sete anos, em uma consulta com um pediatra, ele avisou que seu plano era jogar na NBA. O médico apenas sorriu, conta Lee Jenkins em texto para a revista Sports Illustrated.

"Posso ficar na quadra por duas horas, mas a sensação é de que passaram apenas 10 minutos", disse Kawhi. Mas o basquete não era a única coisa que ele gostava de fazer para ver o tempo passar. A matemática, matéria favorita de Kawhi, tinha o mesmo efeito, diz Jenkins.

Só que um momento traumático marcou sua adolescência, quando jogava pela Martin Luther King High School.

Em março de 2008, Kawhi entrou em quadra de luto pela morte de seu pai, Mark, que havia sido assassinado a tiros no lava-jato da família dias antes da partida contra a Manuel Dominguez High School. A polícia encerrou o caso sem respostas.

Ele fez 17 pontos em uma derrota. Depois, foi para os braços da mãe, Kim, e chorou. Só 24 horas tinham passado desde que ele soube da tragédia.

"O basquete me ajuda a parar de pensar nas coisas, me anima sempre que estou para baixo", disse ele, na época, para o LA Times. "O basquete é a minha vida. Queria ir para a quadra para esquecer as coisas. Foi muito triste. Meu pai deveria estar neste jogo."


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"Foi bizarro."

Esta é a forma como Tim Sweeney Jr., treinador na King High, descreveu a busca de Kawhi por ofertas de bolsas universitárias.

"Ele já era um bom jogador", disse Sweeney para o Yahoo!. "Mas não olhava direito para ele. Me lembro de ligar para outros treinadores que trabalhavam nas universidades, mas a maioria deles não se interessava."

Sem ofertas de grandes faculdades, Kawhi, eleito o melhor jogador de Ensino Médio da Califórnia em 2009, decidiu ir para San Diego State. Depois de dois anos e duas classificações para o March Madness, ele deixou o basquete universitário para tentar a sorte na NBA.


"Ele era mais sério do que um ataque cardíaco", disse Popovich, ao relembrar seu primeiro encotnro com Kawhi.

"Algumas pessoas querem muito a grandeza. Ele não dá a mínima para ser uma estrela", seguiu o treinador, em entrevista publicada pela revista Sports Illustrated. "Ele ama o jogo e ignora o resto das coisas. Se o ginásio estivesse vazio, ele provavelmente gostaria muito mais."

Com Popovich, Kawhi deixou de ser apenas um jogador de rotação para se tornar o terceiro MVP de Finais mais novo da história - quando liderou os Spurs contra o Miami Heat em 2014 e conquistou seu primeiro e, até agora, único título.

Cinco anos depois, com todos os problemas de lesão e as perguntas não respondidas durante sua saída dos Spurs, Kawhi voltou às Finais, encarou o Golden State Warriors e comandou o primeiro título da história de Toronto - além de levar o MVP das Finais pela 2ª vez na carreira.

"Eu não tenho medo dos grandes momentos. Eu gosto", afirmou ele depois da vitória dos Raptors Jogo 5 das finais do Leste contra o Milwaukee Bucks.

Se ele vai ficar no Canadá depois desta temporada? É impossível responder. Afinal, apesar do título contra os Warriors, Kawhi é uma incógnita. Um homem de poucas palavras. Mas de atitudes que, em meses, o colocaram no topo do basquete.