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20 anos do Penta: Ricardinho, o último convocado da Copa, revela o que disse a Emerson: 'Era difícil, mas precisava falar alguma coisa'

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Ricardinho foi convocado para a vaga de Emerson, que se lesionou pouco antes do início da Copa do Mundo de 2002


Em 2 de junho de 2002, a seleção brasileira estava a 24 horas de sua estreia na Copa do Mundo de 2002. Durante a tarde, a delegação foi ao estádio de Ulsan fazer o reconhecimento do gramado antes do duelo contra a Turquia. Os jogadores organizaram um rachão para eliminar a tensão pré-jogo. O que podia dar errado?

Durante o recreativo, Rivaldo disparou de canhota. O volante Emerson, capitão da equipe de Luiz Felipe Scolari e que estava brincando de goleiro, pulou para defender. O craque caiu em cima do ombro e na hora começou a sentir fortes dores. Algo havia dado errado...

Horas depois, o médico José Luiz Runco convocou coletiva de imprensa. O anúncio foi duríssimo: Emerson tinha uma luxação no ombro e precisaria de ao menos um mês para se recuperar. Não havia alternativa: o volante teria que ser cortado pela seleção brasileira, acabando com o sonho do atleta em disputar o Mundial.

Felipão não teve nem tempo de lamentar a perda de seu capitão, talismã e homem de confiança desde os tempos de Grêmio...

Faltavam poucas horas para a Fifa fechar a lista final de inscritos para a Copa-2002, e a CBF tinha que nomear um substituto em questão de minutos, de forma que desse tempo do atleta chegar a tempo na Coreia do Sul para encontrar a delegação.

O escolhido foi Ricardo Luís Pozzi Rodrigues, o Ricardinho, destaque do Corinthians comandado por Carlos Alberto Parreira.

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Ricardinho, foi, portanto, o último convocado entre todas as eleções que disputaram o Mundial de Coreia do Sul e Japão. E, curiosamente, ele foi também o último a ficar sabendo que havia sido chamado para integrar a delegação brasileira na competição de futebol mais importante do mundo...

Em uma longa entrevista ao ESPN.com.br, o hoje comentarista esportivo lembrou a história maluca de como soube que havia sido convocado por Scolari e também revelou histórias saborosas de sua viagem à Ásia - que quase não aconteceu pelo fato do meio-campista estar com o passaporte vencido (sim, é verdade!).

Ricardinho também relatou o que disse a Emerson ao encontrar o volante no aeroporto, enquanto o atleta cortado retornava para o Brasil.

"Era um momento difícil, mas eu precisava falar alguma coisa..."

Confira as melhores histórias de Ricardinho:

"Eu não tinha qualquer expectativa de ser convocado"

Quando houve a mudança no comando da seleção, que o Felipão assumiu, eu não fui convocado nenhuma vez por ele, desde quando ele tinha assumido a seleção. Então, falar que eu tinha uma expectativa grande (de ser convocado no lugar de Emerson) é mentira. Não, eu não tinha, apesar do meu momento do Corinthians ser ótimo, das conquistas, mas existiam, na minha geração, muitos grandes jogadores. A seleção brasileira, ela tinha uma competitividade de qualidade muito grande.

Sinceramente, eu não tinha muito essa expectativa no início, devido a esse histórico. Geralmente, na seleção brasileira você tem um histórico de convocações, como eu tinha com o Vanderlei (Luxemburgo) quando ele ainda era o treinador da seleção. Fui, muitas vezes, convocado por ele. Mas depois que o Felipão assumiu eu acabei não sendo mais convocado. Então você acaba que, pela competitividade, não criando uma grande expectativa.

Então, naquele momento, a minha expectativa era muito pequena, porque, como eu disse, eu não tinha sido convocado por ele. Terminei o meu treinamento no clube, no Corinthians, e aí nós fomos dispensados para passar uns dias em casa, porque ia ter um longo período entre o término do Paulista, da Copa do Brasil e do Rio-São Paulo naquele primeiro semestre para o início do Brasileiro.

Como tinha esse hiato, esse espaço de tempo, eu fui para a minha casa. Eu morava em São Paulo, lógico, pois jogava pelo Corinthians, mas eu tinha minha casa em Curitiba, então eu fui passar uns dias, descansar uns dias, na minha casa.

"Quando fui convocado, eu estava na missa. Fui o último a saber!"

Eu estava em casa, curtindo a família, descansando, porque a gente vinha de um primeiro semestre muito duro em 2002. Muitas competições, jogos decisivos, conquistas, isso que foi importante, porque, no final, valeu a pena pelas conquistas do Rio-São Paulo e da Copa do Brasil. Mas eu estava descansando, e, lógico, acompanhando as notícias da seleção. Lembro de ver na TV que o Brasil ia estrear na Copa do Mundo contra a Turquia, primeiro jogo, e eu acompanhando o noticiário por querer acompanhar e torcer pela seleção. E aí foi quando houve o problema do Emerson, a fatalidade da lesão dele num treinamento no qual ele acabou indo no gol e acabou se machucando.

