Há 15 anos, o Santo André surpreendia ao derrotar o Flamengo por 2 a 0 na final da Copa do Brasil. A equipe do ABC conquistava o principal título de sua história e calava mais de 72 mil flamenguistas no Maracanã.
Um dos grandes heróis daquele feito quase inacreditável foi Sandro Gaúcho, autor do primeiro gol do jogo - o outro foi anotado pelo meia Élvis. O camisa 9 do Ramalhão já era um veterano no mundo da bola e pensava até em pendurar as chuteiras no começo daquele ano.
Quis o destino, porém, que seus planos mudassem para que vivesse o ponto mais alto de sua carreira. Aos 51 anos, o ex-atacante mora nos EUA e colhe até hoje os frutos daquela noite de 30 de junho de 2004...
Veja o depoimento de Sandro Gaúcho para a ESPN:
Eu estava pensando em me aposentar e já tinha até voltado para jogar o Gaúchão pelo Novo Hamburgo. Antes de uma partida em Passo Fundo, eu encontrei com um menino que tinha jogado comigo no Mogi Mirim. Ele disse: ‘Sandro, você por aqui! Quando a gente envelhece começa a cair para cá e depois vai jogar a segunda divisão!’ Eu brinquei: ‘Eu estou aqui só de passagem. Você vai me ver logo em outro lugar’.
Dito e feito....
No dia 21 abril de 2004, ele me viu jogando no estádio Vermelhão da Serra.
No dia 30 de junho de 2004, aos 36 anos, eu estava no Maracanã sendo campeão da Copa do Brasil!
Tem horas que não acredito no que fiz. Como é que pode?
Depois do Estadual, eu fui contratado pelo Santo André. Era um time que eu tinha jogado em 2001 e conquistado o acesso para a Série A1 do Paulista. Minha reestreia foi contra o Guarani pela segunda partida das oitavas de final da Copa do Brasil.
Ironicamente, eu quase tinha ido para lá naquela época, mas pela demora na hora de fechar o negócio eu fui para o Santo André. Eles acabaram contratando o Viola.
Com um time quase todo novo, a gente eliminou o Guarani com um empate sofrido em 0 a 0.
Pouco depois, o nosso técnico, Luis Carlos Ferreira foi embora e eles trouxeram o Péricles Chamusca para o lugar. Enfrentamos o Palmeiras nas quartas, que era um time muito difícil e que tínhamos uma certa rivalidade. O primeiro jogo em casa empatamos em 3 a 3 e eu fiz um gol. O Marcos quando me viu brincava: ‘Você de novo, negão?’.
Na volta, o Parque Antárctica estava lotado e o resultado foi inacreditável. Estávamos perdendo por 4 a 2 até o final do segundo tempo. Eu perguntei ao Corrêa, volante do Palmeiras: ‘Se der empate em 4 a 4, o que acontece?’ Ele respondeu: ‘Vocês se classificam pelos gols fora de casa’.
A gente treinava muito as bolas paradas e tínhamos ótimos batedores como o Dedimar e o Élvis. Sabíamos das dificuldades deles disputávamos no alto trombando com o Marcos. Fiz o terceiro gol e saí gritando para o pessoal que só faltava um! Quase nos acréscimos, o Tássio fez o quarto também do mesmo jeito.
Conseguimos nos classificar, mas ainda pensávamos jogo a jogo.
A semifinal foi contra o XV de Campo Bom-RS que era comandado pelo Mano Menezes. Nosso time estava pregado porque tínhamos jogado pela Série B do Brasileiro no final de semana no calorzão de Belém. Na quarta, estávamos no frio do Pacaembu e saímos perdendo por 4 a 1.
Ali eu achei que tinha acabado, mas conseguimos fazer dois gols e fomos com uma derrota por 4 a 3. O XV já estava garantido na final, todos falavam isso.
Fomos jogar no estádio Olímpico Saímos perdendo por 1 a 0, mas ali nós mostramos um grande senso de superação e dedicação. Nós sempre buscávamos os resultados fora de casa.
