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Quase 'quarentão', campeão brasileiro pelo São Paulo segue na ativa no Sergipe como jogador e cartola

Campeão brasileiro pelo São Paulo, Ramalho segue na ativa aos 39 anos como volante e coordenador técnico das categorias de base do Sergipe, que jogou a Série D nacional deste ano. O jogador ficou conhecido no país depois depois de faturar a Copa do Brasil de forma surpreendente pelo Santo André, que derrotou o Flamengo na final em pleno Maracanã.

Com a conquista, ele passou a ser cobiçado diversas equipes, mas acabou contratado pelo clube do Morumbi.

"Eu ouvi muita conversa de que o Flamengo teria vindo atrás de mim. Mas de concreto mesmo veio o Oita Trinita, do Japão, e eu queria sair. Financeiramente era legal, mas como eu tinha contrato longo com o Santo André não decidia para onde iria. O São Paulo veio atrás de mim e no começo eu não queria ir", disse, ao ESPN.com.br.

"Fui chamado para uma sala com a diretoria e o [técnico] Cuca me ligou: 'Estou perdendo o Simplício e quero contratar você'. Assim que assinei contrato com o São Paulo, o Cuca foi mandado embora", lamentou.

Durante os seis meses de empréstimo ao time do Morumbi, Ramalho pouco atuou por causa do técnico Émerson Leão. Ao retornar para o Santo André, ele jogou a Libertadores, o Paulista e a Série B do Brasileiro de 2005.

No começo do ano seguinte, o São Paulo voltou a cruzar os caminhos do volante, que foi destaque na vitória andreense por 1 a 0 no estádio Bruno Daniel pelo Estadual.

"Eu arrebentei nesse jogo e o [técnico] Muricy Ramalho gostou bastante de mim: 'Quem é o camisa 8 deles?' O Rogério Ceni me deu uma força: 'Pode trazer. É um cara que todos gostam e é bom de grupo. E trabalha como ninguém. Nisso, fui emprestado outra vez", recordou.

Com o aval do técnico, Ramalho foi peça importante no elenco que foi vice-campeão da Libertadores e venceu o Brasileiro de 2006.

"Eu fiquei um mês só treinando até que pudesse jogar. A equipe titular jogava a Libertadores e os reservas o Brasileiro. Nosso elenco era fantástico! Eu fazia dupla de volantes com o Richarlyson. Nós vencemos vários jogos, deslanchamos no Brasileiro e fomos campeões", contou.

Ramalho fez 26 partidas pelo time do Morumbi naquela temporada.

"Assim que acabou o último jogo do ano, o Muricy me disse que gostaria que eu ficasse porque o Josué e o Mineiro seriam vendidos. Eu não sei até hoje porque não permaneci. Cada hora eu ouvia dos diretores dos dois clubes uma história diferente. A situação ficou arrastada e acabei não permanecendo", afirmou.

Curiosamente, a saída de Ramalho abriu espaço para Hernanes, que estava emprestado ao Santo André e foi destaque na Série B de 2006, no São Paulo, em 2007.

Começo na várzea

Nascido em Natal-RN, Ramalho mudou-se para Santo André com apenas dois anos. Começou em times de várzea da cidade até ser descoberto por Tulica, maior artilheiro da história do Santo André.

"Ele e o Adauto [atacante campeão brasileiro pelo Athletico-PR] me viram jogando uma partida e fui bem. Tinham vários garotos da base do Santo André jogando naquele dia. Fui levado para fazer uma peneira com uns 180 garotos."

Após ser aprovado no testes no "Ramalhão" e subir aos juniores, ele chegou a largar o futebol.

"Um dia, um diretor apareceu na minha casa: 'Você tem que voltar a jogar'. Eu disse que não queria porque morava longe e muitas vezes eu ia à pé para os treinos. Ele falou: 'Eu vou te dar um vale-transporte, está bem?' Respondi: 'Convença o meu pai porque ele quer que eu trabalhe'. Deu tudo certo", contou.

