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20 anos do Penta: kit-sexo, caneca de chope, 'vão pro inferno' e noite a 3 no motel: Mauro Naves revela bastidores da imprensa na Copa

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20 ANOS DO PENTA: Mauro Naves revela bastidores de festa em avião na volta ao Brasil; VEJA (2:19)

Comentarista da ESPN acompanhou seleção após título contra a Alemanha (2:19)

Hoje comentarista da ESPN, Mauro Naves foi um dos principais nomes da TV Globo na Copa do Mundo de 2002 e contou divertidos bastidores da cobertura na Coreia do Sul e no Japão


Nesta semana, completam-se 20 anos da conquista do Pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002. Há duas décadas, o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0, no Estádio Internacional de Yokohama, com dois gols de Ronaldo "Fenômeno", e finalmente colocou a 5ª estrela acima de seu escudo.

Em uma época em que os smartphones e as redes sociais ainda não existiam, a cobertura de imprensa daquele torneio foi muito diferente do que estamos acostumados hoje.

Para se informar sobre as últimas notícias do Mundial, os torcedores podiam recorrer ao rádio ou à internet, que ainda "engatinhava" com os portais de notícias. No entanto, a principal fonte de informação era a televisão.

Um dos nomes mais importantes da cobertura na Coreia do Sul e Japão foi o repórter Mauro Naves, que foi um dos enviados da TV Globo para cobrir a seleção brasileira na Ásia.

Hoje comentarista da ESPN, Mauro vinha acompanhando o Brasil desde os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e possuía amplo contato com dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), membros da comissão técnica e jogadores, em tempos em que a relação entre imprensa e principalmente os atletas era muito mais próxima.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o jornalista relembrou os fantásticos e divertidos bastidores da cobertura da "família Scolari", que começou ainda nas duras eliminatórias para o Mundial de 2002.

Na conversa, Naves lembrou as dúvidas sobre as convocações de Ronaldo "Fenômeno" e Rivaldo, o clamor popular por Romário e os vários "arranca-rabos" do ranzinza Felipão com a imprensa.

O comentarista também recordou diversos causos saborosos ocorridos nos hotéis e nas viagens do Brasil, como um tal "kit-sexo" que deu o que falar nos dias prévios ao início da Copa.

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Romário e a aeromoça

Eu tinha acompanhado as eliminatórias todas. O sofrimento começou ainda com o (técnico Vanderlei) Luxemburgo, passou pelo Leão, chegou o Felipão um ano antes da Copa. Era uma seleção que o povo ainda desconfiava muito mesmo da capacidade de ganhar, pela trajetória ruim que tinha feito nas eliminatórias. O próprio Felipão pega um ano antes, em julho, e perde o jogo de estreia contra o Uruguai. É o famoso "jogo da aeromoça", no qual o Romário teria tido um affair com a aeromoça no hotel da seleção, algo que ele mesmo desmentiu.

Aí acontece a história do Romário, depois ele vai em julho jogar a Copa América e perde pra Honduras, então estava bem complicado. Ele volta ao Brasil, tem que refazer o time, mas não podia contar ainda com Rivaldo e Ronaldo, que estavam complicados com lesões. Depois, quando a seleção foi para a preparação em Barcelona, ainda havia dúvida de poder contar com Rivaldo e Ronaldo. Os médicos achando que eles podiam estourar joelho, estourar tudo se fossem jogar, então tinha aquela pressão, e o Felipão já tinha aberto mão do Romário, então precisava muito do Ronaldo.

Mas o papo do Romário aconteceu em julho, quando ele se nega a ir pra Copa América dizendo que ia operar o olho. Só que depois ele joga em um prazo menor pelo Vasco, um tempo menor do que ele tinha dito que ia precisar e tal... O Felipão ficou irritado e a partir dali já não convoca ele no segundo semestre. Então, falavam que o Romário deixou de ser convocado por causa da história da aeromoça, mas não foi. Foi por causa mais disso aí, com certeza.

O grande problema é que ele falou para o Felipão que não podia jogar porque ele tinha que operar o olho e ele volta a jogar no Vasco acho que antes do final do mês. O Felipão ficou uma "arara", precisava dele e abriu mão. Aí tinha Luizão, tinha Edílson "Capetinha" no ataque, etc. e tal.

