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Campeão mundial com o Inter há 15 anos, Índio relembra início como boia-fria e 'ruim de bola'

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De boia-fria a campeão mundial: Índio relembra início na roça até consagração pelo Inter há 15 anos (9:52)

Ex-zagueiro do time colorado, hoje Índio tem um projeto pessoal em uma sala dentro do Beira-Rio, onde até bebe cerveja com os torcedores | Assista ao SportsCenter pela ESPN no Star+ (9:52)

Marcos Antônio Lima não nasceu em aldeia alguma do Brasil. Ganhou o apelido Índio na infância por ter o cabelo “tigela” e a cor de pele mais escura. Filho de trabalhadores rurais, começou a trabalhar na roça aos nove anos. Aos 15, já era cortador de cana. Seu maior sonho naquela época era ser motorista de trator na usina onde trabalhava.


Índio carrega no apelido a força e a garra de um povo que é desrespeitado e massacrado no Brasil há séculos, mas ele não é um índio legítimo. É um rapaz humilde de Maracaí, interior de São Paulo, próximo a Assis, a 400 km da capital paulista.

Da infância até a glória no futebol profissional, o garoto Marcos passou por muitos desafios de vida, fome e dificuldades que marcam milhões de cidadãos brasileiros até os dias atuais.

Para ajudar na renda de casa, começou a vender sorvetes aos nove anos. Logo foi parar nas plantações de cana-de-açúcar, onde fez de tudo. Coletava amostras de terra, borrifava veneno para matar pragas e foi até “bituqueiro”, um serviço em que as crianças correm atrás das carretas para recolher os restos de cana que caem do caminhão no trajeto do canavial.

Aos 15 anos, Marcos foi promovido à boia-fria, um trabalho pesado, no qual, além do registro na carteira profissional, ficaram marcas em seu corpo. Era um serviço que levava à exaustão, trabalhando praticamente dez horas por dia em condições sub-humanas.

Na usina Capivara, apesar das dificuldades, Índio só queria receber a promoção da vida, ou seja, queria deixar de ser cortador de cana para trabalhar como tratorista no canavial.

Esse era o sonho máximo do menino do interior, que nem sabia que o futebol seria a chave do sucesso para mudar de vida. Para ele, o apelido não poderia casar mais perfeito.

“Eu levo esse apelido como o nome que me levou a vencer na vida. Um cara de bravura, de garra, de determinação, de vontade, de superação na vida, entendeu?”, disse Índio.

A primeira peneira

Índio não era um louco por futebol, pelo contrário. Na infância sofria todo tipo de preconceito por ser pobre, não ter dentes e ainda, segundo os moradores de Maracaí, ser um garoto muito ruim de bola.

Mas quis o destino que o futebol surgisse como a sua maior salvação.

E tudo começou ainda na usina Capivara, onde aos domingos os trabalhadores da empresa se reuniam para disputar uma pelada.

Índio lembra que não via a hora do domingo chegar para, enfim, comer a bisteca com arroz tão cobiçada nas boias-frias que faziam no meio dos canaviais.

“Eu não comia carne porque a minha família não tinha condições de comprar carne. Nossa boia-fria era uma comida muito simples. Aí quando começaram a oferecer na usina um prato de bisteca com arroz, eu fica louco para que o domingo chegasse. Na verdade, não estava preocupado, interessado em jogar futebol. Eu queria era comer a contrapartida que eles ofereciam pra gente jogar, que era que um prato de bisteca com arroz”, disse o zagueiro que, 13 anos depois, conquistaria o mundo e todas as bistecas que quisesse.

Foi na usina Capivara que um caçador de talentos viu um certo potencial naquele cara que corria atrás da bola como se fosse a bisteca da vida.

Vitor, um ex-jogador de futebol, fez o convite para que Índio participasse, aos 18 anos de idade, de uma peneira que seria realizada no Novorizontino.

Para que ele tivesse chance, o próprio Vitor se encarregou de dar, durante uma semana, treinamentos físicos e técnicos para que o voluntarioso zagueiro.

“O povo de Maracaí dizia que eu não teria a menor chance, pois eu era, segundo eles, o pior jogador da cidade. Mal sabiam eles que eu peguei aquela oportunidade com unhas e dentes, como se fosse a única chance de eu deixar de cortar cana e conseguir dar uma vida digna à minha família. No início eram 300 candidatos, depois 200, cem... até que aprovaram eu e um tal de Luciano, de Guarulhos”, disse.

Dali pra frente nascia a estrela de um cara que venceria no futebol, mas Índio não contava com uma contusão que quase não só lhe tirou da carreira como também a perna.

Na época, como jogador do Bragantino, ele comprou o próprio passe, mas ficou esquecido por conta da contusão e porque ainda não havia se firmado no futebol nacional.

Voltou para Maracaí, onde começou a jogar na várzea.

A segunda grande chance veio no Santo André, onde se destacou, chamando a atenção de Muricy Ramalho, que viria a ser uma espécie de pai e anjo da guarda dele.

Ao lado do treinador, Índio foi campeão brasileiro da Série C pelo no Botafogo, de Ribeirão Preto, e viu a carreira decolar. Passou por América-MG, Palmeiras, Paulista e Figueirense até reencontrar Muricy, quando o enfrentou pelo Juventude contra o Internacional.

“Eu fui muito bem. No final do jogo, ainda no campo, a gente se abraçou e ele me disse que me indicaria para o Colorado. Ali, mais uma vez o Muricy mudou a minha vida”, disse, com os olhos cheios de lágrimas, ao falar do eterno anjo da guarda.

