Jorge Sampaoli, técnico do Santos, diz não entender os conceitos de pragmatismo e resultadismo. "O que é vencer a qualquer preço? Para mim, isso não faz sentido", afirma. E isso, sem querer, o coloca em rota de colisão com o pensamento de Felipão, técnico do Palmeiras, a quem enfrentará neste sábado (23), pelo Campeonato Paulista.
Melhor técnico do último Brasileiro, pelo Bola de Prata Sportingbet, Felipão é um resultadista convicto: "Sempre fui treinador de resultado, nunca me escondi atrás de outra carapuça. Gosto de resultado", afirmou ele, em 2018, após vitória sobre o Fluminense pelo Nacional.
Na Argentina, após a eliminação na Copa do Mundo, Mis Latidos (Meus Latidos) - (Editora Planeta, 2018, sem tradução em português) - , livro de pensamentos e memórias de Jorge Sampaoli, virou piada. Um trecho específico, no início do capítulo dois, até se tornou meme: "Yo no planifico nada" (Eu não planejo nada) é a frase que inicia a segunda parte da obra.
Em Buenos Aires, livrarias reduziram seu preço a valores irrisórios. E houve até quem os oferecesse gratuitamente. Uma foto em que o livro vinha acompanhado de uma placa com a inscrição "Vende Humo" ("vende fumaça", gíria portenha para quem fala muito sem ter conteúdo) viralizou na internet.
Na esteira da eliminação e do mau futebol exibido no Mundial, Mis Latidos tornou-se um antimanual, um evangelho do mal. O resumo de tudo que deu errado na Copa.
Tamanha comoção, em especial após a chegada do treinador ao Santos, com um bom trabalho, despertou a curiosidade do ESPN.com.br, que decidiu ler o livro. E encontrou ali um retrato bem interessante e pessoal, além da parte profissional, do pensamento de Sampaoli. Não apenas sobre tática, mas sobre a vida, de um modo geral. O que torna, na verdade, ainda mais difícil entender porque as coisas saíram tão erradas na Rússia.
AO ATAQUE
Por 187 páginas, Sampaoli mostra-se um técnico preocupado e interessado com a formação de equipes no nível coletivo e individual. Descrevendo passagens dos times que treinou antes, desde o pequeno e semiamador Alumini, de Casilda, sua cidade-natal, o técnico acaba explicando o que está fazendo no Santos, time de melhor campanha do Campeonato Paulista. E que vem encantando com futebol ofensivo e eficiente até agora.
O treinador reforça, desde o começo, que pensa o futebol como um jogo de ataque. E que defender é apenas mais uma etapa no constante ato de levar perigo ao gol rival.
Sem cair no risco de usar vocabulário rebuscado, ele explica que o campo tem três zonas: de risco (perto da área defensiva), de bem-estar (meio-campo) e de definição (a área rival). E é de acordo com as capacidades dos jogadores de atuarem em cada uma destas zonas que ele define esquema tático e posicionamento, sem jamais abandonar a ideia de um jogo ofensivo.
Toma, por exemplo, o seu Chile campeão da Copa América na final contra a Argentina, em 2015. Por saber que o rival era forte nas duas áreas, ele decide que fará o seu time jogar na zona de bem-estar, ou seja, o meio. É nesse setor que ele quer o jogo se desenvolva, agrupadamente, até a hora em que for possível uma estocada para chegar à área rival com superioridade numérica para concluir.
Lembra muito o Santos, na recente vitória por 3 a 0 sobre o Guarani. No lance do primeiro gol, nada menos que seis jogadores estavam na área bugrina. E Gustavo Henrique, zagueiro, estava no círculo central, como um volante. Ou na goleada por 4 a 1 sobre o Bragantino, também pelo Paulista. Em todos os gols do Santos, o que se vê é uma multidão invadindo a área.
CARINHO
No livro, lançado pouco antes do Mundial, ele cita jogadores da Argentina nominalmente. Fala sobre Higuaín e sua dificuldade de brilhar na seleção como nos clubes - algo que ele também não vem conseguindo fazer atualmente. Sobre como pensava montar o time da Copa de acordo com os rivais. E como queria os jogadores como parceiros nos processos decisórios.