Mas claro que não era um Romário e nem era um Ronaldo, que ele só vai ter a certeza de que poderá contar para a Copa lá em Barcelona, já a caminho da Malásia e já na preparação, que foi Barcelona, Malásia e depois foi para a Coreia para a estreia do Mundial. E os médicos pressionando para que não levasse nem Ronaldo nem Rivaldo... Mas a equipe médica do Brasil bancou. Falou com os jogadores, deixou eles tranquilos, mas os médicos dos clubes... Quem não queria eram os clubes, os clubes não queriam liberar, então Barcelona e a Inter de Milão não queriam, achando que poderia estragar os caras.

Mas o Felipão precisava deles de toda forma, porque, na cabeça dele, o Romário já estava descartado.

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"Conversa com ele outra hora, Felipão"

Nas eliminatórias, a seleção parou em Curitiba para se preparar no CT do Athletico-PR. Depois, viajava no dia seguinte para jogar um jogo decisivo lá em Porto Alegre. O Felipão deu o treino e, quando acabou, ficou no campo conversando com Mário Sérgio, que era técnico, na época, do Athletico-PR. E todos nós já na sala de imprensa, esperando por ele.

Quando ele entra, atrasou pra caramba, ficou lá falando de tática com o Mário, enfim, fez o que ele queria. Quando ele voltou, o (repórter) Sílvio Barsetti, que escrevia na época para o Estadão, hoje escreve para o Terra, pegou o microfone e falou assim, "Porra, Felipão, você podia ter conversado com o Mário Sérgio outra hora, pô. Está todo mundo aqui te esperando, nós temos deadline para fechar o jornal, tem o horário dos programas esportivos, já passou esse horário, porque, pô, você podia dar a entrevista e depois você falava. Então, assim, não foi legal o que você fez".

Aí o Felipão fez aquela cara famosa e falou: "Sílvio, eu quero que você, seu deadline, seu programa de esportes, vá tudo pro inferno, porra!". Ele estava o Felipão em estado puro, entendeu (risos)? "Eu quero que vá todo mundo pro inferno, eu queria conversar, fiquei lá conversando". Então, você imagina como é que foi o clima da coletiva.

Só que no outro dia, 7h da manhã, a gente viajava no avião da seleção. Toda a imprensa, ou boa parte da imprensa que estava naquela coletiva, todo mundo que pagava, se os veículos pagassem e tal, comprava-se o lugar para ir com a seleção. Aí o Sílvio, muito gaiato, me chamou, "Vem cá", "O que que foi?", "Vem atrás de mim", aí eu fui.

No avião, os jogadores sentavam um pouco do meio. Na frente, estava sempre a comissão técnica, presidente da CBF, diretoria, enfim, e nós da imprensa tínhamos lá o fundão para ocupar. Aí então eles entravam primeiro e depois a gente. Aí o Sílvio vai e vem atrás, o Felipão tá sentado no corredor assim, logo na 2ª ou 3ª cadeira, aí o Sílvio dispara: "Felipão, tomara que a gente não vá pro inferno na próxima meia hora, né? Senão vamos todo mundo juntos!".

O Felipão olhou assustado: "Opa, ufa, bate, não, não! Bate na madeira! Esquece aquilo, para, tchau!" (risos). Foi uma sacada sensacional do Sílvio, aí já quebrava o clima, o Felipão já ria e estava tudo certo.

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O controverso "kit-sexo"

Quando a seleção foi para a Malásia, um cara que é ligado à CBF, mas não tinha nada a ver com a comissão técnica, resolve comprar umas revistas Playboy em Barcelona para levar para a Malásia. Aí no meio desse voo, ele conta para a gente que estava levando umas revistas Playboy, e alguém perguntou: "Pra quê?". Aí ele solta: "O jogador vai ficar dois meses num quarto fechado... Já viu, né, vou dar de presente pros caras" (risos).

