Baixinho e genial, Dirceu Lopes vestiu a camisa 10 do Cruzeiro nas décadas de 1960 e 70 e abriu o coração para falar do futebol do presente e do passado
Imagine um ídolo do futebol brasileiro e mundial recebendo uma equipe de reportagem, na porta de casa, como se fossem todos parentes que ele não via há anos... Foi assim que nos sentimos ao chegar à casa de Dirceu Lopes, lenda da história do Cruzeiro.
Ele, que foi um dos maiores camisas 10 que o Brasil e o mundo viram atuar, dispensa o tratamento como senhor. De cara, ao nos receber disse que éramos muito bem-vindos a sua residência, que ele chama de “Casa dos 8 Anões”. Você deve estar se perguntando: por que oito e não sete? A resposta vem rápido: “O oitavo anão da Branca de Neve sou eu mesmo”, diz ele, aos risos.
Dirceu tem 76 anos, mas preserva o espírito de um garoto de 15 anos.
Divertido, generoso, humilde e atencioso, ele dividiu quatro horas de uma manhã de sábado com a reportagem, na casa situada na rua que leva o nome de seu falecido pai, Tito Lopes Mendes, em bairro próximo ao centro de Pedro Leopoldo, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Nome de bairro
Dirceu vive numa casa confortável que construiu há 20 anos, quando foi garoto propaganda de um lançamento de um condomínio em Pedro Leopoldo.
Com o tempo, o nome original do bairro Agenor Teixeira ganhou o apelido “Bairro Dirceu Lopes”. Hoje, ninguém, além dos moradores, chamam o bairro de Agenor, e sim de Dirceu Lopes, o “Príncipe do futebol”, como ele era chamado na década de 1950, quando todos diziam que ele seria o sucessor de Pelé.
Recém-operado do coração, Dirceu é visto diariamente caminhando pelas ruas do bairro que leva seu nome. E histórias curiosas acontecem todas as vezes que ele encontra com um visitante-desavisado perdido por ali.
Uma das histórias que Dirceu mais gosta de contar é sobre os encontros com esses transeuntes. Alguns, inclusive, não fazem a mínima ideia com quem estão falando.
“Senhor, senhor. O senhor sabe onde fica o bairro Dirceu Lopes?”, questionam. E ele, com toda a humildade e sabedoria que lhe são peculiares, responde: “É aqui mesmo, meu filho. Quem você está procurando?”, diz, sem nunca se apresentar como o próprio.
Dirceu se diverte quando isso acontece e jamais enaltece o ídolo que foi, ao lado de Tostão, chamado de ”Pelé Branco”, outro gênio do futebol mineiro que conquistou o mundo.
Dirceu ganhou o apelido “Príncipe” quando, em 1966, desbancou o poderoso Santos do Rei Pelé, brilhando na conquista da Taça de Prata em pleno Pacaembu.
Para técnicos como João Saldanha, Dirceu Lopes era um jogador mais fundamental do que Pelé para a disputa da Copa do Mundo de 1970, da qual ele foi cortado por Zagallo - que preferiu levar no lugar o atacante Dadá Maravilha.
Aliás, Zé do Milho, como era chamado por aqueles craques da seleção tri-campeã mundial, não guarda mágoas e, sim, um profundo arrependimento por não ter conquistado, à época, a tão sonhada vaga naquela seleção que encantou o planeta.
“O que me atrapalhou demais era a minha timidez e o meu extremo respeito pelas decisões. Na época, me lembro que o presidente Médici deu uma entrevista pedindo o Dadá na seleção. Poxa, Dadá não tinha nada a ver com a minha posição. Eu sempre fui meia, camisa 10 e não tinha a ver com a posição do Dadá. Não tenho como provar, mas acredito que o pedido do presidente, da época da ditadura, fez com que Zagallo o convocasse.”
“Só lamento não ter contestado na época, ter falado na imprensa sobre o injusto corte. Eu estava na minha melhor fase, era considerado o melhor camisa 10 do Brasil, mas já sofri muito e, hoje, após 42 anos que parei de jogar, sinceramente não guardo mágoas. Só agradeço o que o futebol meu deu”, esclarece o “herdeiro de Pelé”.
Uma rua para Dirceu Lopes
A entrevista com Dirceu poderia durar um dia inteiro, mas não podíamos “alugar” o Príncipe. Ele estava “louco” para nos mostrar a rua onde nasceu e morou com a família, agora recentemente rebatizada com o seu nome.
No caminho, do carro até à rua, Dirceu foi cumprimentando um a um, além de nos responder se ainda assiste jogos de futebol pela televisão.
“Rapaz, faz tempo que não me vejo em frente à televisão. Não é por nada, mas não consigo encontrar um time, um jogador que me encha os olhos. É triste, mas sabe? O parâmetro para mim são os caras com quem eu joguei. Pô, joguei com o meu ídolo Pelé, com meu grande companheiro de Cruzeiro, Tostão... Gérson, Rivelino, enfim, não consigo ver ninguém com as minhas características, prefiro não ver”, desabafou o baixinho.
O depoimento de Dirceu não representa o ser humano que ele é no dia a dia, mesmo depois de 42 anos longe da bola. Humilde como poucos e raros ídolos do futebol, o craque do Cruzeiro passeou com a nossa equipe e nos apresentou a casa onde foi criado pelo pai, ex-jogador, sua mãe e suas seis irmãs.
Com a simplicidade do conterrâneo, o médium Chico Xavier, o Príncipe das Minas Gerais se emocionou e nos encantou de frente à casa na rua Dirceu Lopes.
“Eu vivi a minha infância aqui. Passei fome, necessidade e venci jogando bola nessa rua e nos campinhos de terra da vizinhança. Virei jogador do Cruzeiro e da seleção. Consegui dar uma vida digna para o meu pai e minha família. Eu era muito tímido, muito humilde. Para você ter uma ideia eu tinha vergonha de falar com o Pelé, isso quando a gente estava concentrado. Tenho muita gratidão por tudo o que o futebol me deu”, finalizou o ídolo.
