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R6 | A mente por trás da preparação psicológica da Team Liquid no BR6 2021

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Claudio Godoi conta como foi preparar a equipe para o último campeonato do ano e primeiro a receber a torcida de volta nas arenas após a pandemia


O último campeonato de 2022 do cenário competitivo de Rainbow Six Siege coroou a Team Liquid em frente à sua torcida ao ver a Cavalaria virar a série melhor de cinco do Brasileirão 2021 em cima da Ninjas in Pyjamas. Durante minha cobertura na Max Arena tive a oportunidade de conversar com Claudio Godoi, psicólogo da equipe, para falar sobre a preparação da equipe para aquele momento e a resposta que recebi foi totalmente diferente da que esperava.

Os primeiros passos para levantar o tão cobiçado troféu do Brasileirão 2021 começaram muito antes da decisão. Com a ciência de que o tempo para se preparar para a grande final seria escasso e que as opções de equipes para treinar seriam limitadas, uma vez que grande parte dos times do Top 5 brasileiro estavam no Major da Suécia, aquele era o momento perfeito para trabalhar a parte psicológica de um time que havia recebido dois jogadores novos nos últimos meses e que ainda não tinha faturado nenhum título no ano.

A ideia era sim de ter um bom desempenho na final, mas a preocupação não era com os resultados, e sim em tentar dar o melhor de si no último campeonato do ano do Rainbow Six.

“Em relação a isso [mostrar o melhor], fizemos um projeto totalmente diferente do que tínhamos feito. Tiveram duas questões principais: o primeiro é que para alguns dos jogadores era a primeira vez jogando no palco com torcida e o segundo é que era um título grande e importante, contra um time que tinha ganhado o Six Invitational deste ano. E também uma grande rival”, conta Claudio Godoi, psicólogo da Team Liquid, em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

O primeiro passo foi trabalhar a parte emocional dos jogadores. Enquanto alguns membros da equipe estão mais do que acostumados a ter uma legião de fãs gritando seus nomes, outros como os novatos AsK e Resetz recém-chegados da Série B entrariam no palco acompanhados dos gritos da Cavalaria pela primeira vez.

Para preparar toda a equipe para o momento decisivo do cenário nacional e para a volta das competições presenciais no país, a ideia formulada pela equipe da Team Liquid foi de levar os jogadores para mudar sua rotina: tirá-los da frente do computador para conhecer o mundo lá fora e aproximá-los da realidade para no fim, uni-los ainda mais como um time.

Tudo isso começou na Casa de Apoio José Eduardo Cavichio (CAJEC), um centro de apoio a crianças e adolescentes com câncer que mantém suas atividades através de doações. Inclusive, caso você queira ajudar, pode encontrar mais informações no Instagram deles.

“A primeira coisa que fizemos, até pra conseguir mudar um pouco a chave, olhar mais para o próximo e ter um pouco mais de empatia e acionar melhor essa parte emocional, foi uma ação de caridade - não foi algo para mostrar em rede social, então não tiramos fotos - e prestamos apoio para uma casa de crianças com câncer. As crianças em si nem tinham contato com o Rainbow Six, mas sabe aquela coisa de aproximar da realidade?”, revela Claudio.

“Sinto que os pro players ficam em uma rotina de acordar e jogar, sempre pensando na ideia de performance, mesmo cuidando da saúde isso vai afunilando muito a vida para ser apenas isso. Então quando a gente abre e vemos outras pessoas passando por outras situações, isso desenvolve um senso de união e empatia muito maior. A gente conseguiu fazer isso, teve um resultado muito positivo, as pessoas agradeceram muito a gente e vimos que conseguimos ajudar bastante”, completa.

Em seguida, era o momento de preparar o plantel para a volta (e a estreia) nos palcos presenciais depois de um longo tempo sem sentir a energia da torcida. Preparar alguém para uma situação que ele nunca viveu é algo difícil, nada supera a experiência de estar lá em carne e osso.

Mas dá para amenizar pelo menos um pouco o impacto e para a Liquid, a forma que encontraram foi de aproximar os jogadores dos fãs e dar contexto para aqueles rostos que estariam na torcida empurrando seu time do coração na grande final. Foi através do “Meu Momento Liquid”, um jantar com fãs que tiveram suas vidas mudadas pela Liquid, que o time exercitou essa parte.

“Tivemos mais de 400 respostas em menos de cinco dias e, tomando todos os cuidados em relação a Covid-19, pedindo testes e passaporte de vacinação para as pessoas, juntamos 40 fãs que tinham de fato uma história de vida marcada pela Liquid. Seja as vezes de acompanhar esses jogadores e vendo essa história salvou ele de uma depressão ou as vezes de um suicídio, outros que tinham uma história talvez diferente como conhecer a noiva ou namorada porque os dois eram torcedores da Liquid e isso aproximou eles”, relembra sobre o exercício.

“Não era algo de ‘vamos conhecer o time’, era um jogador com os fãs aí outro jogador um pouco mais distante na mesa. Mas assim todo mundo em contato humano, todo mundo é igual, para que na hora que chegasse no stage não fosse ‘Nossa, um monte de pessoas me pressionando’ e sim ‘Cara, é o Gabriel ali, o cara que acorda cedo e vai trabalhar mas mesmo nessas situações ele vai no banheiro assistir o jogo da Liquid no trabalho e ta torcendo pra gente’”, continua o profissional da saúde.

E deu tudo certo. Apesar de começar a grande decisão perdendo para a Ninjas in Pyjamas, a equipe formada por Nesk, Paluh, Psk, AsK e Resetz deu a volta por cima e foi empurrada pela torcida ao topo do “pódio” na corrida do Rainbow Six nacional.

Para aqueles que estavam vidrados nas telinhas acompanhando a final do Brasileirão 2021, seja dentro da Max Arena ou dentro de casa, viram que a ajuda funcionou. Começando a série melhor de cinco um pouco fria, a cada round ganho a confiança da Team Liquid aumentava e, no momento em que o capitão AsK ganhou um clutch 3x1 contra a NiP, foi visível a confiança entrando em seu corpo e o jogador sentindo que aquele era seu momento.

“Acho que teve um momento que ele passou a estar assim [confiante]. Antes, nos bastidores, ele tava muito nervoso, eu até brinquei com ele para deixar um pouco de dedo para o jogo porque ele tava roendo muito. Eu falei ‘Cara, tá tudo certo. A gente não precisa fazer nada diferente do que planejamos’. Teve momentos para a gente se restabelecer, usamos algumas técnicas também para controle emocional e eu fiquei muito orgulhoso”, lembra o psicólogo.

Para Claudio, o motivo do sucesso foi o trabalho na união do time. O psicólogo carrega com si a crença de que a melhor maneira de se ajudar é ajudando os outros, e foi basicamente nesse pensamento que foram idealizadas as atividades realizadas pela equipe. É através de “uma baita orientação ou de um conselho bacana” na hora de ajudar alguém, que encontramos as respostas para nossos problemas.

“Eu diria que o que uniu mais seria a ideia de se ajudar. Eu acredito muito em uma coisa: a melhor maneira de a gente ajudar a si mesmo é ajudando alguém [...] Eu vejo que o time se uniu muito também para conseguir fazer não só os fãs terem uma experiência bacana e retribuir aquele momento legal que eles tiveram, mas também de ajudar principalmente o AsK e o resetz a passar por essa primeira experiência de palco, de uma final, de estar ali com a torcida”, finaliza.