Ao receber o convite para treinar Internacional em dezembro de 2019, Eduardo Coudet, 45, procurou o compatriota Jorge Sampaoli para saber mais sobre o futebol brasileiro. Ouviu referências positivas, mas nunca imaginou que entraria numa verdadeira “montanha russa”.
Em exclusiva para a ESPN Brasil, o treinador argentino define assim a forma como o país reage a vitórias e derrotas, dizendo que pensava que não haveria lugar com pressão pior do que a Argentina. Agora, que conheceu a essência do Brasil, diz estar adaptado.
Tão adaptado que fez do Internacional o líder do Campeonato Brasileiro, com 12 pontos dos 15 que disputou. E já tem até uma definição sobre o clássico com o Grêmio.
“Lembra muito Rosário. Mas aqui pode ter uma arquibancada com as torcidas misturadas. Isso não aconteceria em Rosário. E num River x Boca menos ainda, num San Lorenzo x Racing também não, nem Racing x Independiente”, disse.
Com o trabalho ainda em desenvolvimento, o treinador admitiu que tem muito para caminhar. Gosta de observar os jovens da base em busca de talentos, algo que disse ter feito a partir do momento que foi convidado, e admira os técnicos brasileiros. Aliás, elogiou os profissionais do país, dizendo que sabem se adaptar fácil e rapidamente, citando Renato Gaúcho, Mano Menezes e Cuca.
Confira abaixo a entrevista completa:
ESPN – Como se sente sabendo que os números mostram um trabalho consistente no Internacional, líder do Campeonato Brasileiro?
EDUARDO COUDET: Estou muito contente com o que vem acontecendo. Com o que os jogadores vêm mostrando, que são as partes mais importantes desse jogo. Muito bom que falem deles e da equipe. É muito gratificante. Nos deixa melhores para seguir trabalhando, para seguir melhorando, melhorando uma ideia e uma preparação. A única coisa que conhecemos que dá resultado é o trabalho. Vejo um grupo convencido do que estamos fazendo, e isso seguramente ajuda muitíssimo.
ESPN – Mal começou o trabalho e o calendário sofreu a paralisação por causa da pandemia. Quais foram os seus primeiros pensamentos naquele período?
EDUARDO COUDET: A expectativa que todos tínhamos era diferente. Não só a minha expectativa, mas do clube, dos dirigentes, dos torcedores. A expectativa de poder armar de um jeito diferente um grupo, de ter a possibilidade de fazer diferente, trazer jogadores... A pandemia afetou todos os clubes. Não somos exceção. Temos que nos adaptar e tirar proveito de tudo que temos. Com certeza estamos desfavorecidos em relação a diversos clubes brasileiros em termos econômicos para poder competir. Mas volto a repetir, com trabalho, vamos tentar tirar o melhor de cada jogador e ser competitivos.
ESPN – Não podemos acompanhar os seus trabalhos diariamente. Eu queria que você falasse mais sobre os treinamentos. Como você tem trabalhado nos treinamentos?
EDUARDO COUDET: O que tentamos é que se jogue da mesma maneira que se treina. Então tentamos fazer isso no fim de semana quando jogamos pelos três pontos. Treinamos para ter uma dinâmica natural até a hora de jogar. Obviamente que a prática não é igual a um jogo, mas tentamos ficar mais próximos da realidade do jogo. É o que buscamos, depois tentamos levar o jogador ao seu melhor. Não apenas como jogador, mas como atleta. Tentamos reforçar como comer, como se cuidar, como treinar e melhorar a cada dia equilibrando dessa maneira as carências que possamos ter, que falamos anteriormente. Quanto ao número de jogadores no grupo e a quantidade de jogadores experientes dentro do grupo, temos muitos jovens, temos que tirar o melhor de cada um, e transmitir que cada cabeça esteja da melhor maneira. E competir. Essa é ideia.
ESPN – Você já falou que você gosta de jogadores talentosos, mas também de jogadores que entendam o jogo. Para que um jogador entenda o jogo, ele precisa repetir muito as jogadas?
