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Homem que carregou Pelé nos ombros após milésimo relembra loucura no Maracanã e 'armação' na Paraíba

Ao ver Pelé cercado de jornalistas e fotógrafos lutando para chegar até meio de campo do Maracanã, onde estavam os jogadores dos Santos, Aguinaldo Moreira começou a pensar o que poderia fazer pelo amigo. Ansioso e ao mesmo tempo empolgado pelo feito do camisa 10, que acabara de marcar o milésimo gol da carreira, fez uma loucura. Passou por todos os obstáculos, agachou no gramado, entrou no meio das pernas do Rei do Futebol e o ergueu nos ombros.

A cena ficou famosa e é reprisada todos os anos no aniversário do gol, em 19 de novembro. Mas Aguinaldo quase sempre não é visto. Os anos passaram e poucos sabem que o homem hoje responsável por selecionar goleiros para a base do Corinthians foi quem ergueu Pelé para a glória. Momento eternizado em fotos.

O goleiro do Santos ainda deu uma volta olímpica com o Rei em seus ombros no Maracanã. Ou quase olímpica.

"Eu pretendia correr o campo todo com ele nos meus ombros, mas não tinha condições. O Maracanã é muito grande e o Pelé era pesado. Além disso, ele estava com medo, ficava gritando: 'Eu vou cair Aguinaldo, eu vou cair'. Eu corri alguns metros com ele nas costas até as minhas pernas ficarem bambas e o cansaço se tornar insuportável. Fiz minha homenagem. Coisa de goleiro. Goleiro tem de ser louco, não é?", relembrou.

Aguinaldo não sabe dizer até hoje qual foi a inspiração para erguer Pelé em seus ombros e sair correndo pelo campo. Admite, porém, que na hora lidava com uma grande frustração. O plano dos jogadores do Santos para aquele momento foi enterrado por causa da invasão dos jornalistas e fotógrafos.

"A gente já estava vivendo a expectativa pelo milésimo há alguns jogos. Antes do jogo no Maracanã, o professor Júlio Mazzei [preparador físico] reuniu os jogadores sem o Pelé saber para combinar uma comemoração. Ele disse que se saísse um pênalti, o Carlos Alberto Torres, nosso capitão, daria a bola para o Pelé bater. E todos nós iríamos para o meio de campo aguardar por ele. Quando ele chegasse, haveria um abraço coletivo e jogaríamos ele para o alto", disse Aguinaldo.

Com 26 anos na época, o goleiro do Santos lembrou também que o mais difícil aconteceu após toda a festa.

"Depois de todo aquele tumulto, foram uns 20 minutos sem jogo, o Pelé saiu do campo, foi substituído pelo Jair Bala, e a partida contra o Vasco prosseguiu. Eu não tinha mais forças nas pernas para ficar no gol. Aguentei até o final, tentando não demonstrar isso para os jogadores do Vasco. Graças a Deus vencemos por 2 a 1".

'Armação' na Paraíba

Aguinaldo Moreira tem outra história para compartilhar sobre aquele ano do milésimo gol. E é uma "armação" dos jogadores do Santos, segundo ele, contra o Botafogo-PB, em João Pessoa, cinco dias antes de o Rei do Futebol consagrar o o gol mil no Maracanã.

Naquele jogo, Pelé já tinha feito um gol de pênalti e, se marcasse mais um, chegaria ao milésimo pela contagem oficial da época. A expectativa era muito grande, mas ele disputou os últimos quinze minutos contra o Botafogo-PB como goleiro.

Esse foi o polêmico desfecho do amistoso jogado pelo Santos em 14 de novembro, sem autorização da Confederação Brasileira de Desportos, no estádio José Américo de Almeida, para a entrega das faixas de bicampeão estadual aos botafoguenses.

Segundo Aguinaldo Moreira, que não jogou como titular porque estava com dores musculares, o Rei fez um apelo aos amigos antes do encontro.

"Ele tinha preferência por marcar o milésimo em uma partida oficial e em uma das capitais, como São Paulo, Porto Alegre, Salvador ou Rio de Janeiro. Não queria de modo algum fazer gol se sentisse que os adversários estavam facilitando para ele", disse Aguinaldo.

"O Jair Estevão foi quem jogou no gol naquele dia. E o combinado é que, se os caras começassem a dar algum sinal de que iam facilitar, ele simularia uma contusão. Aí, como não tinha outro reserva, o Pelé iria para o gol. Foi o que aconteceu, mas o público não gostou. Deu uma vaia imensa", relembrou Aguinaldo.

Foi a terceira vez na carreira que Pelé virou goleiro. Já fizera isso contra o Comercial (time extinto da capital paulista), em 1959. Depois frente ao Grêmio, em 1964. Ainda faria mais uma vez. Contra o Baltimore Bays, em 1973.

Durante a partida, o gol marcado por Pelé foi de pênalti, e ele não pretendia fazer a cobrança. Chegou a entregar a bola para Manoel Maria e depois para Carlos Alberto. Ambos negaram: "Vamos apanhar aqui!", responderam, temendo a reação do público. Eram quase 30 mil expectadores no estádio.

"A Paraíba toda gostaria que o gol fosse feito lá. Estavam presentes o prefeito de João Pessoa, o governador do Estado. Antes do jogo teve homenagens para o Pelé. Muitos torcedores foram ao estádio para torcer para ele marcar e não para festejar o time da cidade", disse Aguinaldo.

O camisa dez marcou aos 15 da etapa final. E a pressão para o milésimo aumentou. Muitos torcedores chegaram a pressionar e a vaiar os jogadores do Botafogo-PB cada vez que anulavam uma jogada de Pelé. Os gritos de "deixa" para que alguém facilitasse o caminho também foram ouvidos.

Diante dessa atmofesra, Aguinaldo recordou que a "armação" foi colocada em prática aos 30 minutos do segundo tempo, quando Pelé virou goleiro.

"Aí foi uma vaia geral. O público murchou. No gol não tinha como o milésimo sair", disse Aguinaldo.

O curioso dessa história é que quase três décadas depois a "Folha de S.Paulo" publicou uma longa reportagem revisando os gols de Pelé e afirmando que naquele 14 de novembro de 1969 os torcedores da Paraíba realmente viram o milésimo gol, apesar de não saberem disso...