Em pouco mais de uma semana, em 24 de novembro, Mauricio Galiotte pode ser eleito para um segundo mandato como presidente do Palmeiras.
Dias antes, porém, sua gestão pode ser coroada com a conquista do Campeonato Brasileiro, o décimo da história do clube, o sexto desde 1971, quando a antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos) oficializou o nome pelo qual a competição ainda é popularmente conhecida.
E muito dessa possível conquista passa pela escolha de Felipão como técnico do clube. Uma aposta de Galiotte e de seu departamento de futebol no perfil do técnico e do conhecimento dele sobre o que significa comandar o Palmeiras, conforme ele deixa claro na segunda parte desta entrevista exclusiva concedida à ESPN.
Se na primeira parte da conversa Galiotte falou mais da parte financeira e da importância dos patrocinadores do clube, nesta segunda o presidente do Palmeiras abordou mais assuntos de dentro de campo.
Responde sobre o sucesso da equipe no Campeonato Brasileiro e os insucessos do time na Copa do Brasil, Libertadores e no Paulista, que volta a chamar de "Paulistinha", explicando um pouco melhor o contexto. Fala também sobre a obsessão pelo Mundial de Clubes.
Por fim, ainda comenta o que pensa da possibilidade hipotética de Rogério Ceni vir a ser técnico do time em uma gestão sua e garante que não levantará o troféu em caso de uma conquista do Palmeiras no Brasileirão.
"Eu não levantaria a taça em nenhuma circunstância", afirma, mostrando, mais uma vez, discordância em relação a Paulo Nobre, seu antecessor, ex-aliado e hoje desafeto político, que ergueu o troféu em 2016, juntamente com o capitão Dudu.
Leia abaixo a segunda parte desta entrevista:
ESPN - Você foi atleta do Palmeiras no futsal. O basquete palmeirense sempre foi muito importante, mas hoje o clube não tem categorias principais dos dois esportes. Com o enorme orçamento que o Palmeiras tem hoje, não seria possível reavivar os times principais? Até o rival Corinthians, com uma situação financeira muito ruim, tem times de basquete e futsal. Por que o Palmeiras não tem?
Mauricio Galiotte - Ninguém, mais do que eu, gostaria de ter um time profissional de futsal, que é o meu esporte. Eu também treinei por anos nas categorias de base (do futebol de campo), mas sempre fui mais ligado ao futsal. Só que eu tenho que fazer isso com responsabilidade, com orçamento. No basquete também temos enorme tradição, com revelação de grandes talentos. Hoje temos todas as categorias de base nos dois esportes, só não temos os times principais. Montar por montar times nesses dois esportes não é algo que desejo. Para o Palmeiras voltar a ter essas duas equipes, é para ter times para disputar títulos. E isso se faz com responsabilidade. Vou fazer isso o mais rápido possível, mas com essa responsabilidade.
E - Creio que desde a gestão Nelson Duque (1985-1988), talvez até antes, o Palmeiras discute a separação do clube social do futebol. Qual a sua visão sobre isso?
MG - Na prática, isso já acontece hoje. Há orçamentos diferentes, administrações diferentes. É claro que, pelo que arrecada, pela diversificação de renda, um pouco do orçamento do futebol vai para o clube, de modo circunstancial, mas já existe a separação.
E - Você se arrepende de ter chamado o Campeonato Paulista de 'Paulistinha'? Em que pese a maior importância histórica, em termos de representatividade, da Libertadores de 1999 e da Copa Rio de 1951, para muitos, os Paulistas de 1976 e 1993, por exemplo, são os títulos mais importantes da história do clube...
MG - Eu vou explicar, é muito simples. Pelo que fizeram, pelas pessoas que estavam no campo e não deveriam estar, transformaram o Paulista de 2018 num "Paulistinh"a. Repito: o Paulista de 2018 foi, sim, um "Paulistinha". O Corinthians não precisava daquilo, o Palmeiras não precisava daquilo. Como presidente, eu não admito o que foi feito. Respeito a história, mas as circunstâncias transformaram o Paulista de 2018 num "Paulistinha".
E - Diante disso, você pensa em utilizar jogadores do sub-20 no Paulista da próxima temporada?
MG - O regulamento não permite que isso seja feito. Se não me engano, podem ser usados apenas cinco jogadores sub-20. Vamos tratar o Paulista do próximo ano de maneira estratégica, jogo a jogo. Vamos mesclar os diferentes jogadores quando precisar. Vamos tratar o Campeonato Paulista como uma preparação para a temporada de 2019.
E - Como você enxerga a crítica dos presidentes dos outros clubes, quando eles dizem que "é fácil ser campeão com o dinheiro da Crefisa"?
MG - Cada um, cada um. Honestamente, pouco importa o que as pessoas acham do Palmeiras, mas sim o que o palmeirense acha e quer. Os palmeirenses somos nós e é isso que importa.
E - Diante dos momentos dos principais rivais, você diria que São Paulo e Corinthians se apequenaram?
MG - Eu evito comentar os outros. Eu só penso no Palmeiras. Isso é problema dos presidentes do São Paulo e do Corinthians.
E - O Felipão tem um histórico de sucesso em mata-mata e não em pontos corridos. Surpreendeu vocês o desempenho dele no Brasileiro? No que vocês pensaram quando o trouxeram?
