Libertadores: Rafael Cabral teve Marcos como ídolo e chance de ir ao Palmeiras; escolheu Santos e foi campeão

Rafael Cabral foi o goleiro titular mais jovem a levantar a taça da Conmebol Libertadores até hoje. Tinha 21 anos - um a menos que Darlei, do Grêmio, em 1995 - quando comemorou com o título com Santos. Agora ele torcerá a distância para que John Victor, 24, ou João Paulo, 25, ambos na disputa pela posição, tenham o gostinho de serem campeões pela equipe da Vila Belmiro.

O FOX Sports transmite ao vivo a final da Conmebol Libertadores, entre Palmeiras e Santos, no próximo sábado, 30 de janeiro, a partir das 17h (horário de Brasília). A decisão também terá acompanhamento em tempo real do ESPN.com.br, com VÍDEOS de lances e gols. E quando a bola parar, a melhor cobertura pós-jogo será na ESPN Brasil e no ESPN App, com entrevistas, festa do título e muita análise e opinião em SportsCenter e Linha de Passe, entre 19h e 0h.

Atualmente no Reading, da segunda divisão inglesa, o arqueiro contou à ESPN quais foram as suas maiores inspirações para a posição, as maiores dificuldades que enfrentou até virar profissional e a alegria por ter vencido seis taças com a camisa santista.

O arqueiro do título de dez anos atrás tem até uma lembrança para fazer inveja em muitos jogadores. Compartilhou a alegria de ser campeão festejando com o Rei Pelé no gramado do Pacaembu, após o Santos bater o Penãrol, do Uruguai.

Veja a entrevista com Rafael:

Começo no futebol

Eu sou de Sorocaba e comecei jogando futsal na linha em uma escolinha. No meu primeiro jogo precisou de um goleiro e eu fui para o gol meio bravo porque ninguém queria ir (risos). Mas eu dei sorte porque não tinha medo e eu me jogava na bola. Eu fechei o gol! O treinador era ex-goleiro e achou que eu tinha talento e passou a me treinar. Ai virou minha paixão jogar no gol. Colocava colchão para me jogar, tacava bolinha na parede...

Nesse período o meu ídolo era o Marcos, do Palmeiras. Quando eu era moleque ele era o melhor, venceu a Libertadores de 99 e foi campeão da Copa do Mundo pela seleção brasileira em 2002. Ele foi sempre a minha referência.

Ida para o campo

Aos 12 anos eu parei de jogar futsal porque dá muito vício para o goleiro, principalmente defender com os pés. Eu fui para uma escolinha de futebol de campo e passei num teste na base do São Paulo. Fiquei um ano no São Paulo e fui dispensado. Um dos fatores que me falaram na época foi pela minha altura. Minha família era toda baixa. Aos 12 anos, comecei a fazer um tratamento para crescer até os 20 anos. Eu tinha feito exames que mostravam que poderia crescer, mas precisei retardar a minha puberdade tomando remédios. Era para eu ter 1,78m, mas cheguei a 1,86m, que é melhor. Goleiro com menos de 1,85m é muito complicado.

Time de coreanos

Depois, fui para Itu em um clube de coreanos, que pagavam para vir ao Brasil para jogar com a gente e fazerem intercâmbio. A estrutura era muito top. Joguei com o Bruno César (ex-Corinthians) ali. Uns olheiros do Bahia nos viram jogando e fomos para lá. Depois de dois anos no Bahia, eu fui para o Ituano. Aos 16 anos, fui fazer um teste no Santos depois de ter jogado o sub-20 pelo Ituano. O empresário me disse que poderia ir para Santos, Palmeiras ou São Paulo, mas senti no meu coração que era o Santos. Muitos jogadores eram revelados e a base era muito boa. Passei no teste e fiquei até o profissional.

Cirurgia após dividida

Eu joguei a Copinha de 2009 e subiram vários jogadores como Ganso, Neymar, Alan Patrick e eu. Nosso time era muito forte e quase todos viraram profissionais. Eu subi depois dessa Copinha como quarto goleiro com o técnico Márcio Fernandes. Eu virei terceiro com o Vágner Mancini e o Luxemburgo ia me promover a titular. O time estava brigando para não cair no Brasileiro, mas no treino da tarde eu quebrei dois ossos da perna em uma dividida com o Domingos.

Tive que operar e passou um filme na minha cabeça. Era minha chance de jogar e não joguei. Eu me converti nessa época e os médicos disseram que poderia ficar entre seis e nove meses parados. Pensava: 'Será que vou ter outra chance ou o Santos vai contratar outro goleiro? Eu sou novo e da base'. Foi incrível porque voltei depois de apenas três meses.

Titular e campeão

No ano seguinte veio o técnico Dorival Júnior e entrou toda molecada. Eu tinha treinado nas férias e estava voando. Eu era terceiro goleiro, mas fui revezando no banco com o Vladimir. Ele decidiu me colocar como titular em maio de 2010 nas primeiras rodadas do Brasileirão.

