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20 anos do Penta: Ronaldo fala de Felipão e Rivaldo, revela por que fez 'Cascão' e lembra drama: 'Condenar a parar de jogar era pior que morrer'

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20 anos de Brasil x Turquia: Ronaldo explica corte 'cascão' que surpreendeu o mundo na Copa de 2002; VEJA (1:18)

No Resenha ESPN, Fenômeno lembra quando decidiu mudar o visual na campanha do Penta (1:18)

Ronaldo "Fenômeno" concedeu entrevista exclusiva à ESPN e falou sobre os 20 anos da conquista do Penta na Copa do Mundo 2002


Nesta semana, completam-se 20 anos da conquista do Pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002. Há duas décadas, o Brasil venceu a Alemanha por 2 a 0, no Estádio Internacional de Yokohama, com dois gols de Ronaldo "Fenômeno", e finalmente colocou a 5ª estrela acima de seu escudo.

Para celebrar a data, o eterno camisa 9 da seleção concedeu entrevista exclusiva ao podcast "PodCopa", da ESPN e do ESPN.com.br, e relembrou os detalhes mais marcantes do triunfo no Mundial - título que o próprio R9 define como o maior e mais importante da sua carreira.

"Nada na minha carreira vai se comparar àquilo", definiu o hoje empresário e dono do Cruzeiro e do Valladolid, durante evento do Betfair, site de apostas do qual é embaixador.

Na conversa gravada na última segunda-feira (27), em São Paulo, e que vai ao ar na íntegra nesta quinta-feira (30), no Spotify, Ronaldo falou sobre a suposta "rivalidade" que havia entre ele e Rivaldo, seu principal companheiro de ataque na Copa (e para quem muitos "acusavam" R9 de não tocar a bola), contou os motivos de ter feito o famoso corte de cabelo "Cascão" na reta final do torneio e lembrou as duas previsões que teve que ouvir de médicos e especialistas sobre seus joelhos.

"A lesão, o julgamento de médicos que nunca me examinaram, condenando a minha carreira, dizendo que eu não voltaria a jogar e muito provavelmente eu não voltaria a correr... Ouvi muita coisa absurda nesse trajeto [...], e me condenarem a parar de jogar, a parar de fazer aquilo que eu mais gostava, era pior do que morrer", rememorou.

O "Fenômeno" ainda elogiou o trabalho do técnico Luiz Felipe Scolari, a quem descreveu como "um gênio" na formação da "família Scolari" durante o Mundial, além de admitir que, antes da final contra a Alemanha, sofreu com a ansiedade e o medo de ter uma nova convulsão, como ocorreu antes do duelo contra a França, em 1998.

"O Dida foi o cara que ficou ali do meu lado o tempo todo, evitando que eu pudesse dormir. Foi um grande amigo e eu o agradeço até hoje!".

Confira alguns dos trechos da entrevista de Ronaldo sobre o Penta:

"O Felipão é um gênio"

"A 'família Scolari' é formada ainda antes da Copa, com a dificuldade que nós tivemos nas eliminatórias. O Felipão era um paizão para todos, além de um cara extremamente experiente, inteligente e, principalmente, que banca o seu grupo.

O Felipão fazia constantemente as resenhas entre a gente para fortalecer essa união, porque, logicamente, talento a seleção brasileira sempre vai ter, mas botar na cabeça que todos os jogadores são importantes e que cada um deles... E tirar o máximo rendimento de cada um em prol do grupo, esse é o grande desafio do treinador. Então todas as resenhas que o Felipão fazia era realmente para motivar cada um de nós a dar o máximo e que, fora dali, a gente estaria protegido através dele e das suas falas.

Para mim, o Felipão ele é genial. Ele é genial em vários aspectos, não só tecnicamente, taticamente, estrategicamente, mas o lado humano dele também é muito especial, porque eu costumo dizer que o treinador não é só a tática, a estratégia, treinos, enfim, ele tem que saber gerir um grupo de pessoas, ele tem que entender a individualidade de cada um e tirar o máximo proveito de cada um para o grupo. E o Felipão foi perfeito, foi perfeito.

Houve vários episódios em que o Felipão se desgastava com a imprensa nos protegendo. E quando você é jovem você está ali, você está seguindo seu comandante, às vezes você não está nem entendendo o que tá realmente acontecendo, mas depois você olha friamente e você passa a entender tanta coisa. A vida vai te ensinando e, olha para trás, a gestão do Felipão dentro de campo e fora do campo foi impecável.

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"Eu e Rivaldo passamos a maior parte da Copa na maca"

Essa coisa de que havia rivalidade entre eu e o Rivaldo era muito mais para fora, para mim, que era mais torcedor do que a gente mesmo. A nossa relação era muito tranquila, era muito amigável. Cada um com sua característica de jogo, logicamente, e a gente sempre foi muito fiel às nossas características. E durante a Copa a gente se entrosou muito bem.

