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'Foi um brasileiro que começou tudo para nós no futebol peruano', relembra ídolo e campeão da Copa América pelo Peru

Adversário da seleção brasileira neste sábado (22) e almejando até a primeira colocação do Grupo A da Copa América, a seleção do Peru volta a experimentar sentimentos que provou há exatos 50 anos, quando tinha como treinador o brasileiro Didi (ídolo do Botafogo e campeão mundial em 1958 e 1962) e surpreendeu o planeta do futebol.

A equipe bicolor fez uma campanha totalmente acima das expectativas e obteve a classificação para a Copa do Mundo de 1970, no México, eliminando Argentina e Bolívia na eliminatória. Foi o início da chamada era de ouro peuana, que duraria até 1982.

"Ele iniciou um trabalho que durou anos na seleção. Um trabalho organizado, que nos levou pela primeira vez ao Mundial. Ele nos deu essa lição de como deveria ser a preparação de uma equipe e nós soubemos dar sequência", disse à reportagem Juan Carlos Oblitas, famoso ponta-esquerda peruano nos anos 70 e 80 e atualmente diretor esportivo da seleção, mentor do projeto de recuperação da equipe.

Didi viveu o melhor momento da carreira no Rio de Janeiro nos anos 50 e 60. Primeiro no Fluminense e depois no Botafogo, onde formou um ataque mágico com Garrincha, Amarildo e Zagallo. Foi campeão das Copas de 1958 e 1962 pelo Brasil, tendo sido eleito o melhor jogador do torneio no ano em que a seleção levantou a taça pela primeira vez. Chegou a jogar no Real Madrid com Puskas e Di Stefano por uma temporada (teve poucas partidas e voltou logo ao Brasil). Chegou a treinar outras equipes além do Peru, como Cruzeiro, River Plate, São Paulo, os dois clubes onde mais fez sucesso, entre outros.

Oblitas não chegou a ser treinado por Didi, pois ingressou na seleção principal em 1972, mas usufruiu da semente que Didi plantou para os peruanos. Depois de 1970, a equipe jogou dois dos três Mundiais seguintes (1978 e 1982) e conquistou uma Copa América, em 1975.

Após 1982 e até o último Mundial, em 2018, o futebol peruano viveu um período de "depressão", com campanhas frustrantes tanto na Copa América (os melhores postos foram terceiros lugares em 1983, 2011 e 2015) e nas eliminatórias para as Copas do Mundo.

Em 1987, um trauma nacional, com um acidente aéreo que vitimou 16 jogadores do Alianza Lima, deixou cicatrizes também.

O Peru começou a ter uma retomada após a contratação de Ricardo Gareca, em 2015. Iniciou um trabalho com pilares fundamentados em disciplina, estilo de jogo e valorização da base. O projeto foi idealizado por Oblitas e tinha como meta a Copa de 2022.

"Quando contratamos Ricardo Gareca, nós fizemos pensando nisso, em estar em um Mundial novamente, mas também para que retomasse um trabalho no Peru, com as técnicas modernas. Ele é o verdadeiro líder desse grupo e desse trabalho", disse Oblitas.

Com quase 50 anos de serviços prestados à seleção peruana (como jogador, treinador e diretor), Oblitas arrisca comparar o que Gareca vem fazendo ao que Didi fez no início dos anos 70.

"A filosofia do Didi era toque, toque, toque. Dizia 'dois toques, dois toques'. Era a filosofia do Didi. Ricardo tem a mesma filosofia, com a mudança que a preparação física moderna, a dinâmica e a intensidade do futebol proporcionam ao jogo de futebol", disse.

Veja a entrevista com Juan Carlos Oblitas

ESPN - O começo da era mais importante do Peru foi com um brasileiro: Didi. O senhor conviveu com ele naquele período? Que observações fez?
Juan Carlos Oblitas: Eu conheci o Didi quando era da seleção juvenil do Peru e ele estava na seleção principal. Nós éramos sparring da seleção principal. Fizemos diferentes partidas, algumas no campo de La U, outras no estádio Nacional. Foi quando o conheci. Tinha muita admiração, muito respeito por ele. Posso dizer que era uma admiração que se tem ao ver uma estrela do futebol. Foi a partir de Didi que o Peru iniciou um trabalho de anos na seleção, um trabalho organizado e que pela primeira vez nos colocou em um Mundial, em 1970 no México. Didi nos deu essa lição de como deveria ser a preparação de uma equipe. E demos sequência. Em 1973, não fomos para a Copa de 1974, nos eliminou o Chile em um jogo desempate. Depois vieram as Copas do Mundo de 78 e 82. Tudo fruto de um trabalho iniciado por Didi em 1970. É claro que ele tinha também um grupo de jogadores com um nível superlativo.

