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Como Flamengo e Palmeiras viraram os mais ricos do Brasil e quais riscos podem ameaçar os finalistas da Libertadores nos próximos anos

Clubes que decidem a Libertadores neste sábado, em Montevidéu, são os mais bem-sucedidos dentro e fora de campo nos últimos anos e lutam para manter o reinado por muito tempo, apesar dos riscos


O ano era 2012. Enquanto no Rio de Janeiro, o Flamengo convivia com salários atrasados, falta de patrocínios e uma gestão longe de ser profissional, em São Paulo o Palmeiras caminhava a passos largos rumo ao segundo rebaixamento de sua história.

Corta para 2021. Em Montevidéu, Flamengo e Palmeiras voltam a dividir a cena, mas em situação muito mais confortável: ambos disputam a final da Conmebol Libertadores neste sábado (27), às 17h (de Brasília), com transmissão ao vivo pelo FOX Sports e pela ESPN no Star+.

O que tanto mudou para que os clubes deixassem a triste realidade de vacas magras para, cada um a sua maneira, dominar o ranking dos mais ricos do Brasil, a ponto de concorrentes diretos muitas vezes nem conseguirem fazer frente?

Muita coisa precisou ser ajustada, corrigida e aprimorada até que Palmeiras e Flamengo chegassem ao patamar de hoje em dia. Veja abaixo como cada clube deu a volta por cima, o que é possível esperar do futuro e, também, os riscos que os projetos esportivo e principalmente financeiro de cada um correm.

PALMEIRAS

Paulo Nobre assumiu um Palmeiras absolutamente quebrado em 2013. Rebaixado à Série B, mas com uma Libertadores para disputar graças ao título da Copa do Brasil do ano anterior, o Verdão teria uma temporada difícil pela frente, que exigia planejamento e, claro, dinheiro.

O clube não tinha recursos, mas Nobre, sim. Pouco depois de assumir, sacou R$ 200 milhões de seu patrimônio pessoal para bancar dívidas a curto prazo, que poderiam causar qualquer tipo de punição. Assim, o Palmeiras iniciou sua reestruturação, que incluiu também renegociação de outras dívidas e a profissionalização de setores absolutamente defasados.

"Se não fosse o Nobre colocar dinheiro em 2013 ou 2014, o clube não estaria onde está", garante Erich Beting, jornalista especializado em marketing, criador do site "Máquina do Esporte" e blogueiro do ESPN.com.br. "Ele também teve uma racionalidade de investimento, não abusou. Foi um mérito grande, mesmo tendo dinheiro, condição e tudo isso, não abriu mão desse princípio".

O princípio era arrumar a casa. O Palmeiras subiu em 2013, mas viveu um novo ano apertado em 2014, até se salvar do rebaixamento graças à derrota do Vitória para o Santos, no Barradão. A virada de página definitiva veio na mudança de dezembro para janeiro, com a chegada da Crefisa e seus aportes milionários que ressignificaram o projeto.

Já com um estádio moderno e lucrativo, o Palmeiras viu a Crefisa bancar cerca de R$ 800 milhões no clube desde então e conseguiu os resultados que há muito não aconteciam: duas vezes campeão da Copa do Brasil, outras duas do Brasileirão e mais a Libertadores. Tudo isso em meio à mudança de gestão, com a saída de Paulo Nobre e a entrada de Mauricio Galiotte.

"Bem ou mal, o Palmeiras teve muita sorte de ter tido alguém que sanasse a dívida, o que equilibrou o dia a dia do clube, conseguiu se manter e ter um salto com outra pessoa física e jurídica, que é a Leila. O grande mérito da gestão atual é ter feito o enxugamento de despesas, que fez o Palmeiras sobreviver bem à pandemia, com uso maior da base", analisou Beting.

A reportagem tentou contato com o departamento financeiro do Palmeiras, mas não obteve resposta até a publicação do texto.

FLAMENGO

A história da ressurreição flamenguista é um pouco mais demorada. Tal qual Paulo Nobre, Eduardo Bandeira de Mello herdou o cargo de presidente com dívida na casa de R$ 800 milhões. A diferença é que não havia patrimônio pessoal para enfrentar isso sozinho. O jeito foi apertar os cintos.

Com base no trabalho de outros gestores espalhados pelo clube, a administração de Bandeira de Mello reorganizou financeiramente o Flamengo, a partir de corte de gastos e entrada no Profut (que zerou a dívida trabalhista e escalonou a tributária). O marketing colaborou com melhora no licenciamento de produtos e crescimento nos patrocínios.