EDUARDO COUDET: Acho que o jogador não é exceção, como em todas as profissões, alguns aprendem mais rápido por entender mesmo e outros pela repetição. Assim a repetição sempre tem que estar presente. A repetição faz melhorar. Mas acredito que temos um plantel muito equilibrado. Agora vem o mês de setembro, que vai ser muito duro. Por isso falávamos do aspecto mental, em que temos que nos impor desde agora. Tirando o melhor de cada um de nós. Apesar de todas as carências que possamos ter, temos que equilibrar a partir do trabalho, com concentração e pela mentalidade.
ESPN – Nos seus trabalhos anteriores, você tinha meio-campistas muito talentosos, com características bem específicas, hoje você não tem no Internacional as mesmas peças. O Bruno Praxedes pode estar nesse processo?
EDUARDO COUDET: Sempre digo o mesmo, não gosto de falar especificamente de um nome. Mas como você dizia, anteriormente, tinha em outro clube. E não é fácil repor com jovens em muitos momentos, porque os jovens vão crescendo jogando. Obviamente que um jogador mais novo não vai administrar o jogo da mesma forma que um que tenha 200, 300 jogos no elenco principal. Então, é difícil ter o mesmo resultado. Temos que dar aos uma estrutura para que tenham o mesmo crescimento, vão crescendo e cada vez vão se sentindo mais cômodos, cada vez mais soltos. Eu sei, porque eu joguei. Os primeiros jogos são os que falam, que o jogador não se soltou, não mostrou toda as suas características. Se pensar nos mais jovens, isso acontece em muitas equipes. E aqui o mesmo. Então quando entram quinze, vinte minutos, começam a dizer: ‘Ah, tem que jogar, esse, aquele outro’. E, volto a repetir, no início é mais difícil, com a responsabilidade e com muitas coisas. Mas vamos necessitar de todos, temos muitos jogos. Vamos tentar no dia a dia jogar da mesma forma. Isso o tempo e o trabalho vão dar. Se nos acompanham os resultados, muito melhor.
ESPN – Quando você chegou ao Internacional, me falaram que você era obcecado por futebol, que conhecia já todos os jogadores, sabia tudo, mesmo da base. Você é assim?
EDUARDO COUDET: Eu gosto muito de futebol! Tinha também um acordo com o clube para me mandar imagens para poder ver não só os jogadores do time principal, que eu já conhecia a maioria, mas também ter a possibilidade de ter imagens do sub-23, principalmente por estarem mais próximos do principal. Pedi para acompanhar jogos para ver características de jogadores que não tinha participado tanto do time principal. Nesse caso, Johnny, Zé Gabriel, Roberto e mesmo Fuchs, que não tinha participado muito. Jogadores que estavam no sub-23 que tinham tido mais minutos. Queria saber quais eram as características de jogo, o que poderiam oferecer, a partir daí trabalhar e apostar no crescimento deles.
ESPN – Se você assiste muito futebol, como disse, é um estudioso do futebol. Tem alguma trabalho que se aproxima que está fazendo ou que busca fazer? Quais são as suas referências?
EDUARDO COUDET: Gosto quando se joga bem o futebol ou quando se interpreta bem o futebol. Acredito que existem grandes treinadores. Aqui mesmo no Brasil tem muitas propostas de diferentes treinadores brasileiros, que enfrentei em Copa Libertadores, Sul-Americana. São diferentes, as equipes são diferentes, sempre eles têm propostas diferentes, enfrentei treinadores muito bons. A cada rodada se vê. É um futebol que me impressionou muito, para o bem, pela qualidade, pela quantidade de jogadores, pelas características, pela genética dos jogadores brasileiros. Estou tentando aprender cada semana, vendo algo. Sou muito próximo do Jorge [Sampaoli], que me ajudou muito. Mas pensamos diferente, talvez na parte estratégica, mas coincidimos muito sobre valores importantes para o jogo. Existem grandes treinadores e craques, mas temos que aprender um pouco com cada um. Porque tem o Barcelona do Guardiola ou o Manchester City do Guardiola, vamos aprender, mas estamos longe de poder fazer o mesmo por várias razões. Então, cada treinador tenta jogar o que quer ou o que pode. Todas as estratégias são respeitáveis. Assim tem que tirar o melhor, tem que ir analisando cada jogo. Cada jogo é uma história distinta. Cada partida é uma história. Por isso sempre digo aos jogadores, cada partida é uma história e tem que escrever a volta. Por isso o treinamento da semana muda, você muda como treinador, e muda o treinador de outra equipe, assim é um jogo que vamos jogando todos os treinadores e tentamos ganhá-lo.