ESPN - Relembra os nomes daquela época e com quem você treinou?
Juan Carlos Oblitas: Eram tantos... Cubillas, Sotil, Baylón, Gallardo, Cachito Ramírez, Luis Cruzado, Chale, Miflin, Chumpitaz, De La Torre, Pedro González, Fuentes, Essa era seleção base, mas havia um grande grupo também atrás, esperando para jogar. Tinha Percy Rojas e outros jovens com muito nível. Eu apareci um pouco depois. Era mais jovem. Em 1972 sou chamado para a seleção. No ano seguinte, virei titular na eliminatória e fiquei assim até 1985, quando eu me aposentei.

ESPN - O senhor não foi treinador por Didi, mas treinou contra a seleção dele. Quais são as recordações dele?
Juan Carlos Oblitas: Uma vez no campo de La U, e eu era jogador de La U, e ele me disse, sabendo que eu era agitado: 'Você, fique calmo com os meus jogadores, hen? Tranquilo”. [risos] Era um senhor muito simpático. Falava pouco, mas muito simpático. Nos tratava muito bem. E nós tínhamos orgulho de jogar contra a seleção principal.

ESPN - O trabalho iniciado com Didi em 1969 e que teve outros técnicos a partir de 1970 acabou culminando no título da Copa América de 1975, com o senhor em campo. Aquele título foi resultado do trabalho de Didi?
Juan Carlos Oblitas: Claro. Aquela Copa América fomos jogar pensando muito em amor próprio. Naquele momento, o Peru tinha um governo militar de esquerda, que queria eliminar o futebol profissional. Nós jogamos de graça, sem receber nada. Não cobramos nada para jogar. Nos apresentávamos para a seleção para jogar e nada mais. E nós tivemos a satisfação de jogar a semifinal contra o Brasil. Jogamos em Belo Horizonte. O Brasil formou uma equipe de Belo Horizonte, com alguns reforços. Não era a grande seleção brasileira, embora tivesse com grandes jogadores. Fizemos uma partida excelente. Quem me marcou foi Nelinho, um jogador excepcional e com uma pegada excelente. E eu tinha que cuidar muito das suas projeções. Vencemos por 3 a 1 e depois jogamos em Lima, mas pensávamos já ter a classificação garantida. Não! O Brasil nos venceu por 2 a 0 e voltamos a nossa realidade. Fomos a final por sorteio. Recordo que estava em casa e escutei o resultado pelo rádio. Vibrei com um grito. Aí jogamos a decisão com a Colômbia e ganhamos o campeonato.

ESPN - É verdade ou lenda que Hugo Sotil "fugiu" do Barcelona para jogar a terceira partida da final?
Juan Carlos Oblitas: Hugo Sotil não havia jogado nenhuma partida da Copa América, mas para a partida em Caracas [a última do torneio] ele mesmo pediu dispensa especial ao Barcelona. Chegou a nossa concentração com um diretor do Barcelona. E ele fez o gol do nosso título. Era um jogador esplêndido, de uma condição técnica espetacular. Eu sempre o admirei muito. Tinha uma categoria enorme. Nessa época não existiam as datas Fifas. O jogador tinha de ter permissão do clube. Um exemplo: Percio Rojas jogava no Independiente, da Argentina, e muitas vezes chegava no mesmo dia para jogar pelo Peru. Mas, sobre essa história que você me perguntou,é uma lenda, uma história que se criou. Sotil pediu dispensa, foi atendido e chegou com um diretor do Barcelona. O futebol tem muitas lendas, muitas histórias e muito romantismo, que acabam alimentando situações como essa. Mas não é verdade.

ESPN - Como foi voltar ao Peru como campeões, após problemas com a ditadura do general Juan Velasco Alvarado?
Juan Carlos Oblitas: Muita gente nos recebemo no aeroporto. Depois muitos foram ao estádio Nacional para festejar. No entanto, no dia seguinte fomos embora, cada um para se apresentar ao seu clube e acabou. Chegaram a nos prometer um partida extra para ganhar um prêmio, mas nós não nos importávamos com isso. Buscamos o que queríamos: jogar bem a Copa. O título foi um sonho. E depois o governo repensou, percebeu que deveria estar ao lado do futebol e mudou totalmente o que tinha pensado. O governo não chegou a causar problemas aos jogadores, mas sim para a federação. Tanto que essa seleção de 1975 não foi administrada pela Federação Peruana de Futebol, mas sim pela Associação Nacional de Futebol, que é formada pelos clubes. Eles não tinham representatividade perante a Fifa. A Associação era um conglomerado de clubes. Tivemos alguns problemas com eles, mas eles se deram conta depois que todo governo ditatorial utiliza o esporte a seu favor e perceberam que o melhor para eles era estar com nós e não contra nós. Não seria benéfico para eles ficarem separados da seleção peruana.

