Vinte sete anos atrás, ao vibrarem com a primeira conquista mundial pelo São Paulo, Rafael Spaca e Renato Dalmaso mal poderiam imaginar que estariam juntos para dar novamente vida aquele momento, agora o transformando em um capítulo da história em quadrinhos tricolor.
As páginas que relembram a conquista do mundo por Raí e companhia em 1992 fazem parte de uma obra que narrará os 90 anos do clube. Essas pagínas estão em desenvolvimento justamente nesses dias de quarentena em São Paulo, resultado da pandemia do novo coronavírus.
Com mais da metade já finalizada, a previsão é publicar a história em quadrinhos do São Paulo em outubro, mês de celebração dos 60 anos da inauguração do Morumbi. Spaca cuidou do roteiro, enquanto Dalmaso responde pelas ilustrações.
“Já pensava em fazer algum trabalho relacionado ao futebol, mas queria algo diferente do habitual. Há muitas publicações que narram a história, a fundação, a árvore genealógica. É um conteúdo massante para alguns públicos e a ideia era abranger várias idades”, diz Spaca.
A ideia de fazer em formato de história em quadrinhos foi da comerciante Daniela Holochi, amiga de Spaca. Como é fanático pelo clube, ele tem um "arsenal" no que se refere a acervo sobre a história do São Paulo. São livros, revistas e DVDs. Com tanto conhecimento, aceitou a sugestão.
“Já tenho contato com a editora AVEC por outros projetos e pensei numa história em quadrinhos. Algo novo para esse mercado. Eles gostaram, mas não tinha nenhum elo de ligação com a direção do São Paulo. Ajudou muito que Daniela Holochi, minha amiga, tinha contato com alguns diretores do São Paulo. Ficamos uns dois anos acertando”, diz Spaca.
O processo criativo e produtivo rendeu histórias curiosas.
Ao escrever o roteiro, Spaca afirma que buscou reler e rever todo o acervo particular do São Paulo. Ainda teve acesso a Michael Serra, pesquisador e historiador do clube, de quem recebeu elogios.
“Foi curioso. Ele me disse que foi a primeira vez que ele não precisou fazer nenhuma correção ou revisão em um projeto sobre a história do São Paulo, pois estava bem contanda e com detalhes. Isso já foi um prêmio”, diz Spaca.
Renato Dalmaso também é torcedor fanático do São Paulo, mas se deparou com situações diferentes ao criar o conteúdo.
“Estamos registrando agora os acontecimentos de 1992, após a Copa Libertadores. E o São Paulo conquistou o Troféu Teresa Herrera naquele ano contra o Barcelona. Pensamos em uma cena com os jogadores carregando a taça, mas você já viu como ele era? Era é enorme, pesada. Será que os jogadores a carregaram depois da conquista?”, diz Spaca.
“Eu tenho acesso ao Michael Serra para tirar dúvidas e o São Paulo tem um acervo muito completo. Mesmo dos primórdio, nos anos 30 e 40, período que existe uma carência nacional porque não se registrava os fatos em fotos ou vídeos. Assim, não temos tantas imagens do Friedenreich ou filmagens dos gols de bicicleta do Leônidas da Silva. Mas conseguimos contornar com as referências que encontramos. Já fatos mais recentes usamos o próprio YouTube. Lá, encontro imagens dos anos 90, como o jogo completo da decisão do Troféu Teresa Herrera de 1992 contra o Barcelona [o time tricolor venceu por 4 a 1]. E os jogadores levantaram aquele troféu”, diz Dalmaso.
A preocupação com os detalhes é tamanha que eles observam tudo relacionado ao período que estão retratando, do design do uniforme e seus patrocínios as expressões e traços físicos dos jogadores.
“Estamos sendo rigorosos com esses detalhes. Eu tenho dito que estamos escrevendo a biografia do São Paulo. Estamos contando exatamente como aconteceu. Os anos bons, que marcaram tanto eu como o Dalmaso, com os títulos da era Telê, e as passagens difíceis, como a seca de títulos durante a construção do Morumbi e até mesmo essa mais recente. Fazem parte da história de um grande clube”, diz Spaca.
A história em quadrinhos terá uma edição única, com a história sendo narrada pelo santo Paulo (mascote do clube) de 1930 até a última temporada, que culminou na vida de Daniel Alves. Inclusive, a tendência é que o lateral direito esteja na capa ao lado de outros ídolos.
2ª Guerra Mundial e ‘Os Trapalhões’
Renato Dalmaso, 39, tem um estilo de ilustração bastante realista, o que deixa as imagens criadas por ele semelhantes a fotos. O trabalho anterior o projetou e ganhou destaque justamente pela riqueza de detalhes.
Ele publicou no ano passado “Elísio: uma Jornada ao Inferno”, relatando, em formato de quadrinhos, a experiência do soldado brasileiro Eliseu de Oliveira na Segunda Guerra Mundial. Integrante da Força Expedicionária Brasileira, o oficial ajudou a combater as tropas nazistas.
A história marcou a estreia de Dalmaso no circuito como quadrinista, deixando para trás uma vida profissional como gerente de loja de varejo (trabalhou para as operadoras Tim e Claro, por exemplo).
Trajetória diferente do produtor cultural Rafael Spaca, 39. Ele tem uma série de livros publicados com temáticas diversas. Atualmente está trabalhando em um documentário sobre “Os Trapalhões”, que deve receber o título “Trapalhadas sem fim”.
Também vinha escrevendo uma biografia do artista Dedê Santana, membro de “Os Trapalhões”. O projeto está suspenso por hora. Ainda relacionado ao humorístico, ele prepara um livro para 2020.
“A primeira biografia do grupo escrita em primeira pessoa a partir da leitura de quatro mil documentos que fiz. Selecionei declarações em que eles falam e contam sobre o grupo”, diz.
Outros dois projetos estão na manga: um livro em homenagem aos cartunistas brasileiros e uma nova obra sobre o radialista RF Luchetti (Spaca publicou um livro sobre ele em 2015).
