Eurico Miranda só foi presidente do Vasco em dois períodos: 2003 a 2008 e entre 2015 e 2017. Como vice-presidente ou diretor de futebol, esteve como chefe do departamento no clube entre 1990 e 2002.
Mas quem acompanhou o futebol brasileiro da década de 1980 para cá tem, por vezes, a percepção de que o dirigente comandou o clube desde e sempre até a última terça-feira, quando faleceu no Rio de Janeiro.
Ao longo dos últimos 40 anos, Eurico viveu diversos momentos que o colocaram, muitas vezes, como protagonista do futebol brasileiro, sem que ele jamais tenha chutado uma bola sequer na vida como jogador - não que isso o tenha impedido, literalmente, de entrar em campo algumas vezes.
Abaixo, o ESPN.com.br lista alguns desses momentos:
1989 - Diretor de futebol da CBF
Ricardo Teixeira foi alçado ao cargo de presidente da CBF por um único motivo: era genro de João Havelange, então presidente da Fifa.
Com pouco ou nenhum conhecimento sobre o futebol, Teixeira, por "sugestão" do sogro, apontou Eurico Miranda para diretor de futebol da Confederação, a fim de lhe assegurar o traquejo político que ele não tinha.
No cargo, Miranda não deixou saudades. Foi ele o responsável, por exemplo, pela contratação de Sebastião Lazaroni para técnico da seleção brasileira - o treinador trabalhara no Vasco com Eurico. Foi com eles que o Brasil foi à Copa do Mundo da Itália, em 1990.
Desse modo, o dirigente tem não só os dedos, mas a mão inteira, naquela que talvez tenha sido a pior participação do Brasil em um Mundial. Mas leva também o mérito pela conquista da Copa América um ano antes.
1989 - Contratação de Bebeto
Como dirigente da CBF, Eurico tinha acesso a privilegiado aos jogadores da seleção, durante a Copa América disputada no Brasil.
Assim, foi de dentro da concentração da seleção que ele tramou e executou um golpe no rival Flamengo.
Bebeto e o clube da Gávea não chegavam a um acordo para renovação de contrato. Ciente da questão, o dirigente vascaíno se aproximou do jogador que, inclusive, como o heroico português que dá nome ao clube, chama-se "Da Gama" - José Roberto da Gama de Oliveira, no caso.
Por lei, o Flamengo tinha de fixar o valor do passe de Bebeto enquanto a negociação seguia. Amparado pela lei, e tendo seduzido o jogador, o Vasco pagou 7,5 milhões de Cruzados e levou o atacante para São Januário.
1990 - Eurico Miranda x Pablo Escobar
Em 1990, Eurico, mesmo que indiretamente, peitou ninguém menos que o narcotraficante Pablo Escobar.
O dirigente cruzmaltino entrou com uma representação junto à Conmebol pedindo a anulação de uma partida do Vasco contra o Atlético Nacional de Medellín - derrota por 1 a 0 na Colômbia - pelas quartas de final da competição.
Miranda alegou que o Escobar, chefe do cartel da cidade e patrono da equipe colombiana, havia pressionado a arbitragem da partida para favorecer o time da casa.
Eurico conseguiu a anulação do jogo e a marcação de um novo duelo em campo neutro. Mas, na partida disputada em Santiago, no Chile, o Vasco voltou a ser derrotado pelo mesmo placar e acabou eliminado. O Nacional cairia ante o futuro campeão Olimpia na semifinal.
1997 - O malote roubado
Era praxe no Rio de Janeiro do fim dos anos 1990 que pessoas ligadas à administração dos clubes mandantes das partidas levassem embora parte da renda dos jogos.
O responsável pela tarefa naquele Vasco x Botafogo de 1997 era o tesoureiro do clube, Mário Cupello. Mas, como ele não estava mais no estádio na hora da liberação do dinheiro, coube a Eurico, vice de futebol do clube, cuidar da tarefa.
O próprio Eurico explicou a história à ESPN, há dois anos
“Naquela época, o tesoureiro levava parte da renda. Coincidentemente, naquele dia, era um negócio de R$ 27 mil (na verdade, mais de R$ 70 mil), e que ele não tinha como ir. Eu era o vice de futebol e levei para casa. Ao chegar em casa, teve um assalto. Fui assaltado, depois teve inquérito e encontraram as pessoas. Se foi armado, não sei. Naquela época, não tinha tanta coisa como tem hoje no Rio de Janeiro. Mas é ridículo – a gente mexe com milhões e iam dizer que eu ia fugir com R$ 27 mil de renda..."
1998 - Centenário e conquista da América
Em 1995, o centenário do Flamengo, com o autoproclamado "maior ataque do mundo" - que curiosamente tinha os vascaínos Edmundo e Romário formando trio com Sávio, fora um fracasso retumbante.
Três anos depois, era a vez do Vasco. E Eurico não ia deixar seu clube passar por algo semelhante. O dirigente montou um esquadrão, contratando e mantendo nomes, para a disputa do torneio.
Com atletas como Carlos Germano, Mauro Galvão, Felipe, Juninho Pernambucano, Pedrinho, Donizete e Luizão, o Vasco conquistou não apenas a Libertadores, mas também o Campeonato Carioca.
Naquele ano, com Helinho, Charles Byrd e Rogério na equipe, o Gigante da Colina levou até o sul-americano de basquete.
1999/2000/2001 - O Vasco Olímpico
De olho no poder do COB, Eurico fez do Vasco uma potência olímpica.
Mas não dando apoio ou estrutura para atletas. Eurico dava - ou tinha que ter dado - dinheiro para os atletas como patrocinador.
