Eu e a minha família passamos por muitas humilhações. Tive que ouvir que não trabalhava, que vivia de sonho e era sustentado pelos meus pais.
Já tive namorada que disse que só ficaria comigo se tivesse um emprego para comprar um carro e não andar a pé.
Eu não tinha como comprar um sorvete ou ir ao cinema. Alguns parentes falavam que eu era vagabundo e que isso não me levaria a lugar nenhum. Mas nunca deixamos de lutar.
Eu trabalhei como segurança de estacionamento em um supermercado, ajudante de pedreiro, ajudante de padeiro e fiz pipas para vender.
Mas meu sonho era ser jogador de futebol. Fiz testes em XV de Jaú, Juventus, Nacional, Portuguesa, mas em nenhum deles deu certo.
Não fiz base. Tudo o que aprendi foi na várzea. Treinei muito com um senhor chamado Domingos, um cara que me ajudou demais. Nós treinávamos num campinho de terra ao lado de um rio,
Só consegui chegar a um time quase aos 20 anos, quando fui para o Ecus Suzano, que disputava a quarta divisão paulista.
Não recebia salários e passávamos dificuldades para comer e dormir. Foi quando eu descobri: eu seria pai de uma criança. Tomei um susto muito grande. Pensei em desistir de tudo, mas recebi muita ajuda de familiares e alguns amigos, que foram excepcionais.
Já estava desanimado e sem foco. Procurava um emprego qualquer, quando um amigo meu, o Magrão, que trabalha com futebol, me levou para o União Mogi. Consegui me profissionalizar na quarta divisão de 2017, fiz grandes jogos e quase conseguimos o acesso.
Ao mesmo tempo, eu tinha que continuar na várzea porque precisava de dinheiro para pagar a pensão alimentícia do meu filho, que era pequeno.
Fui depois para o Monte Azul jogar a Série A3 do Paulista e passei pela Francana para jogar a B. Mas não estava focado. Foi quando precisei entender que tinha que mudar para chegar a algum lugar.
Estava me deixando levar por baladas e mulheres. Fui mandado embora da quarta divisão e minha noiva terminou comigo.
Vi que estava fazendo tudo errado.
Foi quando recebi um presente de Deus na minha vida. O Magrão me disse que tinha um projeto que poderia me levar para a Ucrânia. Eu nem acreditei.
Eu estava muito triste ainda, mas comecei a mudar. Rescindi meu contrato com o Monte Azul e fui para o Lviv, da Ucrânia no final de 2018.
No começo não entendia o idioma. Nada. A adaptação foi muito complicada com alimentação, frio e falar com as pessoas. Quase não existem negros por aqui, as pessoas olhavam para nós. Alguns com admiração, mas outros com preconceito.
Eles não foram muito receptivos e parecem estar sempre de mau humor. Justo comigo, que sou muito extrovertido.
Depois de um ano as coisas ficaram bem mais simples. Ganhei o respeito das pessoas do clube e tem sido bom. Um ano de experiência de tudo novo.
Vivo um momento muito especial. Fiz o gol mais bonito na minha carreira e já dei duas assistências.
Eu sonhava com isso, mas não esperava que pudesse chegar tão rápido. Um ano atrás estava jogando a terceira divisão do paulista e hoje sou titular de um clube da Europa de primeira divisão.
Tudo muito rápido, mas nos planos de Deus. Eu queria chegar a algum lugar somente quando estivesse pronto. E hoje estou pronto.
Antes eu só tinha o sonho de ser vendido logo para um lugar escondido e ganhar muito dinheiro para ajudar minha família. Não pensava em ter uma carreira.
Não tive base e não tinha currículo, não tinha nada.
Hoje tenho sonhos de conquistar coisas grandes. Trabalhando duro em breve vou melhorar.
Cheguei aqui só sonhando, mas sem acreditar. Hoje vivo a realidade.

* Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Fábio Chiorino