ESPN – Quando você recebeu a proposta do Internacional, você consultou o Sampaoli sobre o futebol brasileiro?
EDUARDO COUDET: Sim, óbvio. Falei com o Jorge. Ele me disse que era um futebol que eu ia gostar muito, que era muito competitivo. Ele gosta muito desse futebol. Não me disse nada mais do que a verdade. É um futebol extraordinário, eu gostei muito. É muito competitivo, onde qualquer time pode vencer qualquer um. Estamos vivendo um tempo diferente. Sem torcida, equilibrou muito tudo. Acho que não somos os mais favorecidos com isso, porque nossa torcida é muito importante quando jogamos em casa. É algo que temos que nos acostumar. São duas coisas que sinto muita falta: as pessoas no Beira-Rio e minha família, que não veja há quatro meses.
ESPN – Você viveu também a expectativa de um clássico aqui, mas também já jogou um River x Boca. Quais são as diferenças/semelhanças com os clássicos argentinos?
EDUARDO COUDET: É importantíssimo. Tínhamos a intenção de mudar um monte de coisa. Desde a impor uma forma de jogar, de treinar, uma forma de viver o clássico. E toda a escrita do Gre-Nal, e não pudemos mudar. É uma dívida pendente que tenho. Sei que sou responsável. Essa sequência toda a favor do Grêmio que não pudemos encerrar. Às vezes, é difícil de encerrar com uma sequência nesses clássicos, porque justamente são sequências que se vão dando. Eu como treinador, no meu primeiro ano como treinador, joguei um Rosário Central, e o Central vinha de ganhar três, e ganhei quatro e depois cinco. É uma sequência que se dá normalmente como antes se deu com o Inter, anos atrás. Mas tem que quebrá-la. E vamos trabalhar para isso. É a partida que mais dói perder. Não é uma questão de que porque sou estrangeiro, que não sinto. Ao contrário, eu quero ganhar. Eu disse que a primeira coisa que fazemos é ver quando vamos nos enfrentar novamente. No 23 de setembro vamos, teremos uma nova história para escrever. Tenho uma coisa muito clara na cabeça, pode dizer que os clássicos são todos diferentes. Tem clássicos que têm mais repercussão, mas aqui se vive numa cidade dividida, lembra muito Rosário. Mas aqui tem a sorte que aqui tem outra cabeça, muito melhor, pode ter uma arquibancada com pessoas misturadas, das duas torcidas. Isso não aconteceria em Rosário. E num River x Boca menos ainda, num San Lorenzo x Racing também não, Racing x Independiente, isso é algo bom de se esperar. Mas todos os clássicos são diferentes, todos os clássicos têm um valor importante. E se tem algo com bons números, como você mesma disse anteriormente, podem nos cobrar. Mas estou seguro na minha cabeça, confio até a morte nesses jogadores, que vamos reverter essa história.
ESPN - O que está acontecendo no futebol brasileiro que os treinadores estrangeiros têm se destacado tanto?