Minha estreia foi contra o Cruzeiro no último jogo do Mineirão antes de fechar para a Copa do Mundo e foi 0 a 0. Foi um sonho. No hotel indo para o estádio fiquei frio na barriga, mas tinha vontade de ir logo para o jogo. Encarei como a minha oportunidade e não tinha nada a perder. O que mais queria era mostrar meu potencial. No fim, Deus preparou no momento certo. Eu joguei as finais da Copa do Brasil depois de uns seis jogos no profissional. Entrei num time que estava ganhando tudo. Ganhamos 6 títulos em 3 anos. Foi um privilégio.

Libertadores de 2011

2011 foi meu ano de afirmação. Em 2010 joguei bem com o time todo, mas ainda era muito novo, tinha só 20 anos. Quando fomos jogar a Libertadores muitos falavam que o Santos precisava contratar um goleiro mais experiente. Levantaram se eu daria conta, mas o presidente Luís Álvaro gostava de mim e me bancou no começo. Eu precisava só ter sequência para mostrar isso. Os treinadores também gostaram de mim. Tive a chance de jogar, ser campeão e fui o goleiro mais jovem a ser campeão da história: 21 anos e dois meses. A Libertadores é o título o mais importante para todo atleta que joga na América do Sul. É a Champions League para os europeus. Aqui eles valorizam isso.

A gente começou mal a Libertadores porque era algo novo, mesmo tendo um time muito bom. Era mais do que ter qualidade e lutar pela bola. O último jogo da primeira fase foi marcante porque precisávamos vencer fora de casa para não sermos eliminados. Elano, Neymar e Zé Love foram expulsos e fomos desfalcados e conseguimos a vitória.

Jogo contra o América do México foi muito difícil. A gente sabia que seria difícil jogar lá porque fomos para Querétaro, o avião teve que ir para Acapulco. Fomos jogar com muito vento e altitude. As coisas não se encaixaram, não conseguimos trocar passes e finalizar. A gente se defendeu o tempo todo e pude ajudar. Depois daquilo nós sentimos que seríamos campeões porque no dia anterior todos os brasileiros caíram na Libertadores.

Na final contra o Peñarol, no Uruguai, estávamos no vestiário e alguém foi ao banheiro e dava pra ver a torcida deles. Ficamos amontoados na janela vendo aquela festa linda. Conseguimos empatar e na volta vencemos o Pacaembu lotado. Uma pena que esse não teremos isso por causa da pandemia.

Foi uma noite muito longa e não queríamos que terminasse. Eu subi antes para o aquecimento, e o estádio todo gritando meu nome. Passou um filme na minha cabeça! Só faltavam 90 minutos para concretizar.

Foi emocionante demais ter o Pelé em campo na festa do título feliz, pulando e comemorando como um torcedor no pódio. Era um sentimento puro, nos abraçou. Ele foi o maior de todos os tempos. Foi inacreditável! Era um sonho estar perto dele.

Quando fomos campeões e descemos para Santos nós subimos no trio elétrico. A cidade parou e fomos para a Vila. Aquele título caiu a ficha do que é ganhar e o que representa para os torcedores.

Libertadores atual

A molecada está jogando o fino da bola. Só ver o que eles fizeram contra o Boca foi um show. Idade não entra em campo, é impor o que você sabe fazer. É a personalidade. A base do Santos te prepara bem porque você amadurece rápido para o resto da carreira.

Final única é bonita porque todo mundo assiste, é muito interessante para a televisão, mas pode não ser justa. Nem sempre o melhor ganha. Em dois jogos dificilmente isso acontece porque é possível se recuperar. Um erro, uma expulsão, ou um pênalti bobo é difícil de se recuperar.

Eu vejo o Santos sempre e torço muito pelo time que me revelou. Como todo torcedor eu me surpreendi com a campanha porque ninguém esperava. Temos que exaltar o Arzul, o Cuca e toda comissão técnica. É um clube muito especial, que trabalha bem com os jovens, que 'salvam' o clube. Estou na torcida para que tudo ocorra bem.

Goleiros do Santos

O João Paulo é muito rápido e reativo. É mais baixo do que o John, então é mais móvel. É técnico, joga bem com os pés e é muito bom debaixo das traves porque sabe se posicionar. O John é mais alto e tem envergadura maior. Ele é ágil e joga bem com os pés, é algo que ele se sobressai. Os dois podem dar coisas boas e estão em um nível parecido. Não será uma escolha fácil. Os dois merecem porque ajudaram o time e foram destaque. Nenhum deles saiu do time por causa de falhas técnicas. O [preparador de goleiros] Arzul deixa os goleiros muito bem fisicamente e rápidos. Eu não sei quem escolheria (risos).

Em um ano normal o reserva tem poucas chances. Isso não quer dizer você esteja mal. O Santos está bem servido de goleiro. São capacitados e qualquer um que jogar irá bem. Meu conselho é desfrutar e pensar no time. Todo mundo será campeão, mesmo quem não jogar a final. Voce treina no dia a dia e todos são importantes. Quem não jogar estará desapontado, mas poderá entrar na história do time.

Reading

Meu grande objetivo é conseguir o acesso para a Premier League com o Reading. Será algo muito bom. Nós estamos na luta na competição e temos um time muito bom. A torcida é muito bacana, os estádios estavam sempre cheios antes da pandemia é a cidade abraça o clube e vive o futebol. Estou muito feliz e adaptado na Inglaterra