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A história de filme da ex-jogadora do Atlético-MG que levou golpe, virou 'pupila' de Wenger no Arsenal e hoje treina Marta

Essa é uma daquelas histórias que parece que tudo vai dar errado - ou que no meio do caminho você pensa "Não é possível que isso vai ter final feliz".

Mas aqui vai um spoiler: vai ter final feliz. De forma improvável, mas vai.

Natural de Belo Horizonte, Ivi Casagrande tem uma relação com o futebol que começou como a de muitas: pai apaixonado pelo esporte influenciou na criação da filha.

Seu pai, ex-jogador que chegou a atuar ao lado de Raí no Botafogo de Ribeirão Preto, sempre viu com bons olhos ter a filha no estádio acompanhando o futebol, e Ivi escolheu seguir o meio esportivo como profissão.

‘’Eu tinha 5 anos quando me colocaram numa escolinha, eu e uma amiga éramos as únicas meninas. Desde essa idade, comecei a treinar. Só na quinta série da escola que tive um time feminino’’, contou.

Quando mais nova, ela só pensava no futsal e nunca havia pisado em um gramado, até ser convencida a participar de uma peneira da seleção brasileira de categoria de base - e se deu bem. Ficou entre as finalistas, e ali percebeu que deveria iniciar a carreira visando o profissional.

‘‘Conheci o pessoal do Atlético Mineiro, que tinha time feminino na época. Fui fazer um teste na Vila Olímpica, passei e comecei a jogar no Atlético’’.

ESTUDAR OU JOGAR

Mas chegar a um clube tradicional com o Atlético não é garantia de estabilidade, como acontece no masculino. Para seguir a carreira de jogadora no Brasil, Ivi, assim como várias outras garotas, precisou escolher entre o esporte ou o estudo.

‘’Tive que fazer uma escolha difícil: sair do colégio que eu amava. Fui para um colégio mais tranquilo só pra conseguir conciliar as coisas no Atlético. Joguei Campeonato Mineiro, Copa do Brasil, Copa Centenário. Nesse meio tempo, recebi uma bolsa para estudar e jogar na escola americana de BH".

Diferentemente do que acontece no Brasil, os Estados Unidos cultivam a cultura de atrelar o esporte ao ensino. No futebol feminino, ir para o país norte-americano é a saída que dá mais 'segurança' para jovens que sonham em se tornar jogadoras de futebol.

"Era perfeito, eu sempre quis vir para os EUA, decidi ir pra lá, estaria estudando, aprendendo inglês e jogando bola, um treino especifico que me ajudaria ir pros EUA. Fiquei lá por 1 ano e meio me preparando emocionalmente fisicamente para mudar de país’’, relata Ivi.

GOLPE

Visando ainda a carreira profissional, Ivi fez o que muitas jovens ainda fazem: optar por estudar em uma universidade fora onde o esporte caminha junto.

Ohio foi a casa dela por seis anos, local em que fez bacharelado e se formou na área de saúde. Mas o futebol ainda era sua paixão.

O que Ivi não imaginava era que perderia tudo quando as coisas começavam a caminhar.

"Tive um empresário com quem basicamente gastei todo dinheiro que não tinha, vendi meu computador para pagar a taxa para ele me ajudar a jogar em um time europeu... Ele simplesmente pegou meu dinheiro e saiu fora", contou Ivi.

"Eu estava trabalhando em 5 empregos, porque eu não tinha dinheiro naquela época, eu queria tentar trabalhar na medicina, acabei trabalhando em dois hospitais, um era voluntário, os outros três era de futebol, dando aula para criança e personal no campo. Vendi tudo para pagar o cara e fazer o curso de medicina, ele saiu fora, não conseguia falar com ele".

Mas do golpe do empresário e a necessidade de trabalhar em vários locais surgiu sua outra paixão: trabalhar com esporte, mas na área médica.

‘’Foi quando eu fiz a decisão: quero ficar nos EUA.e queria aprender mais sobre fisiologia do exercício. Aí fui atrás do mestrado nessa área. Foi a combinação perfeita’’.

NA BEIRA DO CAMPO

Do sonho de ser jogadora, Ivi acabou mantendo sua relação com o futebol, mas conciliando com sua formação acadêmica. O que poderia ter sido motivo para desistir, ela resolveu lutar um pouquinho mais.

Ivi começou mestrado na área e fazia trabalho voluntário na equipe de futebol feminino da universidade, onde aplicava os conhecimentos as aulas.

Neste meio tempo, a mineira conseguiu estágio em uma grande empresa esportiva dos EUA, que abriu portas para treinar times do futebol masculino como Arsenal e LA Galaxy.

‘’Nesse estágio que arrumei em Los Angeles conheci meu mentor, que era fisioterapeuta do Arsenal na época. Ele disse ‘Ivi, o que você quiser e precisar na Europa, me fala q eu te levo no Arsenal’. Eu literalmente menti que tinha uma viagem pra Europa no ano seguinte só para não perder o convite dele para conhecer o clube... eu nem tinha dinheiro para isso’’.

'Pode ser julho?'

'Pode'.

Ivi juntou todo seu dinheiro, economizou todos os centavos e conseguiu ir à Inglaterra passar 20 dias na pré-temporada do Arsenal, em 2017, ajudando nos testes físicos e aprendendo com os profissionais do clube.

‘’Eu estava com todo o elenco, via os treinos, tentava aprender com todo os preparadores físicos de lá, era quando o (Arsène) Wenger estava lá. Ele veio conversar comigo, dos meus estudos, super bacana, os jogadores vieram falar comigo. Wenger abriu as portas e foi muito legal comigo’’, revelou Ivi.

ORLANDO PRIDE, MARTA E ALEX MORGAN

Na Flórida, o Orlando Pride, equipe feminina de futebol, começava a montar um elenco recheado de estrelas: Marta, Alex Morgan, Ali Krieger, Camilinha...

Através de contatos, Ivi descobriu uma vaga aberta na comissão e pulou de cabeça.

Hoje, a mineira de BH trabalha na parte de preparação física do clube, organizando treinos e formas de melhorar o condicionamento das atletas.

‘’Trabalhar com a Marta sempre foi um sonho. Eu falava ‘Ivi você vai chegar onde você quer, você vai treinar a Marta um dia’. Eu queria, queria, queria e apareceu a oportunidade. Depois de tantos desafios, tantas loucuras...pô, valeu a pena sabe’’.

Ao fim da entrevista, quando questionada qual o próximo objetivo, a resposta foi simples: ‘’Vou sempre continuar querendo crescer, onde for, no que aparecer, mas estou focada no meu melhor’’.