Logo de cara, começaram especulações, se ia ser cortado, se não ia... Aí depois já começaram a falar em possíveis jogadores para substituir e, curiosamente, colocaram meu nome no meio. Foi tudo muito rápido, porque, quando eles começaram a especular os nomes, quem poderia ir e tal, colocaram meu nome. Até minha esposa, Juliana, a gente estava em casa, era um domingo de manhã e eu estava saindo para ir à missa, quando ela falou: "Ricardo, liga o seu celular que eles vão te convocar".

Eu dei risada e respondi: "Que nada, o Emerson vai se recuperar, pô! Ele merece jogar essa Copa". Ele era o capitão do time! Infelizmente, acabou sendo cortado...

Eu fui para a igreja, passei de carro e peguei meu sogro, depois peguei meu pai, eles foram comigo à missa, 10h no domingo. E o meu celular ficou em casa! Eu ainda brinquei com a minha esposa e falei: "Fica com meu celular, então, que se a CBF ligar para mim, você atende". E ela tinha razão, cara... Eles ligaram mesmo (risos)!

Quando ligaram, eu estava bem no meio da missa, ela não conseguia falar comigo porque eu não levei comunicação nenhuma. Eu até tinha aquele antigo rádio que a gente usava naquele tempo, mas ficou dentro do carro. Então... Eu só fui saber da minha convocação acho que depois de todo mundo (risos).

Aliás, acho que eu fui um dos últimos a saber, porque, quando eu saí da missa, cheguei no carro e o rádio tinha umas 30 chamadas! Apitava direto, eu fiquei até assustado. Afinal, nunca na minha vida, saindo da missa, eu imaginaria que o motivo seria esse.

E aí eu estava lá, todo preocupado, peguei o rádio e chamei minha esposa de novo. Ela atendeu, só deu um gritou e disse: "Eu falei pra você, eu falei! Você não acreditou em mim! Volta já pra casa!". E aí eu fui para a minha casa.

Voltei rápido até, só que, para você ter uma ideia de como eu demorei para ter essa notícia, quando eu cheguei em casa, no meu condomínio, já tinha imprensa na porta! A imprensa de Curitiba estava toda lá. Então, veja só o quanto demorou para chegar essa informação para mim.

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"Quase não fui para a Copa porque meu passaporte estava vencido"

Foi tudo muito rápido! Eu viajei naquele domingo mesmo, à noite. E existe uma curiosidade, que eu acho que algumas pessoas sabem, outras não, mas o meu passaporte vencia naquele dia!

Meu passaporte estava em São Paulo, na minha casa, eu não estava com ele em Curitiba, porque eu estava de folga, então deixei o passaporte em São Paulo. Aí peguei um voo depois do almoço, fui para a minha casa, para arrumar a mala, pois embarcava naquele dia, à noite mesmo, mesmo com o passaporte vencido.

Para você ter uma ideia da loucura que foi, eu renovei meu passaporte no Japão, no Consulado brasileiro no Japão, antes de ir para Ulsan, na Coreia do Sul.

Eu tive que ficar no Japão mais algumas horas para resolver tudo. O cônsul brasileiro no Japão me pegou dentro do avião, porque eu não podia sair. Eu estava com o passaporte vencido, como é que eu ia entrar em algum lugar? Não dava.

Ele me pegou pela mão, me levou lá numa sala, saímos, fui no consulado, renovei o passaporte, voltei, dei entrada no Japão para poder ir para a Coreia... Tudo muito rápido!

Foi uma loucura: eu saí do Brasil num domingo e cheguei encontrar a seleção na terça-feira.

"Era difícil, mas eu precisava falar alguma coisa para o Emerson"

Foi uma loucura. Num domingo eu estava na minha casa, em Curitiba, na expectativa da abertura da Copa, de assistir ao jogo da seleção brasileira, que seria na segunda-feira, e no outro sábado eu já, no segundo tempo, entrei no jogo contra a China pela seleção brasileira. Foram seis dias. Foram seis dias, que você está na sua casa, descansando e, seis dias, depois você está na Copa do Mundo defendendo seu país!

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Daqui a vários anos, o pessoal vai dizer que é mentira isso, que não foi verdade. Mas, como vimos, situações como essas podem acontecer. Aconteceu comigo e é bom que está tudo registrado para ninguém poder duvidar (risos).