Um jornalista, quando desceu na Malásia, a primeira notinha que ele bateu: kit-sexo! "Seleção tem kit sexo". Pô, o Felipão quando leu aquilo, amigo, ficou muito p***, porque ficou parecendo que a comissão é que estava promovendo essa compra. A pessoa que comprou era ligada até a eles mesmo, mas não tinha nada, não pediu licença nem autorização para isso, fez da cabeça dele. Mas aí o jornalista botou "kit-sexo" na manchete, ah rapaz.

Mais tarde, Felipão desceu no hotel procurando o quarto desse jornalista para brigar com o cara, aí o (então assessor de imprensa da CBF) Rodrigo Paiva teve que intervir e falou: "Se você for lá, eu vou pedir demissão, porque o assessor de imprensa sou eu. Você é o treinador, você não tem que fazer esse papel, eu vou lá falar com o cara".

Então, eram altos e baixos na relação entre Felipão e imprensa. Quando você achava que estava tudo bem, saía uma bomba.

Mas, mesmo com tudo isso, o relacionamento era completamente diferente de hoje. Em vários jogos a gente ficou no mesmo hotel com a seleção, tomava café com jogador. Se o cara tinha uma folguinha, você ia no shopping do lado lá com o cara, entendeu?

Muitas vezes, eles perguntavam se dava para você pedir uma canequinha de refrigerante para colocar chope dentro, se ele estava de folga, para as pessoas passarem e não verem. Nada de tomar porre nem nada disso, era só para dar uma relaxada. E aí você ficava lá conversando com o cara que, pô, era consagradíssimo, aquela seleção cheia de feras. E aí você conversava de tudo, inclusive de futebol. Sabe, da vida, das coisas, concentração. Hoje, infelizmente, não mais...

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Uma noite a 3 no motel

A seleção, por alguma questão de logística, não foi viajar quando deveria e ia permanecer lá em Seul. E aí eu, o Régis Rösing e o Mário Jorge Guimarães, que era o editor, tivemos que dormir num motel (risos).

Pelo menos era um quarto para cada um (risos), mas os três tiveram que ir para o motel. E aí era curioso, porque quando a gente pegava um táxi qualquer lá, que obviamente o cara não falava inglês, então a gente tinha o cartãozinho do motel para dizer onde estava indo, e quando a gente entregava, o cara começava a rir: "Hihihi". Dava aquela risadinha, achando que era um casal que estava indo para o motel (risos).

Eu e o Régis tiramos de letra, achamos engraçado, mas o Mário Jorge ficava p***. Ele às vezes ficava falando em português com o motorista: "Você está louco! A gente não é casal, não!" (risos).

Eu falava para ele: "Mário, o cara não tá entendendo nada, deixa ele pensar o que ele quer, não tem problema nenhum, e que ele pense, que se fôssemos também, ele não tem nada com isso". Mas passamos dois dias assim e a noite tinha que passar por essa situação de dormir lá...

No final, foi uma experiência muito legal (risos)!

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O "drible" de Ronaldo

Antes do jogo contra a Turquia, na semifinal, o Ronaldo fez o corte de cabelo "Cascão", mas ficou de boné. Eu me lembro que ele entrou numa sala para dar uma entrevista para uma emissora do Japão, a gente ficou do lado de fora para pegar uma falinha dele sobre o jogo, ali no corredor.

Quando chegou nossa vez, a gente estava gravando, mas ele seguia com aquele boné... E ninguém desconfiou, ele já era meio careca aqui do lado mesmo, então...

Ali ele enganou todo mundo! Então, a gente tomou um chapéu, um drible do Ronaldo (risos). Mesmo com a proximidade que a gente tinha do cara. Ele não quis falar, não revelou que tinha feito o corte.

Acho até que na matéria que fizemos, ele falava "que ia ter uma novidade" para o jogo. Ele deu uma "letrinha", mas nunca que a gente imaginava que era o cabelinho, não.

"Não era todo esquema que a gente podia participar"

Não era todo mundo que saía, aí você tinha que combinar, "Ô Roberto, fulano, Rivaldo, não sei o quê, você vai comprar um celular amanhã novo, você vai fazer o que na folga, "ah vou dormir", "não, não, vai dormir nada". Aí tinha uns "esqueminhas" também que a gente não podia participar, né (risos).

