Maurício Galiotte não quer dar sopa pro azar. Às vésperas da eleição para presidente do clube e com boas chances de comemorar seu primeiro título como presidente do Palmeiras, em breve, o dirigente evita dar o mínimo entendimento de que já conta com as duas conquistas.
Quando fala do Campeonato Brasileiro, no qual o Verdão já tem 95% de possibilidade de conquista, Galiotte só fala no condicional. Quando menciona os planos de um futuro segundo mandato à frente do clube, sempre pontua um "caso eu venha a ser eleito".
Mas isso não o impede de fazer planos, é claro. "Se eleito", quer reforçar o elenco.
"O Palmeiras de 2019 vai ser mais forte que o desse ano, o torcedor pode me cobrar", diz ele.
No que diz respeito ao clube social, deseja inaugurar, enfim, a nova sala de troféus - a anterior foi demolida com parte do velho estádio, ainda em 2010. E, assim que possível, montar, novamente, times nas categorias principais de basquete e futsal - esporte que praticou no clube.
Em uma entrevista exclusiva para a ESPN, o presidente alviverde falou sobre a importância da patrocinadora Crefisa para o Palmeiras e admitiu que as ambições do clube seriam outras sem o aporte financeiro.
"Hoje, o Palmeiras tem diversas fontes de receita, mas uma eventual saída da Crefisa vai diminuir tamanho do projeto do Palmeiras. O Palmeiras não vai ter fôlego, a curto prazo, para manter o mesmo alcance de hoje", diz.
Galiotte também falou sobre o técnico Felipão, a busca do bi Mundial e do futuro do clube dentro de campo. Você verá tudo isso na segunda parte da entrevista, nesta quinta-feira.
Veja abaixo a primeira parte da entrevista exclusiva com Maurício Galiotte
ESPN - Como você avalia os dois anos de sua gestão? Que nota você dá para o seu desempenho? Está satisfeito com o trabalho até aqui?
Mauricio Galiotte - Nestes dois anos, fizemos uma gestão de continuidade ao trabalho do presidente Paulo Nobre. Encontramos o clube em um momento muito difícil. Reorganizamos o clube, hoje estamos em uma curva crescente na qual conseguimos reconduzir o Palmeiras ao papel de protagonista, de disputar títulos e ficamos entre os quatro em todos os campeonatos que disputamos. O Palmeiras vem numa evolução, aumentamos o valor do marca e somos referência. Mas a nota, eu prefiro que vocês definam. Mas a nossa expectativa é que o Palmeiras tenha ainda muita coisa pela frente, para estar entre os maiores clubes do mundo num futuro próximo.
E - Você se arrepende de algo feito na sua gestão?
MG - Quando se comanda um clube como o Palmeiras, com uma imensa torcida, são várias situações que tratamos. Acertamos e erramos. Ninguém que assumir um clube vai acertar sempre. O importante é acertamos mais que errarmos e entregarmos um Palmeiras melhor. E isso vem ocorrendo e tem quer o nosso objetivo.
E- A que você atribuiu o bom momento do Palmeiras, inclusive no que diz respeito à parte financeira? O que é a grande alavancagem desse momento?
MG - Hoje o Palmeiras é um clube equilibrado financeiramente, com várias fontes de receita. E issor é muito importante. Temos as cotas de TV, temos o principal patrocínio do futebol brasileiro e talvez sul-americano, que é a Crefisa e a FAM, e que nenhum dirigente pode pensar em não contar com essa parceria extremamente importante. Temos o Avanti, um case de sucesso, o Allianz Parque, venda de jogadores produtos licenciados. O Palmeiras hoje arrecada de várias maneiras, um fator fundamental para ter o alicerce necessário para se manter saudável e equilibrado.
E- Existe algo que você não fez no seu mandato que você gostaria de fazer num eventual segundo?
MG - Sim. O memorial, a sala de troféus, é uma coisa. Temos que ter e tem que ser na arena, não vejo sentido termos em outro lugar. Para que o torcedor que vai ao jogo, quem for ao estádio, possa visitar. Há reformas na área social também, como a área das piscinas e as duas portarias sociais, que eu já tenho os planos para reformar e, se eleito, já vou fazer.
E - O Palmeiras vem conquistando excelentes resultados nas categorias de base. Quando e como esses jogadores serão aproveitados pelo Palmeiras?