ESPN - Os últimos respiros daquele momento bom foram as Copas de 1978 e 1982. Depois...
Juan Carlos Oblitas: Eu acredito que a melhor equipe que eu tive a sorte de participar foi a de 1982. Em 1981, nas eliminatórias, estivemos em nível muito bom. Muito melhor que em 1978. Mas acredito que houve uma estratégia péssima durante a nossa preparação. A Federação fez um contrato com uma empresa de televisão, que nos obrigou a fazer uma série de partidas amistosas antes do Mundial. Se ressaltou mais a parte comercial do que a técnica. Quando chegou o Mundial, o nível técnico, que deveria estar em no alto, teve uma queda grande. Foi isso que aconteceu com o Peru e terminamos mal, eliminados na primeira fase. Aquela equipe de 1982 era bem melhor que a seleção de 1978. Jogava bem podia enfrentar qualquer um de igual para igual. Ganhava, fazia os resultados. Quem nos treinava era o Tim. Foi uma pena grande o fim daquela era com a geração de 1982 mal preparada para a Copa.

ESPN - Após 1982, o Peru teve uma queda e ficou fora de oito Mundiais. Durante esse período, teve uma tragédia envolvendo o time do Alianza Lima, que perdeu 16 jogadores em um acidente aéreo em 8 de dezembro de 1987. Essa tragédia pesou?
Juan Carlos Oblitas:
Não é como dizem. Aquela tragédia não significou o atraso do Peru na busca dos objetivos. Aquela equipe do Alianza era realmente muito boa. Eu era o técnico de La U, rival, e conhecia todos os jogadores deles. Quando treinei a seleção juvenil eu tive a oportunidade de treinar alguns nomes do Alianza, que estavam naquele trágico acidente, como Bustamante, Escobar, Casanova. Tive esses jogadores. Mas não é como se diz que o acidente atralhou a seleção. O grande problema do Peru foi que não trabalhamos. Deixamos de trabalhar. A boa fase da seleção, que durou de 1970 até 1985, não teve sequência. Frustrou, aplacou, opacou duas gerações. E os dirigentes pensavam que os que vinham iam se desenvolver sozinho, diferente de nós que nós desenvolvemos porque tivemos muitos trabalho. Ao mesmo tempo, Chile, Colômbia, Bolívia e Venezuela começaram a trabalhar a base e evoluíram. Não vamos falar de Brasil e Argentina, que sempre fizeram esse trabalho com a base. Mas no Peru deixamos de trabalhar a base. É o que estamos tentando recuperar nesse momento para ter um futuro.

ESPN - O técnico Ricardo Gareca foi uma ideia sua? Ele foi contratado em julho de 2015 e devolveu o Peru a uma Copa após 36 anos.
Juan Carlos Oblitas:
Quando contratamos Ricardo Gareca, nós fizemos pensando nisso, em estar em um Mundial novamente, mas também para que retomasse um trabalho no Peru, com as técnicas modernas. Eu sou o diretor esportivo desse projeto que chamamos Catar-2022. Ele fez um trabalho esplêndido, tendo grandes jogadores. Conseguimos chegar a última Copa, antes do que pensávamos ser possível. Ricardo é o verdadeiro líder desse grupo. Agora iniciou um momento mais difícil. Temos de manter o que foi feito e nos superar. O sarrafo está mais alto e temos que manter o que conseguimos e ir além.

ESPN - Um brasileiro no início dos anos 70 e um argentino agora. É possível traçar alguma comparação entre o que fez Didi e o que está fazendo Gareca?
Juan Carlos Oblitas:
Digamos que para Didi era muito mais fácil colocar em prático aquilo que pensava porque a dinâmica do futebol era outra. A filosofia do Didi era toque, toque, toque. Dizia 'dois toques, dois toques'. Era a filosofia do Didi. Ricardo tem a mesma filosofia, com a mudança que a preparação física moderna, a dinâmica e a intensidade do futebol proporcionam ao jogo de futebol. Creio que o mais importante do trabalho atual é que ele conseguiu ter um grupo de jogadores com disciplina, com uma ideia de seleção e tirando dos jogadores mais potencial do que muitas vezes eles apresentam em seus clubes.