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Zagueiro do Bragantino vendeu bolo de pote na pandemia; hoje sonha com título do Brasileirão

Ari Ferreira/Red Bull Bragantino

A pandemia de COVID-19 fez o futebol brasileiro ficar parado por vários meses e gerou um impasse para os jogadores de clubes menores. Muitos deles tiveram os contratos suspensos ou até ficaram desempregados. Foi o caso de Lucas Rafael, que defendia à época o VOCEM, de Assis, que disputava a Série B do Campeonato Paulista (na prática a quarta divisão).

Sem salários ou perspectivas de melhora a curto prazo, ele juntou o pouco dinheiro que tinha e foi vender bolos de pote em Barueri, cidade na Grande São Paulo, para ajudar no sustento da família.

"Nunca tive vergonha. Minha namorada à época cozinhava e eu vendia. Postava os sabores nas redes sociais e fazia as entregas a pé. Sou bom em comunicação e conseguia muitas vezes abordar as pessoas na rua. Estava feliz porque estava recebendo dinheiro", disse ao ESPN.com.br.

Mas nem tudo era alegria. Durante esse período, ele passou por uma situação chata quando foi chamado por um conhecido da família para ajudar em uma obra em troca de um pagamento.

"Ele me viu lá e desdenhou: 'Quem diria... um jogador carregando a minha areia?' Fiquei quieto, engoli o sapo, dei uma risada meio forçada e segui em frente".

A resposta do zagueiro veio três anos depois - e na bola. Hoje, ele defende o Red Bull Bragantino, que disputa o título do Campeonato Brasileiro.

"Me sinto uma pessoa extremamente realizada", declarou.

De entregador de marmitas a jogador

Antes de se firmar na profissão, porém, Lucas passou por inúmeras dificuldades. O jogador começou no futsal em Barueri antes de ir para o futebol de campo e defender a Portuguesa por um tempo.

Sem conseguir chances em clubes de São Paulo, o jovem entregava marmitas no centro comercial de Barueri para ter uma renda. Em busca de oportunidades, foi morar no Piauí com a avó, mas não conseguiu deslanchar na carreira.

De volta à São Paulo em 2015, ele recebeu um convite para jogar como volante no Barueri, no qual mudou de posição por causa de um ídolo do Palmeiras dos anos 90: Tonhão.

"Foi ele quem me descobriu como zagueiro", contou.

Lucas ainda defenderia outro clube do Piauí na base antes de ir para o Taboão da Serra, mas sem conseguir se firmar na equipe sub-20 porque causa de uma lesão.

"Não era relacionado para as partidas, mas fui muitas vezes colocado para ser gandula. Nos últimos jogos, o time já estava eliminado e me puseram para jogar. Fui bem e um empresário me levou para o Artsul-RJ".

Lucas ainda passou rapidamente depois pela base do Resende-RJ até ir para o CSA-AL, que jogava a Série B do Brasileiro.

"Fui fazer um teste e acabei aprovado. Joguei bem no sub-20 e fomos campeões invictos do Alagoano. Pude assinar meu primeiro contrato profissional e fiquei muito feliz".

Ele fez parte do elenco que disputou a Série A do Brasileiro, mas não teve chances de jogar e acabou emprestado ao Flamengo-PE, no qual estreou como profissional.

"O time estava classificado para a semifinais do Pernambucano contra o Sport, mas perdeu pontos na Justiça e acabou rebaixado".

Instalador de câmera

O defensor voltou ao CSA, mas passou a treinar de forma separada do restante do elenco. Ele rescindiu contrato e foi fazer um teste no Bahia, mas não foi aprovado pelo técnico Dado Cavalcanti.

O jovem ficou desempregado por vários meses e trabalhou fora do futebol.

"Ajudava meu pai a instalar câmeras de segurança nas casas e carregava areia e blocos... Estava namorando e precisava de dinheiro para sair ou tomar um sorvete".