O Rivaldo também chegou para o Mundial com muitos problemas musculares, problema no joelho também. Eu lembro que a gente passou grande parte da Copa na maca, fazendo tratamento, eu e Rivaldo quase sempre juntos ali.

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Acho que foi muito mais para fora do que realmente no nosso ambiente ali. Tínhamos que ter um cuidado excessivo com nossas lesões, o preventivo, fortalecimento, tudo isso a gente respeitava muito. Para fora, sempre a desconfiança aumenta, as dúvidas, mas para a gente ali foi maravilhoso.

O Rivaldo é um companheiro incrível, super dedicado, um profissional de primeira, e jogou muita bola também, jogou muito!

"Fiz o corte 'Cascão' para que não falassem da minha lesão"

Faltavam dois dias antes da semifinal contra a Turquia e eu estava cortando meu cabelo como de costume, seguindo meu ritual. Aí deixei o "Cascãozinho" e saí no corredor para zoar com os meninos. E aí todo mundo zoando, rindo e tal, e me desafiaram a ir para o treino com isso. Eu falei "Ah, quer saber, eu vou, vai que isso chama a atenção"...

E funcionou! Chamou muita atenção (risos). Eu estava com um problema no adutor direito e estava me incomodando muito, e aquilo com certeza ia me condicionar no jogo, de repente, para chutar uma bola de chapa, do interior do pé. Ficava mais difícil porque afetava diretamente o adutor e enfim, o assunto virou o cabelo, o corte do cabelo, e aquilo deu uma certa tranquilidade. E a gente pôde recuperar um pouquinho, mas eu fui para o jogo bem condicionado, com essa dor no adutor.

Até hoje eu falo com mães de torcedores que fizeram esse corte e ficam me cobrando, perguntando por que eu fiz aquilo, porque influenciou o filho a fazer também (risos). Quantas vezes eu pedi desculpas públicas às mães por ter incentivado esse tipo de corte de cabelo (risos)...

Aquilo foi uma distração, digamos assim, e funcionou. E funcionou porque eu fiz o gol também, porque, se não tivesse feito o gol contra a Turquia, se tivesse perdido, aquilo poderia, logicamente, ir contra mim ir, contra a seleção inteira...

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"O Dida não me deixou dormir, agradeço até hoje!"

Antes da final de 2002, eu procurei evitar o "ritual" que eu tinha feito em 1998.

Depois do almoço, a galera foi se dispersando e eu fui ficando sozinho, quando eu vi estava sozinho já... Aí fui nos corredores, ver quem estava com a porta aberta. Por sorte encontrei o Dida, que também estava sem sono e fiquei na resenha com ele, procurando o que fazer com ele.

Eu estava preocupado realmente em não dormir. Não estava preocupado exatamente com o jogo. Eu estava evitando mesmo era dormir, para não dar a chance de, sei lá, ter outra convulsão!

E aí o tempo foi passando até chegar a hora de ir pro jogo. Felizmente eu não dormi (risos).

O Dida foi o cara que ficou ali do meu lado o tempo todo, evitando que eu pudesse dormir. Foi um grande amigo e eu o agradeço até hoje!

"Nada supera fazer dois gols numa final de Copa"

Nada na minha carreira vai se comparar a fazer dois gols numa final de Copa.

E não só pela Copa do Mundo em si, ou pela final, mas eu faço um compilado dos últimos dois anos antes do Mundial. Penso na lesão, no julgamento de médicos que nunca me examinaram, condenando a minha carreira, dizendo que eu não voltaria a jogar e muito provavelmente eu não voltaria a correr, dizendo que, com sorte, eu teria uma vida tranquila somente caminhando...

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Eu ouvi muita coisa absurda nesse trajeto todo depois da lesão até chegar aos dois gols.

Então, aquela final juntou tanta coisa, as emoções foram tantas por causa daqueles dois gols da final e o trajeto, os obstáculos, eu acho que na minha carreira nada vai ser maior do que esse momento de superação.

"Eles me condenarem a parar de jogar era pior que morrer"

O Penta marcou muito a minha vida para sempre, porque eu sempre fui louco por futebol, mas os médicos me condenarem a parar de jogar, a parar de fazer aquilo que eu mais gostava, aquilo era pior do que morrer, talvez...

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Essa lesão, não só esportivamente, mas na minha vida, ela me fez evoluir muito, melhorar muito, como pai, como filho, como amigo, como irmão, como cidadão no geral.

Acho que aquilo veio realmente para me trazer muitos ensinamentos e ter superado todos esses obstáculos logicamente me fez ser um cara resiliente. Mas eu acho que tudo isso veio porque eu sou extremamente apaixonado pelo futebol e o futebol é a minha vida.

E eu acho que eu faria tudo de novo, sem pensar duas vezes.