À luz desse trecho, a cena em que ele debate com Messi e Mascherano a montagem do time antes da partida decisiva contra a Nigéria na Copa nem parece mais tão chocante. É quase impossível, aliás, ler o livro e imaginar que o grupo se voltou contra ele, como aventou-se à época. Sampaoli demonstrava que morria de orgulho de defender a seleção de seu país e de que gostava muito dos jogadores daquele grupo. Sampaoli parece ser um cara que gosta de demonstrar carinho.
É nesse contexto que ele se derrete em elogios ao ex-palmeirense Valdivia. "Dele, eu não queria as pernas, mas sim os olhos", afirma ele. "Ele consegue enxergar o campo inteiro, o que todos estão fazendo, como estão se movimentando". O Mago, Sampaoli deixa bem claro, está entre os seus jogadores preferidos, junto com Vidal, Di Maria, Nzonzi, a quem dirigiu no Sevilla, e Messi, a quem chama de Leo e dedicou um capítulo inteiro da obra.
Sobre o camisa 10 argentino, Sampaoli revela que, na preleção final, antes do jogo contra o Equador, que definiria a presença da Argentina no Mundial, pediu ao grupo que se esforçasse, porque "o futebol devia uma Copa a Messi e que nós (ele e os demais) carregaríamos o peso. Se ele puder nos ajudar, melhor, mas teríamos que colocar a cara a tapa por ele", escreveu.
O técnico também cita que cada jogador e cada grupo precisa ser tratado de uma forma diferente. E que, nem sempre, os tratamentos serão igualitários. Fala, por exemplo, sobre Arturo Vidal e o acidente de trânsito em que ele se envolveu durante a mesma Copa America. E assume que, se fosse outro atleta, talvez não o perdoasse, como fez.
LEALDADE
Sampaoli se descreve como uma pessoa simples. Diz detestar estatísticas e computadores no futebol. Mas reafirma saber a importância da modernidade e afirma deixar essas análises a cargo de seus assistentes. Entende que o jogo, quando muito científico, torna-se um trabalho de escritório. E que ele, por ser um cara das ruas, dos gramados, não suporta algo assim.
A pressão que seus times exercem para retomar imediatamente a posse de bola, tão vista no Santos atualmente, também é citada como algo inerente ao jogo para ele. "Eu tento convencer os meus jogadores da necessidade de ter a bola, para voltar a atacar. Sem a bola, a gente não ataca. Então, temos de tomá-la de volta em segundos, para voltar a atacar", afirma ele.
Lealdade é também algo que aparece com frequência no pensamento de Sampaoli. Dele para com os atletas e vice-versa. Mas não só no futebol.
Fã de rock, ele enxerta trechos de músicas dos grupos Callejeros e Don Osvaldo, liderados por Patrício "Pato" Fontanet, de quem é amigo, ao longo da obra. Fontanet esteve preso por três anos depois de uma tragédia, no estilo da que ocorreu no Brasil na boate Kiss, em 2013.
Em 2004, 194 pessoas morreram e 1432 se feriram em um incêndio na casa de shows Cromañon, no subúrbio de Buenos Aires, depois que fogos de artifício foram lançados a partir do palco onde os Callejeros se apresentavam. Sampaoli passa por cima da polêmica, declara-se amigo de Pato e diz, inclusive, que tem versos do grupo tatuados pelo corpo.
Mis Latidos, nome do livro é o mesmo de uma música da Don Osvaldo que, em alguns versos, diz: "Talvez eu me perca por sempre nos abismos/ E nunca conheça de perto o paraíso/ E o azar acabe me acolhendo com seu abrigo/ E essa será o preço de ter sido eu mesmo/ Mas nunca neguei meus latidos".
Versos que caem bem para falar da personalidade de um técnico que não abre mão de sua filosofia de jogo. E e ela der errado, como deu na Argentina, ou certo como na Universidad do Chile, seleção chilena - e vem dando no Santos- é mera consequência.
