Bremer voltou a jogar em alto nível pela Juventus após a grave lesão no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo sofrida em 2024. Confiante e vivendo uma grande temporada, o zagueiro brasileiro acabou enfrentando um novo problema que o fez temer pelo pior: perder a Copa do Mundo.
Em outubro do ano passado, rompeu o menisco medial do mesmo joelho e precisou passar por uma nova cirurgia. Felizmente, tudo correu bem e Bremer apareceu na lista de convocados de Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira.
“Sempre tive na cabeça que voltaria à Seleção. O que eu não esperava era ter uma segunda lesão. Aquilo me preocupou bastante, porque normalmente quem rompe o ligamento cruzado fica muito tempo fora e, quando volta, costuma sofrer bastante com problemas musculares. Esse era o meu principal receio até então. Por isso trabalhei muito. Além da excelente estrutura que tenho no clube, também contratei um preparador físico para trabalhar comigo em casa. Fiz tudo pensando em chegar bem no período da Copa e das convocações. Depois veio a lesão no menisco, uma nova cirurgia, e ali fiquei preocupado. Naquele momento, muitas coisas passam pela cabeça, mas eu entendia que o que cabia a mim era trabalhar. Então foquei nos detalhes: dormir bem, me alimentar bem, cuidar do corpo. E hoje estou colhendo os frutos disso”, afirmou Bremer, em entrevista exclusiva ao podcast Futebol no Mundo.
O zagueiro desfalcará a Juventus no dérbi contra o Torino, neste domingo, pela última rodada da Serie A.
A Juve precisa vencer e torcer por tropeços de Roma e Como para garantir vaga na próxima Champions League.
Já são oito temporadas no futebol italiano. Antes da Juventus, Bremer defendeu justamente o Torino. A longa relação com a Itália garante boa comunicação - e também brincadeiras - com a comissão técnica da Seleção Brasileira.
“A gente conversa bastante em italiano. O staff dele também é praticamente todo italiano, embora tenha um inglês. Para mim acaba sendo mais fácil assim. Às vezes ele mistura português com espanhol, aí eu brinco: ‘fala comigo em italiano que a gente se entende melhor’. Mas o português dele está melhorando aos poucos. Outro dia perguntei para o preparador físico se ele já tinha experimentado pizza brasileira. Aí ele respondeu: ‘eu sou italiano, não posso comer pizza brasileira’. Eu falei: ‘pô, mas você está no Brasil, tem que experimentar para conhecer’. Esse entrosamento está sendo muito legal”.
O aprendizado no futebol italiano foi enorme, como o próprio jogador explica ao citar grandes referências da posição.
"Quando cheguei à Itália, percebi que a visão sobre o zagueiro era muito diferente daquela que eu tinha no Brasil. Lá, muitas vezes se valoriza mais o lado técnico, sair jogando, dar chapéu, fazer gols. Aqui eu entendi de verdade o que significa defender. Foi uma escola muito importante para mim, tanto no Torino quanto na Juventus. Trabalhei com o Walter Mazzarri, que me ensinou muito. Ele falava bastante sobre posicionamento corporal, marcação dentro da área, atenção ao atacante nas costas. Pequenos detalhes que fazem toda diferença para um defensor. Cheguei muito jovem, com 20, 21 anos, e foi nesse período que comecei a criar a casca para me tornar o zagueiro que sou hoje".
"A Itália sempre foi referência tática no futebol, especialmente para defensores. Basta olhar a história da seleção italiana e os grandes zagueiros que surgiram lá, como Paolo Maldini, Fabio Cannavaro, Giorgio Chiellini e Leonardo Bonucci. Claro que a Itália perdeu um pouco de força nos últimos anos e acabou ficando fora das últimas Copas do Mundo, mas para um zagueiro é um lugar muito importante para evoluir. Você aprende muito jogando lá. Joguei com o Bonucci já na reta final da carreira dele. Quando cheguei na Juventus, o Giorgio Chiellini já estava saindo. Até brinquei com ele dizendo que poderia ter ficado mais um ano para me ajudar na adaptação. Mas ele já estava indo para a MLS. Com o Bonucci convivi mais de perto. A gente conversava bastante e ele sempre me passava dicas. Ele fez parte de uma das maiores defesas da história recente da Itália, ao lado de Chiellini, Andrea Barzagli e Gianluigi Buffon. E o próprio Chiellini também, mesmo sem termos atuado juntos. Eu sempre trocava mensagens com ele e ele também me ajudava bastante".
