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Opinião: Flashpoint estreou tratando Brasil com descaso e achando que está fazendo um 'favor' à região

Torcida presente na Blast Pro Series, torneio que agitou São Paulo no início de 2019 Leo Sang / Blast Pro Series

Quando teve as primeiras informações divulgadas ainda sob o codinome de B Site, a mais nova liga internacional de Counter-Strike: Global Offensive deixou o competitivo brasileiro ávido por ter uma seletiva própria. Oficializada como Flashpoint, a competição realizou, de modo geral, o sonho das equipes da América do Sul de terem a oportunidade de brigarem por uma vaga em um torneio que nasceu promissor. Entretanto, a felicidade, com o passar do tempo, se tornou um tormento para parte desses times, por conta das decisões controversas e, até mesmo, da omissão do comitê organizador.

Descaso é a forma mais certa - e educada - de classificar o tratamento dado pelos responsáveis da liga à região sul-americana após "tamparem os ouvidos" quanto aos inúmeros pedidos para que as datas dos pré-classificatórios e da seletiva final fossem mudadas. As datas conflitam com o período referente as disputas por vagas no Americas Minor, válido para o Major, que será disputado no Rio de Janeiro em maio deste ano.

Ao decidirem realizar uma seletiva na América do Sul, talvez, os responsáveis pela Flashpoint tenham a ideia de que estavam fazendo um "favor" para a região. Ponto de vista este que, de certa forma, é compreensível, já que não somos tão desenvolvidos quanto alguns cenários internacionais. Todavia, no fundo, não passa de uma falácia, isto é, um raciocínio errado com aparência de verdadeiro.

A América do Sul, ou mais precisamente o Brasil, não precisa de favor e nem que sejam tratados com pena. Diversas vezes, tanto na Era 1.6, como na atual versão do jogo, equipes brasileiras já cansaram de mostrar que o País é, sim, uma potência quando o assunto é Counter-Strike.

Será que a memória daqueles que estão por trás do Flashpoint é curta e eles esqueceram que a base de um dos times que é "dono" da liga, o MIBR, há menos de cinco anos não só venceu dois Majors em sequência, como também, por diversas vezes, imperou no topo do cenário internacional? Será que se esqueceram que o primeiro título mundial norte-americano, por assim dizer, veio graças a cinco brasileiros? Será que não se lembram que o Brasil continua possuindo mais títulos dos torneios chancelados pela Valve do que alguns cenários mais desenvolvidos que o nosso como, por exemplo, a América do Norte?

É inadimissível que algum campeonato, ainda mais recém-criado, force equipes a escolherem entre ele e um Major. Por mais que os Majors não possuam mais o glamour de outrora, e, até mesmo, premiação defasada em relação a outras competições, como a própria Flashpoint, os Majors são os torneios os quais, praticamente, todos os jogadores brasileiros sonham em participar. Uma das maiores provas disso, inclusive, está no Brasil e se chama v$m, atleta que, atualmente, está impossibilitado de jogar os Mundiais por ter recebido VAC Ban há dois anos, mas que sempre procura obter o perdão da Valve - ainda mais agora com um Major no Brasil - para no mínimo ter a possibilidade de tentar imortalizar o próprio nome dentro do jogo com um sticker.

Se é inadimissível qualquer campeonato criar para uma equipe um cenário no qual ela deve escolher "ou eu ou o Major", eu não sei se existe um adjetivo com o qual possa classificar a omissão do comitê organizador em não atender não só um, mas inúmeros pedidos para que certas datas fossem mudadas por conflitarem com as disputas para o Major. Talvez a palavra mais adequada seja surreal, tendo em vista que até integrantes do MIBR - um dos "donos" da Flashpoint - pediram para que os responsáveis dessem uma olhada para América do Sul e tentassem encontrar uma solução para o grave problema, como fizeram o manager Dead e Taco e que, pelo visto, também foram ignorados.

O descaso por parte do comitê organizador da Flashpoint não é causado somente pelas decisões controversas e pela omissão em resolver o problema do conflito das datas, mas também se deve pelo calendário montado para a América do Sul, que diverge em pontos cruciais ao compará-lo com os das outras regiões que também fazem parte da liga, como América do Norte e Europa.

A quantidade de pré-classificatórios, assim como as datas destes, são idênticas para os três cenários, ideia esta que até é digna de elogio, pois coloca todas as regiões disputando as vagas no mesmo período. Entretanto, a crítica positiva se transforma em negativa quando é possível sentir que o calendário foi montado atendendo as necessidades de América do Norte e Europa e deixou de lado a América do Sul.

Quando se compara as datas selecionadas para a realização dos pré-classificatórios e das seletivas finais do Major e da Flashpoint, é possível observar que na América do Sul há conflitos entre a seletiva final (Closed) da liga e o pré-classificatório (Open) do Major e, também, o qualificatório global da Flashpoint com o Closed do ESL One Rio. Na América do Norte e Europa, essa "colisão" é vista, mas somente de um pré-clasificatório de ambas as competições.

Por mais que a história do Counter-Strike mostre que em outras ocasiões ocorreram conflitos de datas, sempre quando houve disponibilidade para uma solução e, sobretudo, boa vontade, os organizadores dos dois campeonatos que estavam se "colidindo" chegaram a um acordo. Todavia, não é isso que estamos vendo com relação a Flashpoint e Major, mais por parte dos responsáveis pela liga, já que a ESL tentou negociar uma nova data, contudo, perante a aprovação dos outros participantes do Closed, o que acabou não sendo aceito.

A omissão por parte dos reponsáveis pela Flashpoint em não solucionar o problema do calendário sul-americano criou uma bola de neve na região. Os conflitos das datas colocaram as equipes na difícil posição de escolher entre a liga e o Major, gerando, assim, desistências que poderiam ser evitadas, tendo em vista que o calendário referente ao Major foi revelado muito antes do da Flashpoint. Fora o clima de guerra que que se instaurou nas redes sociais, principalmente após times usarem o direito próprio de recusarem a proposta feita pela ESL, o que colocou mais pressão nos clubes que estavam decidindo por qual campeonato seguir.

Desistir de um campeonato em prol de outro não é tão fácil assim, ainda mais quando não é 100% garantido que você vá até as fases principais daquele o qual o time escolheu. É uma decisão que mexe com o psicológico de todos os envolvidos, já que gera uma obrigação na equipe em ter que conquistar as vagas em jogo para que ela possa bradar aos quatro ventos que tomou a decisão certa. E é nessa posição que a Isurus se encontra após escolher jogar o Closed do Major ao invés do Global da Flashpoint.

É difícil dizer e entender o que levou os responsáveis pela Flashpoint se omitirem a solucionar o conflito de datas na América do Sul, mesmo após integrantes de um dos "donos" da liga pedirem ao comitê organizador atenção para a região. Se especula que é consequência da guerra que Flashpoint e ESL travam pela aquisição de participantes para as respectivas ligas, o que, se for verdade, escancara uma imaturidade antes nunca vista no cenário internacional e uma falta de respeito perante aqueles que são os verdadeiros protagonistas do Counter-Strike: os jogadores.

Por mais que Flashpoint e ESL precisem agir sempre buscando o melhor para os respectivos produtos, ambas devem, acima de tudo, prezar pela saúde do cenário internacional de Counter-Strike. Tendo em vista que o FPS da Valve é uma modalidade de circuito aberto, ambas as ligas podem, sim, coexistir, mas isso, é claro, depende da boa vontade de uma não desejar sobrepujar a outra, afinal, é uma atitude que coloca as duas com status de vilãs e prejudica todos aqueles envolvido com o competitivo.