A chance de voltar ao esporte veio por um convite para jogar pelo Picos-PI, na segunda divisão do Piauiense, de 2019. Após conseguir o acesso no Estadual, ele tentou a sorte no ano seguinte no Capivariano-SP, mas foi reprovado. Em seguida, foi indicado ao VOCEM, de Assis, para jogar a Série B do Paulistão.

"Estava treinando bem, mas começou a pandemia. Não tínhamos a certeza de que voltaríamos. Só os times de Série A conseguiram se manter. Fiquei em casa por alguns meses antes dos campeonatos voltarem".

Lucas estava jogando o Estadual, quando recebeu uma ligação de Juan Maldonado, ex-lateral de Flamengo e São Paulo, que mudou sua trajetória.

"Até tomei um susto porque é um ídolo para mim. A gente tinha treinado juntos no CSA-AL em 2018. Eu não dava moleza (risos). A gente conversou e ele passou a cuidar da minha carreira".

O zagueiro foi levado por Juan ao Amazonas-AM para jogar o Estadual e viu de perto a crise de COVID-19, que gerou muitas mortes no Estado, incluindo a do técnico Ruy Scarpino. O zagueiro, que também ficou doente, precisou ficar isolado durante alguns dias em um quarto.

"Isso me deixou muito abalado", recordou.

Após o Amazonense, Lucas ia defender o Ska Brasil na Série B do Paulista, mas o clube foi impedido de jogar pela Federação Paulista de Futebol. Em seguida, atuou pelo São Caetano na Copa Paulista de 2021 ao lado do famoso cantor de funk Mc Livinho.

"Ele é um cara bom no um contra um, tem uma personalidade muito forte. É muito resenha e abraçou o pessoal. Foi uma experiência muito boa para ele, embora não tenha feito o gol que gostaria".

"Livinho fez uma bagunça em alguns jogos e só não fez chover. Fizemos uma boa competição e chegamos até a semifinal. Perdemos para o São Bernardo, que foi o campeão".

Melhor momento da carreira

No ano seguinte, Lucas seria a quinta opção na zaga do São Caetano na Série A2 do Estadual, mas tudo mudou após algumas lesões, suspensões e casos de COVID.

"Não ia ser inscrito e nem tinha perspectivas de jogar, mas a bola sobrou para mim. Torci o tornozelo e sentia fortes dores, mas não podia perder a chance. Coloquei duas faixas, tomei uns choques e fui para o treino".

O defensor se destacou e não saiu mais do time titular do Azulão. Em seguida, foi ao Boa Esporte-MG, mas ficou praticamente três meses sem receber salários no clube.

"Pensei em largar o futebol. Mandei um áudio para o meu pai quase chorando porque estava complicado. Ia ver outra profissão".

Em seguida, foi levado pelos empresários para o Estrela Amadora, de Portugal. Ele precisou de uma semana para arrumar passaporte e foi para o Velho Continente.

"Meu pai me reencaminhou o meu áudio antigo e disse: 'Está vendo como Deus é maravilhoso? Olha como o futebol muda de uma hora para outra. Estou muito feliz por você'. Só fui acreditar quando estreei", disse.

Comandado por Sérgio Vieira, ele teve um bom começo, mas se machucou. Ao retornar, perdeu espaço e transferiu-se para o SC Covilhã, da segunda divisão de Portugal, no qual terminou a temporada.

No meio de 2023, perto de fechar a janela de transferências, Lucas recebeu uma oferta do Bragantino. O defensor não pensou duas vezes e aceitou a proposta.

"Estou muito feliz e motivado. Quero evoluir muito mais porque é uma chance de ouro em um torneio de alto nível como o Brasileiro".

Desde que foi contratado, ele atuou em três partidas pelo time de Bragança Paulista no Brasileirão.

"Me sinto em casa e abraçado. Sou muito grato por tudo que consegui e estou focado no presente. Desci muitos degraus na carreira sem ter a certeza de que conseguiria meus objetivos. Não vou parar por aqui e tem muita coisa para acontecer".