Ramalho recuperou espaço e se destacou na Copa São Paulo de 2000, quando o Santo André caiu nos pênaltis nas quartas de final para o Guarani, que foi o campeão.

"Minha carreira começou mesmo ali. Fui efetivado ao profissional junto com o Fábio Santos [ex-volante do Cruzeiro e Lyon]. O Adauto foi o artilheiro daquela competição e depois foi para o Athletico-PR", recordou.

Em 2000, o acesso para a Série A 1 do Paulista bateu na trave. No ano seguinte, porém, ele conquistou a vaga na elite estadual. Pouco depois, o volante foi emprestado por duas temporadas ao Vitória.

"Fomos bicampeões baianos e vencemos a Copa do Nordeste. Além disso, vencemos o Palmeiras no Palestra Itália por 7 a 2 na Copa do Brasil de 2003. Também joguei na partida em que eles foram rebaixados para a Série B do Brasileiro, dei até um passe para gol", disse.

"Eu dava sorte contra o Palmeiras desde àquela época (risos). Às vezes até o [ex-goleiro] Marcão brincava: 'Você de novo aqui, Ramalho?'", contou.

O Vitória tentou comprar o volante, mas o clube do ABC Paulista não aceitou as ofertas do time baiano.

"Voltei em 2004 ao Santo André e fomos bem no Paulista. Não nos classificamos por detalhes, mas deu para ver que o nosso time era forte. Nosso elenco mudou bastante e depois conseguimos nos entrosar ainda mais", contou.

Ramalho foi um dos melhores jogadores na conquista da Copa do Brasil diante do Flamengo, em um Maracanã lotado.

"Esse título ficou na nossa história! O Santo André tinha que comemorar todo ano essa data e reunir os campeões. É um feito que daqui 50 anos será lembrado ainda porque está cada vez mais difícil de acontecer", afirmou.

Jogador e cartola

Em 2007, Ramalho ficou alguns meses no Santo André antes de jogar fora do Brasil.

"Um advogado judeu do São Paulo me trouxe uma oferta de Israel e fui vendido ao Beitar Jerusalém. Fui campeão lá na primeira temporada e fomos eliminados nos playoffs da Champions League. Depois, passei ainda pelo Maccabi Tel Aviv antes de ir ao Goiás", contou.

Em duas temporadas no time esmeraldino, o jogador viveu alegrias e tristezas.

"Vivi um dos melhores momentos da minha carreira, fiz gols e venci duas vezes o Goiano. Tive até proposta para ir à Coreia e não quis sair porque minha esposa estava grávida. Depois, sofri uma lesão que rompi o meu tendão de Aquiles. Ficou uma imagem de que não voltaria a jogar em alto nível porque você encurta um pouco a perna e manca um pouco. Por isso que nunca mais voltei a jogar a Série A do Brasileiro", explicou.

Ramalho passou depois por Atlético Goianiense, Criciúma, Atlético Sorocaba e Rio Verde antes de voltar mais uma vez ao Santo André.

"Montamos um time muito bom em 2014, quase conseguimos o acesso para a Série A1 do Paulista. O mais especial foi a vitória por 3 a 1 sobre o São Caetano fora de casa na última partida", contou.

Ironicamente, ele foi emprestado logo em seguida por seis meses ao "Azulão" antes de retornar ao "Ramalhão". Depois, defendeu Paulista e ASA antes de chegar ao Sergipe, em 2017. Na equipe, o volante acumula a função de jogador e cartola no clube.

"Eu fui campeão estadual em 2018, mas esse ano não fizemos uma boa campanha na Série D do Brasileiro. Temos muitos talentos na região. Além disso, eu estou como coordenador técnico da base do clube, vamos jogar o Sub-17, e tenho um projeto no futsal em Aracaju", afirmou.

"Tenho a ideia de jogar mais um ano ou dois ainda. Hoje, estão jogando os meninos nascidos em 2000. Eu atuei no começo de carreira com caras que nasceram no anos 60! Meu treinador neste ano, o Betinho (ex-Palmeiras), atuou comigo no Santo André!", disse, aos risos.