MG - Aproveitar base é questão de tempo, para o amadurecimento dos jogadores. Existe um processo de amadurecimento, com etapas a serem percorridas de modo natural. Tivemos um gol importante aí, no último fim de semana, do Victor Luis, contra o Santos, que é um garoto da base. Temos o Pedrão e o Papagaio, que estão no elenco principal. Em, dois, três, quatro anos, vamos ter vários da base no time de cima. Sempre teremos contratações, mas elas serão pontuais, no futuro. Historicamente, não somos grandes reveladores, são poucos. Mas isso vai mudar aos poucos.
E - Você sempre foi visto como um apaziguador, com qualidades de diplomacia para lidar com parceiros, como a Crefisa e a WTorre. Como está a relação do clube com a construtora no momento?
MG - Todos estão aqui para defender os interesses do clube e temos de respeitar os parceiros. Existem diferenças, sim, com a WTorre, mas tem que haver diálogo e isso está ocorrendo. As equipes de executivos da parceira e da WTorre têm se reunindo constantemente para encontrar o caminha que seja bom para todos. Eu diria que o relacionamento é muito bom.
E - Qual a importância do Allianz Parque nesse momento do Palmeiras? E existe algum plano para se abaixar o valor do ingresso, criar um ingresso mais popular?
MG - A arena é um divisor de águas na história do Palmeiras. O Palmeiras era um antes da arena e é outro depois. Aumentou o valor do valor da marca, o ticket médio. Com relação ao preço dos ingressos, temos oito tipos diferentes de planos. O Avanti Ouro custa R$ 120. Se o torcedor que tiver esse plano for a três jogos no mês, terá pago R$ 40 em cada um. O que eu considero um valor completamente acessível. Vou repetir: o ingresso não é caro e não falta ingresso pro sócio-torcedor que tenha rating. Se você for sócio Avanti, não falta ingresso, se você for frequente, tiver rating alto. Obviamente, se você não é assíduo, nos jogos grandes, pode ter dificuldade, porque outros têm prioridade na compra.
E - Na semifinal da Copa do Brasil, houve setores com pouco público, em especial a cadeira leste (em frente às câmeras de TV). Ali houve um ponto de inflexão? Porque os preços abaixaram depois daquele dia.
MG – Aqui vale frisar: a cadeira Leste, ingresso mais caro, não é comercializada pelo Avanti, mas sim pelo parceiro (WTorre). Apenas o excedente é vendido pelos meios do clube. Nós não tivemos aquele local lotado porque faz parte de um local privilegiado. Ali sim, conversando, entendemos que poderíamos reduzir.
E - Não existe plano de fazer um setor mais popular, para atender a um torcedor de uma faixa de renda mais baixa?
MG - A gente entende que R$ 40 já é um valor bem acessível...
E - Sim, mas ele paga esses R$ 40 se ele pagar o Avanti de R$ 120, porque aí divide por três. Mas, se ele não tiver dinheiro para pagar nenhuma faixa de Avanti, e só tiver R$ 40, ele não vai aos jogos.
MG - É, ele não vai conseguir nem aqui, nem em qualquer lugar do mundo. Clube que coloca ingresso a menos de R$ 40 está em situação desesperadora, quer encher estádio para jogo decisivo. Eu poderia ser populista, colocar um ingresso mais barato. Mas não daria para pagar jogador, não dá para fazer nada. Essa é a verdade.
E - Conforme você mesmo colocou, a Crefisa é hoje fundamental no projeto do Palmeiras. Como o Palmeiras se prepara para uma eventual saída do patrocinador, para não sofrer, como o Fluminense na saída da Unimed, ou o próprio Palmeiras com a saída da Parmalat?
MG - Ter o patrocínio da Crefisa é fundamental para um projeto ambicioso, com grandes conquistas. A situação do Palmeiras é diferente do que houve com o Fluminense e com o próprio Palmeiras, na época da Parmalat. Hoje, o Palmeiras tem diversas fontes de receita. Uma eventual saída da Crefisa vai diminuir tamanho do projeto do Palmeiras. O Palmeiras continua, mas com um projeto menos ambicioso do que temos hoje. O Palmeiras não vai ter tanto fôlego, a curto prazo, para manter o alcance de hoje. Se eu te disser que, sem a Crefisa, teríamos os mesmos jogadores, não é verdade. O valor que eles pagam é significativo. Muda o patamar. Isso quer dizer que o Palmeiras não vai ser forte, não vai ganhar títulos? Não! Isso quer dizer você passa por um momento de ajustes. Quando saiu a Parmalat não tínhamos arena, sócio-torcedor, as categorias de base que tomos hoje... O contexto é diferente, o Palmeiras de hoje está melhor estruturado. O Palmeiras vai continuar sempre, mas com uma possibilidade diferente de alcance de títulos, proporcional a essa saída.
