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Dia Internacional de 'Sair do Armário'! Brasileiro e mais 16 atletas LGBTQIA+ pelo mundo contam como foi se assumir

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Mês do Orgulho LGBTQIA+ - Douglas Souza, do vôlei e campeão olímpico: 'Eu nunca fiquei dentro do armário, nunca escondi de ninguém' (0:34)

Ponteiro do Vôlei Taubaté e da seleção brasileira deu entrevista exclusiva à ESPN Brasil; SportsCenter terá série especial nos dias 28, 29 e 30 de junho (0:34)

Douglas Souza, campeão olímpico com a seleção brasileira de vôlei na Rio-2016, e outros atletas da ativa ou já aposentados pelo mundo falaram com exclusividade à ESPN sobre este momento que a data marca e que, para vários, foi determinante - para alguns, um verdadeiro alívio, enfim, a liberdade.


A expressão “sair do armário” representa uma experiência quase universal para os membros da comunidade LGBTQIA+, sendo, muitas vezes, um momento decisivo. A ESPN conversou com o brasileiro Douglas Souza, do vôlei, e outros 16 atletas LGBT pelo mundo para saber como foi quando se assumiram. E o resultado você vê agora, neste 11 de outubro, Dia Internacional de Sair do Armário (International Coming Out Day, em inglês) que começou a ser celebrado nos Estados Unidos em 1988 e, desde então, passou a ser lembrado também em outros países.

Os depoimentos, fortes, são de esportistas de várias modalidades e cinco continentes, de África, Américas do Norte e do Sul, Ásia, Europa e Oceania.

Individualmente, cada um contou detalhes de suas buscas por identidade, o momento em que assumiram suas sexualidades publicamente (e/ou para seus familiares) e como suas vidas se transformaram - ou não - depois disto.

- Os vídeos, no topo e ao longo da reportagem, são das entrevistas exclusivas feitas pelo ESPN.com.br com atletas brasileiros para o material especial publicado em junho último, o Mês do Orgulho LGBTQIA+.

- Clique aqui e leia a entrevista com Douglas Souza na íntegra

Abaixo, estão algumas respostas de alguns deles às perguntas (foram as mesmas feitas a todos):

Como foi para você o processo de “sair do armário para si mesmo”?

Collin Martin (EUA), jogador de futebol: "Desde o primário, eu já sabia que gostava de garotos. Quando você repreende isso demais, não fica claro como você vai lidar com isso na sua vida. Então, durante o fundamental e o ensino médio, meu jeito de lidar com a sexualidade era tipo 'como vou fazer isso dar certo?' ou meio 'como eu vou conseguir casar com uma mulher e ter filhos, sem deixar isso fazer parte da minha realidade?'

Eu não estava lutando contra isso só entre meus companheiros de equipe, mas eu também ia à igreja regularmente, refletindo sobre o quão ruins eram meus pecados diários só por ser eu mesmo. Há múltiplas camadas. Eu tive a sorte de ter uma família que me apoiava, mas eles não sabiam que eu era gay. Foi só quando eu saí da [Universidade] Wake Forest que eu comecei a aceitar minha sexualidade."

Ian Roberts (Inglaterra), lenda do rugby: "Eu sempre soube que [ser gay] não era algo aceito pela maioria da sociedade, então, eu mantive isso em segredo. Eu me assumi pros meus pais com vinte e poucos anos. Eu não tive um bom relacionamento com minha família por uns cinco ou seis anos depois de me assumir, mas meus pais foram aceitando aos poucos. Quando meu pai faleceu [sete anos atrás], ele já acolhia totalmente a comunidade LGBTQIA+.

Eu nunca vou esquecer. Meu pai estava lendo um artigo, e eu sentei à mesa com meu companheiro e minha mãe. Estávamos conversando sobre igualdade matrimonial [na Austrália], ele abaixou o jornal e se virou pra nós dizendo 'por que você não deveria ter permissão para se casar com quem você ama?', pegou o jornal e voltou a ler de novo. Foi um longo caminho que meu pai percorreu para chegar nesse ponto."

Você teve algum motivo específico para ter escolhido se assumir publicamente na mídia, ao invés de manter sua vida privada fora dos holofotes?

