Nesta sexta-feira, 21 de junho, completam-se exatos 41 anos de um dos jogos mais polêmicos da história das Copas do Mundo.
Trata-se da goleada da Argentina sobre o Peru por 6 a 0, em Rosário, resultado que colocou os argentinos na final daquele Mundial e ao mesmo tempo eliminou a seleção brasileira. Foram décadas e décadas de teorias de conspiração porque foi o saldo de gols que fez a diferença na definição do finalista. Algumas teorias acabaram atigindo o goleiro peruano Quiroga, que nasceu em solo argentino.
"Na realidade, foi uma partida que o resultado não corresponde aos resultados daquela época. A Argentina era melhor do que nossa equipe, mas não a ponto de fazer uma diferença de gols como a que o placar final apontou", disse Juan Carlos Oblitas aos canais ESPN.
Oblitas foi um grande ponta-esquerda do Peru nos anos 1970 e 1980. Chegou a ser técnico da "Nacional" e já há alguns anos é diretor esportivo, responsável pela contratação do técnico Ricardo Gareca, por exemplo.
Ele estava em 1978 e sabe das polêmicas que aquele jogo com a Argentina vem alimentando.
Para quem não lembra ou não conhece a história, a Copa de 1978 foi disputada na Argentina em um formato diferente dos atual. Eram 16 seleções divididas em quatro chaves com quatro equipes em cada uma. As duas melhores obtinham a classificação à segunda fase, que consistia em dois grupos, com quatro equipes cada um. Os primeiros se classificavam para a grande final.
Brasil e Argentina dividiram o mesmo grupo na segunda fase e chegaram à rodada final empatados em pontos e com saldo de três e dois tentos, respectivamente. Ou seja, se ambos vencessem Polônia e Peru, pela ordem, a definição do finalista seria pelos gols.
Os brasileiros entraram em campo primeiro (três horas antes dos argentinos para ser mais exato) e derrotaram os poloneses por 3 a 1. Aumentaram o saldo para cinco gols. Os argentinos jogaram sabendo que precisavam de pelo menos quatro gols a favor (sem sofrer nenhum) para passar. Golearam os peruanos por 6 a 0, com quatro gols feitos após o intervalo.
Aquela seleção do Peru não era uma equipe qualquer. Tinha feito campanha surpreendente na Copa de 1970 com Didi como técnico (foi eliminada pelo Brasil nas quartas) e foi campeã da Copa América de 1975 (eliminando os brasileiros na semifinal).
No Mundial em solo argentino, venceram a Escócia por 3 a 1 e empataram com a Holanda sem gols --seleção vice-campeã do mundo em 1974 e que seria finalista contra a Argentina em 1978. Os peruanos também tinham grandes nomes, como Teófilo Cubillas.
Ou seja, a derrota por 6 a 0 soou muito exagerada e acabou fomentando teorias da conspiração.
"O resultado foi atípico, mas o que aconteceu depois é que disseram muitas coisas, surgiram muitas explicações políticas. Para o Brasil foi frustrante porque a Argentina se classificou para a final. O Brasil teve a sua chance. Ganhou por três da Polônia. Podia ter feito mais gols e ficaria com a vaga, mas não conseguiu", disse Oblitas.
Ciente de que aquele jogo até hoje causa ira em brasileiros e que o técnico da seleção na época, Cláudio Coutinho, chegou a falar que o Brasil era o "campeão moral" (pois despediu-se do Mundial com a terceira colocação e sem nenhuma derrota), Oblitas não concorda.
"Chegaram a duvidar da nossa atuação. Já se foram tantos anos e até hoje ouvimos histórias. [Quiroga que nasceu em Rosário foi acusado de favorecer...] Quiroga não teve absolutamente nenhuma culpa nos gols que sofreu. Era um ótimo goleiro. Foi um resultado atípico e ponto. Se acabou. Não houve nada", afirmou Oblitas.
Naquele Mundial, a Argentina venceu o título pela primeira vez ao ganhar da Holanda na final por 2 a 1, na prorrogação, no estádio Monumental de Núñez, campo do River Plate, em Buenos Aires. O que alimentou as teses de que a equipe da casa foi favorecida é porque o país vivia os anos mais duros da ditadura militar, comandada por Rafael Videla.
Alguns historiadores do período dizem que a Copa do Mundo serviu para os governantes calarem os oposicionistas, em uma fase marcada por torturas e muitas mortes. Os mesmos especialistas apontam que era importante que os argentinos fossem os campeões.
Jamais houve qualquer comprovação de que aquela Copa foi alvo de manipulações, embora a suspeita pelos 6 a 0 tenha ficado...
"Até hoje, até hoje. E essas histórias chegaram no Peru e não foram esquecidas. Mas foi um resultado atípico e ponto", disse Oblitas.