MG - Não, não surpreendeu. Quando o contratamos, pensamos no perfil vencedor dele, no conhecimento que ele tem do Palmeiras e da torcida. O desempenho dele no Brasileiro é o esperado. Mata-mata é algo pontual. Da Copa do Brasil, assim como do Paulista, saímos prejudicados pela arbitragem. Ou seja, foram duas competições neste ano de que saímos por conta de arbitragem.
E - Qual foi a melhor contratação da sua gestão? Gustavo Gómez?
MG - Eu evito apontar uma. O grupo inteiro é muito bom.
E - E muito desse sucesso, claro, tem a ver com a atuação do Alexandre Mattos. Ele também está com um contrato para terminar. A própria Leila Pereira, da Crefisa, já falou que ele é fundamental. Haverá renovação com ele? Já estão conversando?
MG - Já conversei com Alexandre Mattos. O contrato vence no fim do ano, quero que ele fique e ele quer ficar. Mas, tudo isso, só poderei mesmo saber a partir de 24 de novembro, com a eleição.
E - O palmeirense também está muito preocupado com as renovações de alguns contratos, como os de Prass e Jaílson, que são ídolos do Palmeiras, bem como o Dudu. Eles vão ficar, já está havendo conversas?
MG - Só poderemos falar disso depois do dia 24. Meu desejo é que o plantel inteiro fique e que ele seja ainda mais fortalecido. O torcedor pode cobrar que estaremos com um time muito forte no próximo ano. O planejamento da próxima temporada já está bastante adiantado. Mas também não posso falar disso antes da eleição.
E - O Palmeiras tem um histórico de uma oposição muito nociva. Qual será sua conduta, caso perca a eleição?
MG - Minha posição será a de dialogar, com o Palmeiras acima de todos, porque são todos palmeirenses.
E - Sua primeira candidatura foi chancelada e apoiada pelo Paulo Nobre, que o indicou como sucessor. Como é vê-lo num grupo político oposto ao seu?
MG - A minha divergência com o presidente Paulo Nobre é em relação à patrocinadora, divergência essa que ainda não foi superada. Como presidente, sei da importância da Crefisa e da FAM. Eu já dizia isso ao Paulo Nobre quando ele era o presidente e mantive a minha posição.
E - Mas qual é essa divergência?
MG - Prefiro não falar sobre qual é essa divergência. O que é a opinião dele, prefiro não falar. Apenas repito que a Crefisa e a FAM são muito importantes. Eu sei o que estou falando porque vivi sem a Crefisa e vi como era difícil. Estamos hoje em uma situação de equilíbrio e por isso que mantenho sua posição.
E - Você acha que, de alguma forma, o Palmeiras concentrar tanta renda faz mal ao futebol brasileiro?
MG - Em hipótese alguma. Fazer mal? Como? Muito pelo contrário. O Palmeiras trabalhou muito para isso. Eu sei o que nós passamos aqui em 2013 e 2014. Tudo que o Palmeiras tem hoje foi trabalhado, foi pensado: base, arena e tudo. O Palmeiras é exemplo, o que nós temos é que trabalhar. Se o Palmeiras hoje está em uma situação melhor, foi porque em algum momento alguém pensou em construir uma arena, em assumir um grande patrocinador, fazer um programa de sócio-torcedor, reestruturar as categorias de base.
E - Esta entrevista está sendo concedida em frente ao troféu da Copa Rio de 1951, o Mundial. A conquista de um bicampeonato mundial é uma obsessão da gestão Mauricio Galiotte?
MG - A conquista de um bi-mundial será uma consequência natural. O Palmeiras está evoluindo na Libertadores. No ano passado, eu disse isso e as pessoas não entenderam, então vou repetir. De 2016 para 2017, ficamos numa posição melhor e, neste ano, melhor ainda. O clube vai para a disputa de uma quarta edição consecutiva, algo inédito na história do clube. Conquistar o título será consequência do bom trabalho que estamos fazendo. Se a gente puder, ótimo. Mas sempre trabalhando para ter um Palmeiras muito competitivo, disputando.
E - Uma situação hipotética agora. O ano é 2020, o Palmeiras precisa de um técnico e um treinador jovem, campeão da Série B, que está evoluindo, se credenciando para ser um grande técnico, independentemente do passado dele, que aparece como possibilidade: Rogério Ceni. Qual seria a posição de uma administração Galiotte diante dessa possibilidade?
MG - O Rogério Ceni é um campeão mundial, um ganhador, um grande profissional, mas tem um vínculo muito grande aí com o São Paulo. Não, não contrataria. Ele tem uma identificação muito grande com o São Paulo. Não seria produtivo nem para ele, nem para o Palmeiras, com certeza. Eu enxergo dessa maneira, com todo respeito a ele.
E - Por fim, no caso de uma eventual conquista do Palmeiras em uma gestão sua, seja neste Brasileiro ou em outra competição, você levantaria a taça junto com o capitão do time?
MG - Não, em nenhum dos campeonatos, eu levantaria a taça.
E - Por quê?
MG - Porque a taça cabe aos jogadores, eles que jogaram, eles que disputaram. Eu vou estar ao lado, vou estar apoiando, quero muito que isso ocorra, trabalhamos diuturnamente para isso, mas quem vai levantar a taça é o capitão.