Eram as festas. Na época, se fazia de forma diferente: um empresário ou outro arrumava uma lotaçãozinha lá, levava para um lugar, para um churrasco entre eles e tal, e aí a gente... Por mais que a gente desconfiasse que aquilo acontecia, a gente nem noticiava. E eles também não iam dar o endereço para a gente ir atrás (risos). Não iam dar brecha, né? Hoje em dia, eu acho que os caras pisam muito na bola com isso. E ainda tiram foto, postam... -

Então, ao longo desses anos de cobertura, evidentemente muito dia de folga rolou esse tipo de churrasco. Que, normalmente, são os próprios empresários que combinam, eles combinam entre eles lá. Tem uma turma evangélica que não vai e tem uma turma que vai. Tem os caras que fazem um discurso, mas atuam de outra forma.

Você sabe que dia de folga lá, em geral, é o mais complicado, porque cada um tem uma programação, sabe? É evidente, um vai jantar, que a família está lá. A mulher foi com os filhos, porque tá na semifinal, enfim, conseguiu levar. Aí põe no outro hotel e vai lá com a esposa, faz aquele almoço normal mesmo, matar a saudade e tal. Os que estão mais soltos, solteiros, já fazem um outro tipo de programa, um outro vai pra loja, o outro para o rolê.

Então é duro, você tinha que, no dia anterior, ficar caçando um ou outro, ver o que que era interessante para fazer matéria. "O que você vai fazer, Fulano?", "Ah não, minha esposa veio aí... Vou jantar ali no restaurante", você vai falar, pô, isso vai render matéria? Não. Mas como o "rolê" não rendia matéria, acabava indo para o almoço. A única coisa que você podia ter é uma imagem do cara com a família.

"O que vocês vão escrever de mim?"

Na véspera da final da Copa, de tarde, os jogadores já tinham treinado de manhã, almoçado, descansaram, era de tardezinha, umas 17h. Como não tinha tanta rede social para eles ficarem no quarto, joguinho, não sei o quê, baralho, já tinham jogado 60 dias esse negócio... Já tinham jogado a sinuca toda, o baralho todo, os caras queriam relaxar e tal...

Então, eu me lembro claramente do Ronaldo indo lá na nossa redação, que era em um dos quartos, entrar lá de repente. Estava sozinho, ele e outro, mas obviamente me lembro bem do Ronaldo ir lá brincar com a gente, perguntou: "E aí, o que que vai sair no jornal hoje de mim, aí? Tão falando bem de mim? Vou ganhar, não vou ganhar?". Foi lá interagir com editor de imagem: "Ah, você tá bonito aqui, nessa você está feio, olha só essa imagem".

Aí ele mostrou alguma imagem e o Ronaldo ficou feliz. Deve ter dado pitaco: "Escolhe essa imagem, não essa". Era algo super natural, entendeu?

E aí você imagina assim: qual o problema se o Neymar fizesse isso hoje? Por que que não poderia? Nenhum problema, cara... Mas eles não se acostumaram com esse tipo de interação com a imprensa, né, eu acho que é por isso que isso não acontece mais. Eles não sabem nem onde é que é a redação da gente. Às vezes a gente preferia que o Felipão não soubesse também, para não ir lá dar bronca (risos).

A "água mineral" de Vampeta

Quando voltamos do Japão, eu desci em Brasília e já me passaram o microfone porque já estava ao vivo com o (apresentador e narrador) Luiz Roberto fazendo a chegada da delegação.

Foi uma correria só, porque eu estava escrevendo um texto para a matéria do fechamento da Copa, que ia ao ar no telejornal da noite. Eu desci meio que escrevendo, porque eu ia aproveitar essas imagens finais, mas estava uma confusão.

Quando eu vi, me falaram que eu ia entrar ao vivo. Posicionei e o Luiz Roberto foi me perguntando como tinha sido o voo, a festa da volta, essas coisas.

Eu não me esqueço que disse: "Olha, Luiz, o único que eu não vi dormindo foi o Vampeta. Esse tomou água mineral o voo todo!". Essa foi exatamente a frase que eu falei.

Uma hora depois, ele começa a dar cambalhotas na rampa do Palácio do Planalto (risos). E o Luiz Roberto: "É, bem que o Mauro falou que ele tomou muita água mineral" (risos).