Na Seleção Brasileira, a concorrência pela titularidade é altíssima, com Marquinhos e Gabriel Magalhães. Mas, além dos zagueiros, Bremer também reencontrará antigos companheiros de defesa da Juventus.
"Será muito legal reencontrar o Danilo e o Alex Sandro. A gente brincava que formava o ‘Muro Brasiliano’. Na última vez em que estive com o Danilo, até falei: ‘pô, o Alex Sandro não vai voltar para reformar o Muro Brasiliano?’. Naquele momento ele tinha sido cortado por lesão. Agora vamos nos reencontrar novamente e relembrar os velhos tempos".
Além dos dois, Bremer também reencontrará Neymar, com quem esteve na Copa de 2022. O zagueiro celebrou o retorno do jogador do Santos e analisou a forma como Ancelotti lidou com a convocação.
"A gente fica muito feliz, porque ele é um jogador que marcou gerações. São muitos anos atuando em altíssimo nível. Ele também passou pela mesma lesão que eu tive, então sabe como é difícil o processo de recuperação e os desafios para voltar ao melhor nível. É um jogador de nível mundial, que conquistou praticamente tudo no futebol. Então tenho certeza de que pode agregar muito à Seleção, não apenas dentro de campo, mas também fora dele. Ele é uma pessoa muito querida pelo grupo. Nas outras convocações em que estivemos juntos, ainda na época do Fernando Diniz, já era alguém muito respeitado e querido por todos. E acho que o Carlo Ancelotti também valoriza isso. Ele não olha apenas para o que acontece dentro de campo, mas também para o ambiente e para as pessoas. Esse é um dos grandes diferenciais dele".
Sobre as seleções favoritas ao título, além do Brasil, Bremer aponta França, Argentina, Espanha e Inglaterra. E faz questão de ressaltar que o fato de Ancelotti ter chegado há pouco tempo não determinará o futuro da Seleção no Mundial.
"Estamos no caminho certo. A última Copa teve um ciclo completo e terminou da forma que terminou. Então isso não garante nada. Da mesma maneira, começar no meio do processo também não significa que não possamos ser campeões".
Mesmo assim, a lembrança da eliminação para a Croácia em 2022 segue muito presente.
"Quando lembro daquele momento, dá até uma dor no coração, porque a Seleção estava muito bem preparada e muito bem estruturada. Ainda mais vivendo há tantos anos na Itália e olhando o jogo de forma mais tática, como zagueiro, você entende que um gol quase nunca acontece por um único motivo. É como dizem aqui: quando um avião cai, não existe apenas um erro. São pequenos detalhes, uma falha aqui, outra ali, que acabam resultando no gol. Infelizmente faz parte do futebol. Claro que ninguém queria que terminasse daquela maneira, mas acontece. Agora temos uma nova oportunidade de dar a volta por cima e chegar preparados para lutar pelo título".
Por fim, após tantos anos vivendo na Itália, Bremer acompanhou de perto a dor dos italianos pelas seguidas ausências da Seleção em Copas do Mundo. Mas, com Carlo Ancelotti no comando do Brasil, os italianos já sabem para quem torcer.
"De cada dez italianos, acho que nove dizem que vão torcer para a Seleção Brasileira. Muitos falam que vão apoiar o Brasil por causa do Carlo Ancelotti, por ele ser italiano, e também por minha causa. Isso é muito legal e importante para mim. É bom sentir esse carinho e perceber que eles vão estar torcendo pela gente. Porque, de certa forma, a Itália também virou o nosso segundo país. Estou aqui há oito anos, minha primeira filha nasceu aqui e minha segunda filha também vai nascer aqui. Então a gente acaba ficando um pouco italiano também".
