Como 'gato e rato': por que, muito mais do que futebol, Napoli e Juventus é a grande rivalidade da Itália

O duelo entre Napoli e Juventus é cada vez mais quente GettyImages

Uma visão simplificada teria o confronto Juventus e Napoli como apenas uma rivalidade entre o norte e o sul da Itália, regiões tão diferentes economicamente quanto culturalmente. Mas há muito mais por trás do encontro entre os adversários desta sexta-feira pela 15ª rodada do Campeonato Italiano.

A motivação atual tem relação com a tabela de classificação. O Napoli, que foi campeão pela última vez há 27 anos, lidera com 38 pontos, tendo vencido 12 partidas e empatado duas. A Juventus, atual hexacampeã, é a terceira colocada, com 34 pontos (11 vitórias, um empate e duas derrotas).

A busca pelo título ainda tem a Internazionale de Milão, segunda colocada, com 36 pontos.

A história joga a favor da Juventus. Além de ter mais títulos do que o Napoli (33 a 2), tem também a supremacia no confronto. Dos 174 encontros, venceu 81, empatou 56 e perdeu 37. Foram ainda 268 gols alvinegros e 190 tentos celestes.

A primeira partida entre eles ocorreu há 91 anos. Foi em 21 de novembro de 1926, quando a Juventus venceu o Napoli por 3 a 0, em Nápoles, pela primeira divisão. O time celeste obteve a primeira vitória somente em 19 de maio de 1929, também pelo torneio nacional, pelo placar de 1 a 0.

Mas, não se deixe enganar, como escrevemos acima, há muito mais por trás do encontro desta sexta. Veja alguns motivos que ajudaram e ajudam a esquentar a rivalidade entre a Vecchia Signora e os Partenopei.

CUORI INGRATI

Um dos motivos que ajuda a alimentar a rivalidade entre os clubes é o poderio financeiro da Juventus. Não foram poucas vezes em que a equipe de Turim, que tem como donos os mesmos empresários do grupo Fiat, tirou jogadores do Napoli sem dar chance para o rival se proteger.

O caso mais recente até estará em campo nesta sexta. Gonzalo Higuaín deixou o Napoli em julho de 2016 para defender a Juventus, que investiu 90 milhões de euros (R$ 325 milhões na cotação da época) para tirar o artilheiro argentino do clube celeste. O ato até hoje não foi perdoado.

Na primeira vez em que pisou em Nápoles como adversário, Higuaín enfrentou o pior tratamento possível. Pessoas queimaram imagens com o rosto dele. Camisas que ele usou no Napoli também foram para a fogueira. E palavras como "ingrato, porco, traidor, imundo...".

Outros casos na história tiveram tratamento parecido.

O brasileiro José Altafini, que em solo nacional é conhecido com o apelido de Mazzola, é considerado pelos napolitanos como o primeiro "traidor". Após uma passagem pelo Milan, ele brilhou no Napoli de 1965 até 1972. Era o artilheiro e fez 97 gols, no total, em 234 jogos. Mas mudou-se para a Juventus na temporada 1972/73. Isso fez com que a torcida napolitana, antes sua fã, o apelidasse como "cuore 'ngrato'" (algo como "coração ingrato").

Altafini, 79, sempre disse que a mudança ocorreu porque seu contrato foi encerrado. De fato, após sete campeonatos pelo Napoli e com 34 anos, o presidente do clube acreditava que o brasileiro não teria mais futuro. Enganou-se. Ele ganhou dois campeonatos pela Juventus, o segundo deles em cima do ex-clube.

O craque seguinte foi Dino Zoff. Ele deixou o Napoli com um depoimento bem emocionante, mas mesmo assim deixou muitos torcedores irritados. Há quem diga até que o motivo da troca foi que o goleiro mudou de casa porque sua ambição era chegar a seleção e, coincidência ou não, só foi chamado assim que deixou o clube celeste.

Ciro Ferrara também magoou os napolitanos. Aos 27 anos, era o capitão do time. A Juventus pagou uma boa quantia: 9 milhões de liras italianas. Isso motivou uma faixa histórica exibida pelos torcedores do Napoli durante os jogos contra a Juventus: "Napolitano? Apenas mercenário".

Um outro exemplo é Fabio Quagliarella. O atacante sempre se disse torcedor do Napoli, embora tenha começado a carreira no Torino, mas estranhamento aceitou a proposta de defender o time alvinegro a partir de 2010. Foi chamado de traidor imediatamente e sempre que jogava contra o time era hostilizado.

Mas Quagliarella hoje tem uma relação boa com a torcida do Napoli, sem hostilizações. O motivo? Ele revelou que a saída foi motivada por um perseguidor, que infernizou sua vida profissional e pessoal por quase cinco anos. Temendo violência com a família, mudou de clube. A revelação ocorreu neste ano e gerou o perdão.

A lista de não tem apenas jogadores. O técnico Marcello Lippi, que foi campeão da Copa do Mundo de 2006, também trocou o Napoli pela Juventus. Isso ocorreu em 1994 e deixou muitas mágoas. Lippi jamais voltou ao Napoli.

Todos os casos citados acima foram de pessoas que trocaram o Napoli diretamente para a Juventus e por isso são cuori ingrati (corações ingratos). Vale ressaltar que o caminho inverso (isto é, da Juventus para o Napoli) não causa revolta similar. Mas o time napolitano jamais tirou um ídolo da rival.

BRIGA PELO TOPO

Fundado em 1926, o Napoli tem dois títulos do Campeonato Italiano, ambos conquistados nos anos 80. Especificamente na segunda metade daquela década, foi o período em que a rivalidade com o clube de Turim se aflorou de vez. Foi o período dos embates Maradona x Platini e também em que o time brigou pelo topo.

Mas é bom que fique claro: os napolitanos sempre viram na Juventus um arquirrival por causa da diferença que há entre o norte e o sul da Itália, por conta de provocações de cunho racistas que eram feitas pelos torcedores fanáticos juventinos, pelo fato de a rival abocanhar todos os títulos no país e pela perda de ídolos.

Os anos 80, contudo, fizeram com que a Juventus passasse a enxergar o Napoli também como um rival. Das disputas de Scudetti daquela década, o Napoli brigou pelo título em 1980/81 (foi 3º), 1985/86 (foi 3º), 1986/87 (foi campeão), 1987/88 (foi vice), 1988/89 (foi vice), 1989/90 (foi campeão).

O primeiro título napolitano foi sobre a Juventus. Era muito comum os torcedores da curva sud (onde ficam os mais fanáticos) provocarem Michel Platini e exaltarem Diego Armando Maradona.

A rivalidade, contudo, esfriou ao longo dos anos 1990 e 2000 pela crise e decadência do Napoli. Voltou nos últimos anos porque o time passou a brigar novamente pelo topo no país. Em 2012/13, foi vice e a Juventus campeã. O mesmo ocorreu em 2015/16.

Ou seja, a torcida do Napoli sonha com o dia em que dará o troco no rival juventino.