Foi muito legal. É um momento especial. Eu vivi vários momentos especiais, e esse foi um deles. A única parte negativa, inevitavelmente, foi o encontro com o Emerson, né? Porque enquanto um tem a felicidade da convocação, o outro tem a tristeza de um corte, de uma lesão, e isso foi muito... Para mim, foi muito difícil, e, para o Emerson, não tenho dúvida nenhuma que foi muito pior. Mas era um fato, né... Então a gente tinha que viver de acordo com aquele fato.

Quando nos encontramos, não tinha muito o que falar... A gente deu um abraço forte. Inclusive, o Emerson foi um dos primeiros que eu encontrei, porque, quando eu cheguei ao hotel da seleção, a equipe já tinha saído para ir treinar, então eu encontrei alguns membros da comissão técnica lá, da logística e tal, pessoal da CBF. E aí encontrei Emerson porque ele ficou no hotel, não foi para o treino. Já estava até com uma tipoia, e aí nós conversamos rapidamente.

Eu lamentei: "Olha, infelizmente...", e aí ele já me interrompeu e falou: "Ah, foi uma fatalidade, faz parte... O importante é que você tá aqui, você vai contribuir muito, vai ser importante". É até difícil, naquele momento você dizer alguma coisa, mas eu precisava falar alguma coisa para ele.

E aí logo eu já fui para o treino também, só deu tempo de eu me trocar no hotel, porque eu não queria ficar ocioso, já que o fuso horário era muito grande. 12 horas de fuso, eu tinha que, rapidamente, tentar entrar no fuso do Japão, da Coreia, enfim, para poder treinar, para poder jogar, a alimentação, também muda muito. E eu tinha poucos dias para isso, então eu procurei forçar ao máximo, segurar o sono, mas não foi fácil.

"Com todo respeito aos outros, mas o jogo mais difícil foi o contra a Bélgica"

"Contra a Bélgica foi o jogo mais difícil da Copa. Com todo respeito à semifinal... Com todo respeito à Inglaterra, à Turquia e principalmente à decisão contra a Alemanha, mas o jogo da Bélgica... Não que as outras partidas não foram difíceis, cada uma teve a sua história, mas a da Bélgica foi a seleção que mais encrencou...

Foi o jogo mais duro da Copa, pelo menos no meu entendimento. Foi duro, mas eu sabia que a gente não ia perder. A gente não ia perder [enfático]!

Tem momentos que, ah, pode acontecer, pode, mas é a certeza de que vai ganhar. Jogo duro. Jogo duro, os caras fizeram um gol anulado antes do nosso, tinham bons jogadores, mas, meu, não ia ganhar. Não ia ganhar da gente!

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"O pessoal vai começar a perder a pele!"

Uma história bem engraçada da Copa aconteceu depois de um jogo em que o Felipão foi bater um papo com a gente e nós estávamos todos dentro de um ofurô, pois lá no Japão tinha muito. A água estava uns 35ºC, mais ou menos, e a gente estava até o joelho com a água quente, de pé.

Aí o Felipão entrou também na água e começou a falar, e falou do jogo, e isso e aquilo, estavam todos os jogadores. Só que chegou um momento que, cara, 35º C, quase 40ºC ali, aquela água morna vai aquecendo, e os caras já estavam perdendo peso ali, a pele já estava queimando (risos).

Até que chegou uma hora e alguém brincou: "Felipão, você pode até continuar falando, mas dá pra gente fazer em outro lugar aqui, porque senão os caras vão começar a perder a pele aqui, a água está queimando". Ele só riu e falou, "Pô, nem percebi" (risos).

Lá tinha muita aposta entre os jogadores. Aposta no bom sentido. Enquanto a gente assistia aos jogos, por exemplo, apostava em quem vai ganhar, quem vai ter o primeiro escanteio, quem vai fazer o primeiro gol, com quantos minutos vai ter e tal. Isso aí era coisa do Juninho, do Vampeta. Eles gostavam muito de uma aposta. O Edílson "Capetinha" também gostava de uma apostinha nesse sentido, no sentido da brincadeira. Mas a gente tinha um ótimo convívio, cara, era assim, o ambiente fez o resultado.

"Podem voltar que ainda falta a última música"

Eu ficava lá na turma do fundo do ônibus. Com muita alegria, tinha sempre o pessoal que puxava as músicas, tinha os instrumentos e tal. Inclusive, antes da final contra a Alemanha, aconteceu algo muito emblemático.

A gente tinha um repertório, foi criado um repertório de músicas que a gente começava a tocar na concentração e terminava quando o ônibus chegava. Só que, quando a gente chegou ao estádio e estava para descer do ônibus, começou a descer e tal, aí alguém gritou: "Ó, mas falta uma música ainda. Faltou uma música, faltou".

Na hora todo mundo parou e ficou mudo. Aí alguém soltou: "Não, não, não! Então voltem pro ônibus!" (risos).

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O pessoal que já estava em pé voltou, sentou todo mundo, tocou a última música, cantou a última música. "Pronto! Agora nós vamos para o jogo".