E - Com a Crefisa sendo tão importante, não é perigoso outorgar tanto poder político à Leila Pereira e ao José Roberto Lamacchia, proprietários da empresa, que hoje são conselheiros do clube, envolvidos em disputas políticas?
MG - O fator financeiro é o mesmo que em outros clubes, até porque, em qualquer lugar, os clubes que disputam mais títulos são aqueles com mais dinheiro, os mais ricos. Acontece no mundo todo. A Leila Pereira e O José Roberto são os patrocinadores, os donos da Crefisa, e hoje são conselheiros. São associados do clube e conselheiros, por um processo legítimo. No momento que tratei esse assunto, levei o tema ao Conselho Deliberativo, tratei de forma democrática. Isso foi votado, teve 85% dos votos favoráveis, então é um assunto que me deixa bem a vontade para debater.
E – A lisura do processo eu nem questiono. Mas essa relação: provedora de investimentos financeiros x conselheira com aspirações políticas no clube não é perigosa?
MG - Eu tenho que pensar no que é melhor para o Palmeiras. Hoje ter um investimento como o da Crefisa é importante. A Leila e o Zé Roberto solicitam algo em relação ao futebol ou à minha administração? Absolutamente nada, nenhum tipo de ingerência. O importante para um clube como Palmeiras é poder se estruturar e ter poder de compra. Hoje, tudo isso é dado pela Crefisa também, além do Avanti, da arena e das demais fontes de renda. O investimento da Crefisa é fundamental para o clube e para a marca como um todo.
E - O Palmeiras tinha uma dívida com o Paulo Nobre, que você fez questão de pagar, até de modo louvável, assim que pode. Por quê?
MG - Eu trabalhei diretamente com ele por 4 anos, em situações muito difíceis e complexas em termos financeiros. Nós fizemos uma reestruturação profunda e nós temos dois tipos de situações com o Paulo Nobre: uma de longo prazo que nós quitamos, tínhamos 10% das receitas vinculadas ao fundo, e nós temos outra com parcelas mensais. O Palmeiras teve recursos suficiente para quitar os dois compromissos com o Paulo Nobre.
E - Recursos próprios, não foi empréstimo da Crefisa nem nada?
MG - Sim, recursos do clube. Eu como administrador e como participei de toda a reestruturação financeira, fui um dos responsáveis pela aprovação do plano de financiamento dos fundos do Paulo Nobre, eu fiz questão de, tendo recursos, quitar as dívidas com o presidente Paulo Nobre. Nós tínhamos outra situação que envolvia ele que era mais parecido com a Crefisa, que era a situação dos atletas. Vende atleta e devolve o dinheiro para o Paulo Nobre. Era o Mina e o Vitor Hugo. Então vou fazer da mesma maneira. Vendendo os atletas, eu devolvo o dinheiro para a Crefisa como sempre foi o combinado, tanto com o Paulo como com a Leila e o Zé Roberto.
E - No caso deles, como não tem outro aporte, você vai devolver a medida que os jogadores foram vendidos?
MG - Perfeito.
E - Esses jogadores são hoje do Palmeiras? Não são da Crefisa?
MG - Não, não. São todos do Palmeiras.
E - Como você encara a rejeição das contas do clube, mês após mês, pelo COF, se o clube tem uma condição financeira tão sólida?
MG - O Palmeiras tem hoje uma situação de equilíbrio financeiro. Temos hoje ao redor de R$ 77 milhões de patrimônio líquido positivo, o que não alcançávamos há muitos anos. Um superávit no ano ao redor de R$ 40 milhões, acima do que foi projetado no orçamento. Temos uma perspectiva de faturamento acima de 600 milhões, que é um recorde para o clube. Aliás o ano passado já foi, esse ano vamos bater o recorde de novo. Estamos entre as principais empresas do Brasil pelas revistas Exame e Forbes. A rejeição das contas eu encaro como todos encaram: respeito, mas não compreende porque os lançamentos são todos legítimos e tecnicamente não há o que se discutir.