Foi um festival de estrelas. Gustavo Borges (natação), Robert Scheidt (iatismo), Rodrigo Pessoa (hipismo), Adriana Behar e Shelda (vôlei de praia), entre outros nomes com pouco ou nenhuma ligação com as tradições do Vasco, passaram a ostentar a Cruz de Malta.
De acordo com o blog Olhar Olímpico, do UOL, no Pan de 1999, o Vasco tinha 160 dos 436 atletas que integraram a delegação brasileira. Na Olimpíada de Sydney, o clube teve 83 atletas, que voltaram com 19 medalhas. Naquele ano, o Vasco investiu incríveis R$ 30 milhões nos esportes olímpicos, ante R$ 23 milhões do COB.
Mas, no ano seguinte, veio a conta. Depois de levar um calote do Nations Bank, com quem tinha um milionário contrato de patrocínio, o projeto do clube ruiu - e muitos atletas tiveram de cobrar o time na Justiça.
2000/2001 - Copa João Havelange
O estádio de São Januário recebia muito mais gente do que comportava em 30 de dezembro de 2000, quando seria disputada a segunda e decisiva final da Copa João Havelange - o Campeonato Brasileiro de 2000, organizado pelo Clube dos 13 - entre Vasco e São Caetano.
À medida que o público entrava sem que houvesse espaço, a pressão nas pessoas que estava dentro do estádio começou a ficar insuportável. Primeiro, um alambrado ruiu, levando consigo o pilar e a mureta que o sustentavam. Até que o muro veio abaixo de vez e as pessoas caíram no gramado em avalanche.
O cenário era caótico. Eis que, de repente aparece no gramado a figura de Eurico Miranda querendo que o jogo fosse disputado. De celular na orelha, ele estava em contato com o então governador do Rio, Anthony Garotinho, que dizia dar condições para a disputa - algo que foi revertido minutos mais tarde, segundo Eurico Miranda, porque a TV Globo não queria atrasar sua programação vespertina.
A cena que ficou marcada foi Eurico dizendo para que feridos fossem logo retirados do gramado. Ele jurava que, na verdade, queria apressar o atendimento. Não colou e o dirigente ficou marcado como vilão - e apontava a Globo que também fizera uma série de reportagens sobre sua temerária gestão no Vasco como sua algoz.
Em 18 de janeiro de 2001, Vasco e São Caetano voltavam a campo, agora no Maracanã, para disputar o jogo. E, sem que ninguém tivesse pagado por isso, Eurico Miranda mandou imprimir na camisa do Vasco o logo do SBT, então principal concorrente da emissora carioca, que transmitiria o jogo.
Em entrevista à ESPN, em março de 2017, Eurico comentou a questão:
“Por acaso, foi uma coisa que deu. Eu não botei ESPN porque a ESPN não era concorrente da Globo. Eu estava magoado com uma série de situações, de não ter recebido, de ter disputado dois campeonatos – e acabei ganhando os dois, a Mercosul e o Campeonato Brasileiro. Não posso dizer que me arrependo das coisas, porque não seria justo. O que posso dizer é que, se fosse hoje, eu não faria. Mas não me arrependo. Ninguém sabia (que estamparia a marca).”
2001 - CPI do Futebol/Nike
Um dos deputados mais destacados da chamada "Bancada da Bola" - o grupo de deputados e senadores que defendia interesses ligados ao futebol - Eurico Miranda teve atuação destacada na Comissão Parlamentar de Inquérito.
Foi ele o principal artíficie para que o texto elaborado pelos relatores Aldo Rebelo (PC do B) e Sílvio Torres (PSDB) não fosse aprovado.
Eurico, que iniciou a atuação a favor da investigação, mas que mudou de postura ao longo do processo, foi decisivo na articulação para que a CBF do seu amigo Ricardo Teixeira passasse incólume pela CPI.
Eurico articulou para que um relatório paralelo ao dos relatores fosse votado e homologado, o que gerou discussão. Com o imbróglio, a comissão se encerrou sem um relatório final - ou seja, como todos inocentados.
2004 - O chope do Eurico
Vasco e Flamengo foram os finalistas do Campeonato Carioca em 2004. Antes da segunda partida, o então presidente do clube, Eurico Miranda, deu entrevistas esbanjando confiança.
"Assumo todos os riscos e garanto que o Vasco vai ser campeão. Estou à frente de tudo. Podem me cobrar. Já até comprei o chope para a comemoração. E paguei. A festa será em São Januário. Podem vir 30 mil pessoas e cada uma beber um litro que ainda vai sobrar disse ele em 13 de abril de 2004.
O Vasco perdeu os dois jogos: 2 a 1 no primeiro jogo e 3 a 1 no segundo. E a torcida rubro-negra, após a vitória no segundo jogo, comemorou provocando "arerê, o chope do Eurico, eu vou beber, êêê". Mais de 80 mil pessoas estiveram no Maracanã naquela tarde de abril.
2015 - Sibéria
Eleito presidente do clube após a inepta gestão Roberto Dinamite, Eurico Miranda se via às vésperas de mais um inevitável rebaixamento.
Mas ele não jogava a toalha. Jurava que o Vasco não iria cair e dava a si mesmo como garantia.
"Já falei que a palavra rebaixamento, aqui, é proibida. Se eu achar que o Vasco vai ser rebaixado, vou procurar o ponto mais distante da Sibéria e vou para lá”, disse ele, em entrevista coletiva em São Januário.
O Vasco caiu. Mas Eurico seguiu morando no bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio de Janeiro.
A promessa não cumprida para o território russo foi o último grande momento de destaque de Eurico Miranda no futebol nacional.
Ele ainda tentaria se eleger presidente do clube em 2017, quando teve a eleição impugnada e desistiu do pleito subsequente, que elegeu Julio Brant, seu desafeto.