O panorama foi mudando aos poucos. As receitas cresceram de R$ 273 milhões em 2013 para R$ 650 milhões três anos depois, quando o superávit anual bateu a casa dos R$ 145 milhões. A dívida, impagável em 2013, diminuiu para R$ 350 milhões em 2018, último ano do mandato de Bandeira.

"O Flamengo pagou R$ 1 bilhão de dívidas. Ou seja, nessa história de passado, houve lá atrás uma preocupação em quitar, renegociar débitos. Se tinha uma receita importante, seja venda de jogador, renovação de contrato ou outra coisa, se pensava primeiro em quitar essa dívida e depois usar uma parte em investimento. Havia preocupação para ter um clube sustentável", explica Fernando Goes, diretor financeiro do clube desde setembro de 2020.

Todo a organização fez com que o Flamengo tivesse condições para começar a investir. Paolo Guerrero chegou em 2015, depois veio Diego Ribas, seguido de Everton Ribeiro e Diego Alves, até chegar a trupe de Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta, trio que literalmente mudou o patamar do clube no âmbito esportivo.

"Se hoje o Flamengo se dá ao luxo de grandes jogadores, é porque lá atrás ele se recusou a gastar dinheiro para ser campeão e quis proteger o patrimônio do clube. Ele tinha missão de tornar o clube sustentável, sem cometer loucura por pressão de títulos", afirmou Beting, que vê diferenças entre uma gestão e outra.

"A gestão atual tem mais riscos, às vezes tem que recorrer a empréstimos para manter o fluxo de caixa. Tudo que foi construído pelo Bandeira a gestão atual está se beneficiando, mantendo a arrecadação e o custo relativamente equiparados".

Hoje o clube opera com a estimativa de fechar 2021 com uma dívida líquida operacional (valor que engloba compras parceladas de atletas, dívidas com fornecedores, depósitos de FGTS e Profut) de R$ 335 milhões. Parece muito, e de fato é, mas o faturamento consegue ser bem maior.

"Senão fosse a pandemia, pode botar que o Flamengo teria arrecadado mais R$ 200 milhões aí neste ano, sem dúvida alguma. Ano que vem estamos prevendo mais R$ 1 bilhão de faturamento. A gente estima faturar na casa de R$ 850 milhões de reais de receita recorrente", garante Goes, que, ao falar de receita recorrente, leva em consideração ganhos com bilheteria, sócio torcedor, clube social e marketing.

RISCOS DO FUTURO

Mas é possível que algo ameace o futuro desses dois clubes no aspecto financeiro? Erich Beting vê riscos dos dois lados.

Na avaliação do especialista em marketing, o Flamengo atual vive uma situação de pressão o tempo todo, já que aposta todas as suas fichas no sucesso esportivo da equipe. Pela qualidade dos jogadores, o retorno tem acontecido desde 2019, mas não é sempre que isso acontece, vide a Libertadores de 2020, quando a equipe então dirigida por Rogério Ceni caiu para o Racing, nas oitavas de final.

"O Flamengo passou a ser um clube mais arrojado e arriscado. Saiu, digamos, de um fundo de investimento e foi para o mercado de ações. O Flamengo está no all-in sempre. Aposta todas as fichas em uma situação que normalmente vai se concretizar, mas que pode não acontecer, como no ano passado. A pressão em cima do Dome não era só pelo resultado, mas pelo impacto financeiro. O Flamengo pode ser uma bomba relógio, precisa de performance, e isso gera um stress constante", analisou Beting.

"O que o Flamengo faz hoje é abrir mão da categoria de base, de lançar o atleta da base, para vendê-lo rápido e manter o time cascudo. Isso no médio prazo é muito arriscado, porque cria uma situação que precisa do desempenho esportivo para performar bem nas finanças", concluiu.

Sobre o Palmeiras, o maior ponto de interrogação é justamente quem ajudou a tirar o time da situação delicada. Eleita presidente do Palmeiras pelos próximos três anos, Leila Pereira agora se torna a mandatária do clube e também a patrocinadora que investe milhões

"O que vem para frente é uma incognita com a Leila. Não se sabe até que ponto ela vai investir, como vai investir. Agora a questão é entender até que ponto o clube vai estar livre, independente da grana dela, do poder que ela vai exercer e que já exerce há seis ou sete anos", afirmou o blogueiro do ESPN.com.br, que vê o Palmeiras em plenas condições de se sustentar sozinho nos próximos anos, desde que acalme a política interna.

"Palmeiras teria condições plenas, pelo tamanho de torcida que tem, de se tornar um clube sustentável. Se estiver minimamente organizado, consegue. Só que o Palmeiras é uma típica família italiana, um dia está bem, no outro está tudo errado, e isso não traz paz interna para trabalhar. Palmeiras só conseguiu estabilidade quando teve alguém bancando a conta e deixando tudo tranquilo".