O segredo está no trabalho

Índio nunca foi um símbolo de extrema qualidade futebolística em campo. Para superar a suposta deficiência técnica, ele se aplicava em dobro nos treinamentos físicos, táticos e nos fundamentos.

“Eu treinava uma hora antes de todos e uma hora depois que todos acabavam. Se eu não fizesse isso, eu jamais ficaria satisfeito, pois sabia que a minha determinação, suor e entrega trariam resultados. Para você ter uma ideia, eu cabeceava bolas de cinco quilos na parede, tanto com a intenção de marcar um gol ou de defender um perigo na minha área”, disse.

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1:17
Abel Braga relembra importância de Índio para o Inter ganhar a Libertadores e o Mundial há 15 anos

Técnico estava no comando do Inter no histórico e vitorioso ano de 2006 | Assista ao SportsCenter pela ESPN no Star+

Um símbolo colorado

Muricy não só prometeu como cumpriu. Levou Índio para o Internacional em dezembro de 2004. Em 2005, quase foram campeões do Campeonato Brasileiro, em vice-campeonato para o Corinthians que até hoje deixa colorados magoados.

Mas a consagração veio logo na sequência, quando o clube gaúcho conquistou tanto a inédita Conmebol Libertadores como o Mundial de Clubes, em 2006.

Índio relembrou que aquele time, campeão contra o poderoso Barcelona, nem chegava aos pés do adversário quando o assunto eram estrelas do futebol.

Ele também recordou que, no treino que antecedeu a final, o time titular perdeu feio para os reservas e que do outro lado, os espanhóis desdenhavam do Inter.

“O técnico Abel Braga deu um chacoalhão na gente. Botou em nossa cabeça que aquele título que o Barcelona não dava muita importância, era a maior conquista da vida de cada um que estava ali. Nós não tínhamos estrelas conhecidas, mas tínhamos uma união que poucas vezes vi em um time de futebol. O Fernandão cobrava como capitão, mas todos nós cobrávamos uns aos outros, pois sabíamos que tínhamos capacidade para entrar para a história do futebol mundial, como entramos”, disse o zagueiro, que conseguiu anular Ronaldinho Gaúcho e Cia naquela final de 2006.

Índio relembrou uma premonição que Perdigão teve um dia antes da final, quando o jogador entrou no quarto de Adriano Gabiru avisando que o atacante entraria no segundo tempo e que faria o gol da conquista inédito do Inter. Foi o que aconteceu.

Gabiru substituiu Fernandão no segundo tempo. Aos 37 minutos, ele fez o gol que decretou o título no 1 a 0 histórico do Inter, no estádio de Yokohama, no Japão.

Índio citou ainda uma notícia que chegou até os colorados e, segundo ele, só serviu para despertar, ainda mais, a fúria contra aquele poderoso Barcelona.

“Disseram para gente que perguntaram ao Thiago Motta [brasileiro naturalizado italiano] o que ele sabia sobre o Inter de Porto Alegre, mas que ele informou à comissão, aos jogadores e à imprensa de Barcelona que o único Inter que ele conhecia era a Inter de Milão”, disse.

Manias e mandingas

Se tem uma coisa que Índio não aliviava era a vida dos atacantes. E olha que ele jogou contra os grandes entre 1995 e 2014, quando se aposentou dos gramados.

Ele era provocador e usava de todas as armas para desconcentrar e irritar os adversários. Valia tudo, ou melhor, quase tudo. Desde uma passada de mão, soquinhos na costela e até beijinhos. Certa vez, contra Aloísio Chulapa, ele foi além do imaginável.

“Eu sempre entrava em campo mascando chiclete. Teve um dia, num jogo contra o São Paulo, o Aloísio Chulapa estava mascando o chiclete dele e eu pedi: ‘Cara, me dá este chiclete teu aí?’ Aloísio ficou meio que sem entender e me deu o chiclete usado que logo em seguida eu comecei a mastigar. Ele achou que eu estava blefando, mas eu masquei o chiclete dele e a gente ganhou o jogo. A mandinga funcionou”, disse, rindo.

Um índio gaúcho

Faz sete anos que Índio se aposentou dos gramados. Faz 15 que o Inter entrou para a história com a conquista daquela Libertadores e daquele Mundial de Clubes de 2006

Mesmo tanto tempo depois a torcida colorada não esqueceu aquele zagueiro aguerrido, dedicado, valente e destemido. Um verdadeiro guerreiro em campo.

Se tem algo que Índio se arrepende é de ter fugido, inúmeras vezes, das câmeras e dos microfones. Ele imaginava que não sabia se comunicar, coisa que, nessa rara entrevista, vemos que não é bem assim.

Fora dos gramados, o ex-boia-fria de poucos sonhos se aventurou em fazenda, construção civil e agora, ao lado de parceiros colorados, desenvolve um projeto “Aldeia do Índio”.

Trata-se de uma sala que está situada em frente ao estádio Beira-Rio, em Porto Alegre, onde o ex-jogador reúne parte da história que construiu no Inter, como camisas, chuteiras, fotos, medalhas e troféus. Tudo está exposto aos torcedores que se reúnem, em dias de jogos, para conversar com o ídolo e tomar uma cerveja antes da partida.

No mesmo projeto, Índio também tem a intenção de desenvolver um trabalho social, por intermédio de uma escolinha do futebol, onde possa mostrar e provar para os meninos pobres como ele foi que todos são capazes de conquistar o mundo.