Eu empatei o jogo e depois fiz um dos gols mais lindos da minha carreira diante dos meus familiares. Recebi um passe dentro da área, dominei no peito tirando do lateral e cortei de uma vez o goleiro e o zagueiro. Eu poderia encher o pé, mas tinha um defensor e acertei uma cavadinha. Tive muita frieza nessa hora!
Antes do fim, do Makanaki fez um gol e nos colocou na final da Copa do Brasil. Sendo bem sincero, foi só ali que eu percebi que poderíamos ser campeões. Nosso time “deu liga” muito rápido porque tínhamos uma mescla de jogadores experientes com garotos muito bons. A final foi contra o Flamengo, que estava invicto na Copa do Brasil e tinha sido campeão carioca. Não pudemos fazer a primeira partida no nosso estádio e tivemos que jogar no Parque Antarctica, onde a maioria da torcida era deles.
Nós tínhamos que dar a vida. Era uma chance única, não podíamos desperdiçar. Conseguimos empatar em 2 a 2 e ficou um gostinho de vitória que escapou. Mesmo assim, nós vimos que era possível.
Acredito que tenha sido melhor assim porque se tivéssemos vencido era capaz de jogarmos de uma forma diferente. E nos deixou com os pés no chão.
Eu me senti um pouco culpado porque no gol de empate do Flamengo eu estava na barreira e a bola que o Athirson chutou passou pelo Ramalho e por mim. Eu fiquei bem chateado depois.
Lembro que fui a um programa de TV na hora do almoço e não paravam de mostrar o lance. Eu falei para o apresentador: ‘Na semana que vem você vai mostrar a nossa vitória e o gol que vou fazer o dobro de vezes desse aí’. Isso me motivou ainda mais. Nós ouvimos de muita gente que o Flamengo já era o campeão. Todos os jornais já davam isso nas manchetes, parecia que não existia um adversário.
Na semana do jogo eu estava descasando e olhando pela janela e me veio um sentimento de que faria um gol. Falei para o presidente e até tirei uma foto com um papel escrito isso.
Estávamos em uma ansiedade muito grande e não víamos a hora de entrar em campo. Na noite anterior ao jogo eu quase não dormi de ansiedade e não conseguia comer quase nada.
Quando chegamos ao Maracanã era um mar vermelho e preto de torcedores. Não deixaram a gente subir para o gramado, mas depois abriram. Vimos os torcedores lotando as arquibancadas e sabíamos que eles estavam com a festa do título preparada. Tinha até um palco montado lá!
O Chamusca foi muito inteligente na estratégia de segurar a nossa equipe no primeiro tempo e apenas estudar o Flamengo. Eles eram um time mais experiente, mas que no segundo tempo caíam muito fisicamente. Por isso, iríamos para o tudo ou nada. Nem precisava de motivação depois de tudo que passamos.
Fizemos um primeiro tempo bem seguro. Quando voltamos, aconteceu o lance que mudou a minha vida...
No primeiro jogo eu sofri uma marcação muito forte individual nas bolas paradas do André Bahia. Mas teve um escanteio para gente no começo do segundo tempo no Maracanã e houve uma desatenção.
O Bahia foi marcar um outro jogador e um lateral veio me marcar. Eles ficaram naquela dúvida eu senti que era a minha hora. Eu colei no goleiro Júlio César, mas quando o Elvis bateu o escanteio pela direita eu fui para o meio da área e estava praticamente sozinho.
Eu quase não saí do chão para cabecear. Só direcionei a bola para onde queria. Foi uma chance única. Eu sempre fiz muitos gols de cabeça, mesmo tendo só 1,75m, porque treinava muito. Tinha um senso de colocação e um tempo de bola corretos.
Nunca comemorei um gol com tanta alegria na minha vida! Pulei, tirei a camisa e saí balançando ela no ar... Nem liguei para o cartão amarelo que tomei.
