<
>

Timidez, gol de goleiro e a volta por cima no Benfica: como Portugal colocou Ederson no Manchester City e na seleção brasileira

Um sujeito muito reservado e introspectivo que, por conta da timidez, quase foi dispensado pelo Benfica, por pouco evitando uma das grandes transferências do clube e a hoje titularidade da seleção brasileira.

Ederson chegou a Portugal muito jovem. E apesar da língua e de uma cultura parecidas, teve dificuldades para se adaptar aos primeiros dias de Lisboa. Porém, um olhar atento impediu que ele fosse liberado.

João Tralhão, que recentemente esteve no Monaco como auxiliar de Thierry Henry, era também um jovem iniciante como Ederson, quando começou a trabalhar como treinador adjunto da equipe de juniores do Benfica. Nos primeiros treinamentos percebeu que no goleiro de 1’88 havia um potencial guardado.

“Ele veio muito jovem para o Benfica e quando chegou obviamente teve algumas dificuldades para se adaptar, mas ele conseguiu dar a volta por cima e se afirmou um pouco mais tarde do que o normal, um processo natural para qualquer jovem que vem de outro continente”, contou, em entrevista à ESPN.

Tralhão diz que a responsabilidade por Ederson não ter sido dispensado pelo Benfica é do presidente Luis Felipe Vieira, atual mandatário do clube (no cargo desde 2006). “Havia críticos, gente que dizia que ele nunca poderia ser o goleiro da equipe”, relembra.

Os dias fora do Benfica

Ederson foi emprestado ao Ribeirão, uma pequena agremiação de Portugal, para jogar no time profissional, não mais entre os juniores. “A ideia sempre foi mantê-lo no radar, acreditávamos que ele teria capacidade de um dia defender o Benfica”, afirma Tralhão.

Do Ribeirão, ele foi para o Rio Ave e lá disputou posição com Oblak, hoje titular do Atlético de Madrid. Depois de começar como reserva, logo ganhou a titularidade. “Fez um campeonato extraordinário para um jovem. O Benfica, obviamente, com o direito de readquiri-lo, percebeu que ali tinha um goleiro de qualidade e o contratou novamente”.

Rui Barbosa era o preparador de goleiros do Rio Ave na época. E tinha uma difícil missão para escolher o seu camisa 1. “O Ederson era ainda um ‘guarda-redes’ jovem, mas com muito potencial. Nessa época o clube contratou o Ederson, o Oblak, e tinha também o Rafa, que transitara da época anterior”, recorda, em entrevista à ESPN, direto de Wolverhampton, onde trabalha na equipe da Premier League, ao lado do técnico (e ex-goleiro) Nuno Espírito Santo.

“Ederson já nessa altura tinha um passe muito preciso e forte era um guarda redes com uma vontade enorme de continuar a crescer, era rápido e corajoso, forte nos duelos um contra um”, descreve Rui.

Jogador de linha

João Tralhão diz que a característica do atual titular do Manchester City de jogar com os pés chamou a atenção desde os primeiros dias vividos aqui em Portugal. “Muito. Todo mundo ficava impressionado pela forma como o Ederson joga com os pés. Em um jogo pelo campeonato de juniores, contra o Braga, ele marcou um gol de uma área para a outra, a bola foi direto no gol! Toda a gente ficou surpresa, mas nós já sabíamos dessa qualidade”.

A habilidade com a bola rolando era tamanha que Ederson passou a jogar em outra posição em algumas atividades. “Em muitos treinos eu o escalava como atacante e ele era sempre o melhor artilheiro, o que dá pra perceber como ele joga bem com os pés”, revela Tralhão.

Tanto ele como Rui Barbosa ressaltam a importância de um goleiro jogar com os pés. Guardiola, por exemplo, veio buscar Ederson no Benfica por conta disso.

As estatísticas na temporada mostram a convicção do treinador. Segundo o Trumedia, ferramenta de estatísticas da ESPN, Ederson é o terceiro goleiro da Premier League com mais passes completados: 633, atrás apenas de seu companheiro de seleção Alisson (703) e de Kepa, do Chelsea (725). É também o segundo jogador da posição a criar mais chances para seu time: três oportunidades contra cinco de Ben Foster, do Watford.

Neste campeonato, ele é o único goleiro com uma assistência para gol.

Ederson vem treinando entre os titulares e deve começar jogando o amistoso deste sábado, contra o Panamá no Estádio do Dragão.

Certamente o Brasil tem muitos atacantes que são opção para fazer gol, mas tenho certeza que se o treinador quiser arriscar, o Ederson estará a disposição”, finaliza aos risos João Tralhão.