Brittney Griner (EUA), jogadora de basquete e estrela da WNBA: "Esse sentimento de não ser honesto consigo mesmo, olhar no espelho e não gostar do que você vê é um sentimento terrível. Eu não queria que ninguém se sentisse dessa forma. Eu nunca tive ninguém assim… grande... para me espelhar. Então eu quis ser essa pessoa inspiradora.

Todos que chegam até mim e dizem 'você me ajudou, você me inspira' me fazem pensar que isso vai além do basquete, de verdade. Vale mais que uma medalha de ouro ou qualquer prêmio. Saber que você ajudou alguém a não se sentir pra baixo ou ter pensamentos ruins porque eu estava lá por ele."

Dutee Chand (Índia), velocista olímpica: "Um ano antes disso se tornar público, eu me abri com minha mãe e minha irmã mais velha sobre meu amor por uma garota e meu desejo de me casar com ela. Quando a minha relação com a minha irmã começou a ficar tensa, ela ameaçou contar [detalhes] à mídia sobre meu relacionamento homossexual e, na hora da raiva, ela foi lá e fez isso mesmo. Saíram várias notícias sobre mim na mídia local e aos poucos isso foi virando notícia no país todo, então, eu decidi que falaria por mim mesma."

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Sua carreira e as suas oportunidades foram impactadas quando você se assumiu?

Phuti Lekoloane (África do Sul), jogador de futebol: "Sim, isso teve um impacto negativo na minha carreira no futebol. Muitos clubes fecharam as portas na minha cara por causa da minha sexualidade. Isso me atingiu de um jeito muito forte e me deixou muito mal. A pergunta era 'como nós vamos te acomodar, porque não sentimos que nossos jogadores vão ficar confortáveis em dividir o quarto e o chuveiro e treinar com você?'

Em outra época, o dono do meu time me disse que minha sexualidade batia de frente com as crenças da equipe, então, não ia pegar bem para eles ter um jogador gay ali."

Sebastián Vega (Argentina), jogador de basquete: "Eu vivi uma mudança drástica, não do ponto de vista técnico, mas com a minha confiança na quadra. Eu gostava muito de tudo o que estava acontecendo comigo, o que não acontecia antes porque sempre tive bloqueios, um monte de coisa na minha cabeça, fantasmas que não me permitiam aproveitar o momento. Vários repórteres, colegas de equipe e conhecidos me falaram 'Seba, você está diferente, você parece muito feliz e está muito bem em quadra'".

Como seu esporte mudou em relação à comunidade LGBTQIA+ durante a sua carreira?

Douglas Souza (Brasil), jogador de vôlei e campeão olímpico: A comunidade LGBTQ+ sempre foi bem ativa, principalmente com relação ao vôlei feminino [no Brasil]. Todo mundo sempre torce para a seleção, para os campeonatos de clubes... Eu acho que o que mudou é que com o crescimento das redes sociais, agora tem milhares de grupos falando sobre os jogadores. Agora, nós temos mais voz, mais espaço para falar. Não cresceu de uma forma ruim, acho que é bem positivo."

Qual foi a parte mais recompensadora, talvez inesperada, de se assumir?

Michelle Heyman (Austrália), jogadora de futebol: "Foi quando recebi uma carta de uma jovem em um jogo do Canberra United que estava tentando se assumir para os pais e queria alguns conselhos. Ela me perguntava coisas do tipo 'como você se assumiu? Você acha que minha mãe e meu pai vão me odiar? Você acha que eles ainda vão me amar?'.

Então, no próximo jogo em casa, a mãe dela veio falar comigo e contou a história de como [a filha] dela tinha se assumido, e elas estavam muito gratas por ter tido [a minha] ajuda. Foi muito tocante, um momento lindo de se dividir com uma fã e seus pais."

Qual seria o seu conselho para pessoas que estão tendo dificuldades com as suas identidades?

Adam Rippon (EUA), ex-patinador artístico: "Ninguém se importa. Eu sei que parece loucura, mas ninguém realmente se importa tanto. Isso não é pra fazer você ficar triste. É para você se sentir livre, porque a única pessoa que se importa por como você se sente e a maneira com que você interage com o mundo é você, então foque no que você gosta e não em agradar as outras pessoas.

