Quando tinha apenas quatro anos, Vedat Muriqi viu a guerra bater na porta de sua casa. Presenciou tragédias pelas quais ninguém deveria passar, muito menos uma criança. Esse período de sofrimento, por mais precoce que tenha sido em sua vida, forjou seu caráter para sempre.
"Um café que eu esteja tomando, um pedaço de pão que eu esteja comendo, sempre agradeço a Deus. Porque sei o que passei, e se há algo positivo da guerra que vivi, é isso", relata o atacante do Mallorca. "Passamos por momentos muito difíceis. Hoje em dia dou valor a coisas pequenas, valorizo muito o que é pouco valorizado, mas nenhum ser humano deveria viver uma guerra".
Aos 29 anos e com contrato assinado até a temporada 2026/27, defende desde 2022 o clube das Ilhas Baleares, onde está totalmente adaptado. "Eu e minha família estamos muito felizes aqui".
Nesta sexta-feira (8), na abertura da 28ª rodada de LALIGA, o Mallorca visita o Barcelona, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+. Em 6 de abril disputará a final da Copa do Rei contra o Athletic Bilbao, mas antes precisa garantir tranquilidade e distância da zona de rebaixamento no Campeonato Espanhol.
"Quem nos dá a comida é LALIGA, precisamos ser honestos. Temos que somar pontos e ficarmos em LALIGA como fizemos nos últimos dois anos", explica Muriqi, de maneira bem clara e sincera, como é seu estilo. "Jogamos contra o Barcelona e ainda teremos o Real Madrid. Qualquer equipe que está no meio da tabela não conta os pontos contra eles. Antes da temporada começar, quando se calcula a pontuação por jogo, se coloca zero contra eles, mas é futebol, nunca se sabe".
A sequência de jogos, dividida entre liga e Copa do Rei, tem sido pesada para o Mallorca. O próprio Muriqi admite que há muitos jogadores cansados no elenco. Menos ele. "Fiquei muito tempo lesionado". Mesmo estando com um número bem menor de gols na comparação com a temporada passada (são cinco até agora, enquanto em 2022/23 foram 16), segue como um dos líderes da equipe. "Vamos para Barcelona para conseguir algo, não apenas para jogar e perder".
Condição que mantém também em sua seleção nacional. Jogar pelo Kosovo para Muriqi vai muito além da questão esportiva.
"Não há palavras. Eu tinha a possibilidade de jogar pela Albânia ou pela Turquia, mas quando me chamaram de Kosovo já estava decidido. Sempre quando eu jogo com a camisa da minha seleção, sinto que estou ajudando meu país. Agora todos sabem o quanto sofremos, e como jogador de futebol, a forma que tenho de ajudar meu país é jogando bem, ganhando partidas e fazendo nosso povo feliz. Vou jogar pelo meu país até quando me quiserem e até quando eu não possa mais caminhar".
Por décadas durante o século XX, Kosovo, que possui fortes laços culturais e étnicos com a Albânia, manteve status de província autônoma dentro da Iugoslávia. Com o aumento das tensões nos Balcãs na década de 1990, a guerra chegou ao território kosovar e começou oficialmente em 28 de fevereiro de 1998; perdurou até 11 de junho de 1999 e causou a morte de quase nove mil civis kosovares e o deslocamento de mais de um milhão de pessoas.
O Kosovo declarou, de maneira unilateral, independência da Sérvia em 17 de fevereiro de 2008, algo jamais reconhecido pelo governo sérvio. Desde então, 104 nações já reconheceram sua condição soberana - o Brasil não faz parte deste grupo. Mesmo assim, Fifa e Uefa concedem ao país a possibilidade de atuar como nação em seus torneios.
Não é incomum identificarmos jogadores da península dos Balcãs, nascidos principalmente na década de 1990, caso de Vedat Muriqi (94), como atletas fortes mentalmente. Relação com tudo que viveram nas guerras que assolaram a região? Muriqi concorda, mas vai mais além.
"Eu acho que sim, mas também porque nós, balcânicos, estávamos em um nível de futebol diferente da Europa. Sabíamos que, sem estar fortes mentalmente e fisicamente, não chegaríamos onde queríamos, onde sonhávamos. Essa sempre foi a chave que nos empurrava para sermos fortes mentalmente e também fisicamente".
O experiente técnico Javier Aguirre, de 65 anos, se tornou um personagem importante na vida de Muriqi em Maiorca. O kosovar chegou dois meses antes do mexicano em 2002, e desde então valoriza muito tudo que tem a aprender.
"Ele sabe como planejar as partidas, sabe que cada jogo tem sua história e pensando assim define suas escalações. Sua experiência nos ajuda muito. Cada dia aprendemos sxalgo novo com o que ele viveu em sua carreira como treinador ou jogador. No futebol, pode ser apenas uma vez carreira que você trabalha com um treinador assim, com mais de 30, 40 anos no futebol. Por isso temos que aproveitar".