Eu só escutava a voz dos meus companheiros gritando dentro de campo. Lá no fundo, só um barulhinho da nossa torcida. Mas era um silêncio impressionante no estádio lotado.
Esse gol deu uma vitamina na gente muito grande. Depois, o Elvis fez o segundo gol e nós administramos o jogo com muita tranquilidade. O título não ia escapar da gente. O Flamengo estava muito fragilizado e os jogadores estavam nervosos. O Bahia até falou para mim: ‘Não dá nada certo para gente hoje!’ Eu respondi: ‘Mas para a gente está dando. Infelizmente para vocês essa vai ser nossa’.
No fim do segundo tempo, eu implorava para o Carlos Eugênio Simon terminar o jogo. Ele só me falava: ‘Calma, Gaúcho. Joga bola que falta pouco’.
Quando finalmente ele terminou a partida nós mal sabíamos como comemorar. Foi uma alegria difícil de descrever com palavras.
Naquela noite fomos comemorar o título na churrascaria Porcão e estava toda diretoria do Flamengo. Foi algo surreal, porque uns torcedores começaram a nos vaiar e o Branco, que era diretor, deu maior lição de moral nos caras. Disse que deveríamos ser saudados pelo que tínhamos feito e foi uma cena meio surreal. Acabamos aplaudidos pelos mesmos caras e sentamos ao lado dos flamenguistas.
Naquela madrugada, o Tássio, o Makanaki e outros moleques caíram no mar de Copacabana. O nosso diretor, Sérgio do Prado, ficou desesperado: ‘Tirem eles da água, imagine se eles morrerem afogados!’.
No dia seguinte, a festa foi linda em Santo André. Fizemos uma carreata em cima do caminhão do corpo de bombeiros por toda cidade.
Eu tinha 36 anos e estava quase parando, mas Deus me deu uma chance de ganhar um título de expressão e coroar a minha carreira. Foi a primeira final que joguei na vida como titular.
Ainda recebi vários convites de grandes clubes do Brasil. Minha multa rescisória era de R$ 30 mil, acredita? Veio o Flamengo com o Júnior, que ligou para o Santo André. Uma época estive para ir para o São Paulo com o Cuca, mas como ele foi demitido e chegou o Leão, o negócio não aconteceu. O Bahia esteve perto de me levar e o Palmeiras também ficou interessado. Falei com a diretoria do Santo André e acabei ficando. Foi ótimo porque joguei a minha única Libertadores em 2005.
Isso tudo me deu uma motivação para continuar jogando até o fim de 2007. Eu poderia talvez ter jogado mais um tempo e me tornado o maior artilheiro da história do Santo André, mas nunca tive esse tipo de vaidade. Conquistei coisas muito lindas pelo clube.
Depois que me aposentei eu continuei no futebol. Fui técnico do time b do Santo André e trabalhei com garotos fantásticos como o Ricardo Goulart, Júnior Urso, Júnior Dutra, Júnior Caiçara e outros...
Também comandei o time principal do Ramalhão e fui auxiliar do técnico Fahel Júnior em outros clubes.
Desde o ano passado, eu moro em Tampa, perto de Orlando, nos Estados Unidos. Ainda quero montar uma escolinha por aqui. Aonde eu vou, as pessoas me perguntam: ‘Como foi silenciar o Maracanã?’ Eu respondo: ‘O Santo André conseguiu esse feito’.
Aqui tem muitos cariocas e flamenguistas que conhecem a história. Virei um embaixador do Santo André. A carreira de jogador de futebol não é fácil, ainda mais para quem jogou em muita 'cascuda' como eu!
Agora, 15 anos depois é que a ficha está caindo. Falo dessa época como se fosse ontem. A gente está na história de muitas pessoas que até hoje falam comigo e me contam alguma coisa dessa época que eu não sabia.
Essa conquista na minha vida é um presidente de Deus. A gente colhe muitos frutos dela até hoje.