EDUARDO COUDET: Não acredito que algo esteja acontecendo. É uma coincidência. Acredito que tenha boas propostas de treinadores brasileiros. Nessa cidade, aqui o Renato foi muito bem. Já enfrentei equipes em outras competições, como te dizia. Já enfrentei Roger Machado, Cuca, Mano Menezes. E sempre foram duríssimos. Sempre colocaram algo diferente. Agora com o Santos, que iríamos enfrentar o Cuca, procurei Rosário Central e Palmeiras de 2016, para ver o que ele poderia repetir. Porque foi um jogo lindo, 3 a 3. Pensei que poderia jogar com um zagueiro a mais, e depois aconteceu. Tivemos a sorte de preparar os jogadores pensando nessa possibilidade. São grandes treinadores que enfrentei. Tem grandes treinadores no Brasil. Não acredito que tenha relação com a nacionalidade. Claro que tivemos essa oportunidade de nos convidarem para vir, e temos que seguir aprendendo. É um futebol que te faz crescer. Que não te deixa dormir muito, porque se joga muito, constantemente não dá nem tempo e já está pensando no outro rival. Mas é lindo isso e é o que nos apaixona. A intenção é essa, seguir melhorando, seguir aprendendo nessa profissão que nunca se deixa de aprender. E de olhar. Tem que olhar e roubar coisas. De todos os jogos, de cada treinador, e tentar roubar algo. É a minha intenção, sem nenhuma maldade.
ESPN – Qual foi o melhor jogo do Internacional até aqui?
EDUARDO COUDET: Não sei dizer, porque sempre vão mudando as estratégias, os rivais, vamos tentando adaptar as coisas ao que passou, ao que vai acontecer. É muito difícil dizer, se tivesse que escolher, te diria que tomara que seja o próximo. E assim ir a cada três dias, quando temos que jogar. Essa é a nossa ideia, ir melhorando a cada dia, ser competitivo em cada jogo. Queremos nos manter lá em cima, gostamos de nos ver lá, gostamos de ganhar. Temos a cada três dias a possibilidade fazer isso, então temos que competir. A única maneira para isso é no dia a dia.
ESPN - Qual o papel de um treinador no processo de "recuperação" de um jogar, sem que a gente cite nome x ou y, Alexandre Pato ou qualquer outro nome?
EDUARDO COUDET: Nós trabalhamos com os jogadores da mesma forma, no dia a dia. Mas também digo aos jogadores que eles têm a obrigação de me exigir se em algum momento não estiver tratando da mesma maneira algum jogador. O jogador, apesar de todas coisas, é uma pessoa. Acontecem coisas que passam com todas as pessoas. Mesmo que seja desse lugar de privilégio, que sabemos que temos, no qual milhares de pessoas gostariam de estar, mas são pessoas que têm problemas pessoais. Podem estar mal um dia, coisas acontecem. Você tem que ter um vínculo, uma compreensão. Quando eu busco jogadores para trazer ou quando falamos dos que vão permanecer, tento checar sobre como são como pessoas. É o que acaba fazendo a diferença, boas pessoas, boas cabeças com a intenção de crescer. Me contratam para fazer o melhor, então a minha obrigação interna é que do dia que eu chego ao dia que eu vou embora, a ideia é saber que eu fui melhor em algo com meu trabalho. É o que tento fazer com cada um deles. Essa é a intenção e depois é trabalhar, é exigir, viver de uma forma natural. Que o jogador sinta que podemos estar de brincadeira, tranquilo, falando de igual para igual, e na hora que começa o treinamento, uma hora e quinze, trinta, quarenta, o que durar o treino, é exigência total. E quando termina o treino, podemos falar de outra maneira. Os jogadores não gostam que você minta, gostam que você fale a verdade e de frente. Assim você evita um monte de problema. A pergunta mais normal é, por que não jogo? Por que sai? Você tenta responder com sinceridade. Eu tento fazer como treinador tudo que eu gostaria que tivessem feito como jogador para mim. Essa é a intenção, estar perto, ser direto. E falar com a verdade.
ESPN – Se hoje você tivesse um time ou treinasse um plantel como o Bayern, você diria ‘Não quero’? Esse não seria um desafio para você então? Já que gosta de pressão, cobranças.
EDUARDO COUDET: Sim, eu gosto da exigência. A exigência te leva a melhorar. É a realidade. E não estou alheio que a exigência vai fazer também que alguns falem bem, outros falem mal. São coisas que cercam o futebol e que estou acostumado. É meu habitat natural, faz quase 30 anos que estou no futebol profissional e eu gosto de ganhar. É o que eu tento fazer.