Apenas se pergunte coisas bem simples: do que eu gosto? Eu gosto disso? Quero vestir isso? Quero falar com essa pessoa? Sinto atração por essa pessoa? Faça as perguntas mais importantes e não transforme isso em algo mais complicado do que já é."

Quando você pensava em se assumir, quais foram os piores e melhores cenários que você imaginava? Algum deles chegou a acontecer?

Lekoloane: "Eu temia pela minha vida por causa dos assassinatos à população LGBTQIA+ no país. É algo diário. Eu ainda tenho medo de sair. Você nunca sabe quando eles vêm atrás de você. Isso é a única coisa que me dá medo."

Roberts: "Eu tenho um amigo, eu o conheço desde a adolescência, ele tem a minha idade e nós crescemos nos anos 1980 e 1990 saindo juntos. Ele se assumiu para a família com vinte e poucos anos e, depois disso, eles nunca mais conversaram com ele. Eu encontrei com ele uns três ou quatro meses atrás e… Isso me deixou bem mal, tipo, 'misericórdia, isso ainda acontece, você tem a minha idade, você tem 55 e seus pais ainda não conversam com você.'"

Você se sente pressionado a ser um exemplo ou embaixador para a comunidade LGBTQIA+? Isso é algo que hoje você aceita?

Lola Gallardo (Espanha), jogadora de futebol: "Eu me sinto bem confortável porque nunca deixei de ser eu mesma. Quando você não está atuando ou não está forçando nada, isso acontece naturalmente. Eu nunca senti esse tipo de pressão, mas eu gosto de verdade de ser uma pessoa em que os outros possam se espelhar e fazer suas vidas mais fáceis. Eu tenho muito orgulho da minha história de vida, e eu gostaria que todo mundo também tivesse."

Rippon: "Eu nunca senti pressão para ser uma pessoa exemplar porque não acho que eu seja, mas se eu puder fazer algo para empoderar as pessoas, isso é ótimo. Eu acho que o motivo pelo qual eu cheguei até aqui é só porque eu aprendi a focar em coisas que realmente sejam autênticas para mim.

Eu tentaria empoderar as pessoas desse jeito. Eu espero que isso as inspire, mas eu realmente não sei se me vejo como um exemplo a ser seguido."

Os 17 entrevistados

África
1 - Phuti Lekoloane, futebol, África do Sul

Ásia
2 - Dutee Chand, atletismo, Índia

Oceania
3 - Michelle Heyman, futebol, Austrália

4 - Ian Roberts, rugby, Austrália

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Ponteiro do Vôlei Taubaté e da seleção brasileira deu entrevista exclusiva à ESPN Brasil; SportsCenter terá série especial nos dias 28, 29 e 30 de junho

Europa
5 - Charlie Martin, automobilismo, Reino Unido

6 - Katie-George Dunlevy, paraciclismo, Irlanda

7 - Merel van Dongen, futebol, Holanda

8 - Ramsey Angela, atletismo, Holanda

9 - Lola Gallardo, futebol, Espanha

América do Norte

10 - Greg Louganis, saltos ornamentais, EUA

11 - Adam Rippon, patinação, EUA

12 - Alana Smith, patinação, EUA

13 - Collin Martin, futebol, EUA

14 - Brittney Griner, basquete, EUA

15 - Luke Prokop, hóquei sobre o gelo, Canadá

América do Sul

16 - Douglas Souza, vôlei, Brasil

17 - Sebastián Vega, basquete, Argentina

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André Machado deu entrevista exclusiva à ESPN Brasil; SportsCenter terá série especial nos dias 28, 29 e 30 de junho

* Reportagem: Alex Kirkland, Bethan Clargo, Emily Kaplan, Jean Santos, Josh Weinfuss, Kathleen McNamee, Kyle Bonagura, Leonard Solms, Lindsay du Plessis, Lucie Bertoldo, Lucas Benício, Niamh Lewis, Pablo Cormick, Sjors Grol e Susan Ninan.