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Douglas Souza, no Dia Internacional de 'Sair do Armário', diz: 'Tem que parar com isso, héteros não se assumem'

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Mês do Orgulho LGBTQIA+ - Douglas Souza, do vôlei e campeão olímpico: 'Eu nunca fiquei dentro do armário, nunca escondi de ninguém' (0:34)

Ponteiro do Vôlei Taubaté e da seleção brasileira deu entrevista exclusiva à ESPN Brasil; SportsCenter terá série especial nos dias 28, 29 e 30 de junho (0:34)

Campeão olímpico em 2016, no Rio, detalhou por que sua 'saída do armário' foi tão tranquila, deu dica para quem está em dúvida sobre o assunto e fez importante alerta sobre o tema.


Douglas Souza, campeão olímpico com a seleção brasileira de vôlei na Rio-2016, foi o atleta brasileiro convidado para participar de uma iniciativa mundial da ESPN: abrir o coração e contar tudo sobre como foi o seu processo de assumir publicamente sua orientação sexual, depoimento para fazer parte de um material especial a ser publicado neste 11 de outubro, o Dia Internacional de 'Sair do Armário'.

O jogador topou na hora. E da Itália, para onde foi há pouco tempo defender o Vibo Valentia, respondeu às mesmas perguntas que foram feitas a ele e aos demais 16 atletas de outras partes do mundo, da ativa ou já aposentados.

Douglas reforçou o que dissera à ESPN Brasil em junho deste ano, em uma entrevista para uma série de reportagens para o Mês do Orgulho LGBTQIA+, que diferentemente da maioria, ele não teve dificuldades em se assumir publicamente, foi, como ele diz, algo natural.

- Os vídeos, no topo e mais abaixo, nesta reportagem são da entrevista de Douglas Souza concedida ao ESPN.com.br em junho.

"Foi muito tranquilo porque acho que desde sempre eu já sabia que eu era gay, então quando eu tinha uns 10, 11 anos de idade, você está na pré-adolescência e começa a ter interesse por outras pessoas, foi quando eu reparei que o homem me atraia mais do que a mulher", afirmou.

Mas Douglas entende que sua situação foi ímpar e falou qual momento acredita ser o mais complicado para alguém assumir uma orientação sexual.

"Eu acho que o pior cenário é aquele onde a pessoa é menor de idade e ser totalmente dependente dos pais. Sempre existe a possibilidade dos pais não darem apoio, suporte, e você achar que está sozinho."

Douglas ainda falou sobre se sente alguma pressão, qual a parte mais compensadora de todos saberem sua orientação sexual e arriscou dar um caminho àqueles que ainda estão em dúvida sobre 'sair do armário'.

E fez um alerta importante, quase uma reflexão: "Heterossexuais não se assumem. Precisamos também parar com essa ideia de que gays devem se assumir."

Veja, abaixo, a entrevista completa com Douglas Souza:

Como foi para você o processo de “sair do armário para si mesmo”?

"Meu processo em assumir minha sexualidade foi muito tranquilo porque acho que desde sempre eu já sabia que eu era gay, então quando eu tinha uns 10, 11 anos de idade, você está na pré-adolescência e começa a ter interesse por outras pessoas, foi quando eu reparei que o homem me atraia mais do que a mulher.

Pra mim, foi tudo tranquilo porque, na época, eu estava focado em jogar vôlei. Eu queria aprender, estava me divertindo com meus amigos, então, não pensava muito nesse tipo de coisa, na minha cabeça não estava na idade para isso, então, eu não dei tanta importância para isso, sendo bem sincero. Foi um processo bem natural, como eu acho que deve ser."

Você teve algum motivo específico para ter escolhido se assumir publicamente na mídia, ao invés de manter sua vida privada fora dos holofotes?

"Eu não tive um motivo específico para expor esse meu lado para a mídia, como eu disse, foi um processo muito natural para mim. Com 17 anos, joguei pela primeira vez em uma liga adulta de vôlei e as pessoas já sabiam disso. Desde as categorias de base, as diretorias dos clubes que eu passei, meus colegas de equipe, tudo foi muito transparente, nunca me escondi. Então não teve um motivo. Nunca me escondi em redes sociais ou algo do tipo."

Sua carreira e as suas oportunidades foram impactadas quando você se assumiu?

"Não acho que ter assumido [minha sexualidade] impactou minha carreira pois eu sempre tento 'vender' o Douglas profissional, não a sexualidade do Douglas, isso é algo muito privado. Lógico que hoje tudo é muito exposto por conta das redes sociais, mas tento sempre ser o mais profissional possível. Acho que a sua sexualidade, independentemente de qual seja, não vai influenciar no seu ambiente de trabalho, ou pelo menos é assim que deveria ser."

Como seu esporte mudou em relação à comunidade LGBTQIA+ durante a sua carreira?

"Falando especificamente do vôlei, a comunidade LGBTQIA+ sempre foi muito ativa, principalmente no vôlei feminino. Todo mundo está sempre torcendo para a seleção, nos campeonatos de clube. O 'G', o gay, está sempre ligado nisso.

O que mudou de quando eu comecei a jogar lá em 2003, creio eu, é que, com o crescimento das redes sociais, não era como hoje, que existem milhares de grupos de discussões sobre os jogadores. Acho que as pessoas estão mais engajadas, mas a comunidade LGBT sempre foi muito ativa em relação ao vôlei. Chutaria que eram 90% do público, era bastante gente. Acho que agora temos mais voz, mais grupos. Não cresceu de uma forma ruim, acho que é bem positivo."

Qual foi a parte mais recompensadora, talvez inesperada, de se assumir?

"A parte mais gratificante, sem dúvidas, é todo o apoio que recebo pelas redes sociais. Tudo que aconteceu durante minha carreira, principalmente depois das Olimpíadas de Tóquio, onde recebi muita visibilidade. Não esperava por isso.

Hoje, recebo mensagens diariamente de muitas pessoas dizendo que se identificam, que ainda têm medo de assumir para o mundo, que têm dificuldade com os pais, amigos que têm medo - o que é totalmente compreensível no nosso país. E no mundo, que infelizmente é muito cruel. Estamos tentando mudar isso aos poucos e estamos conseguindo."

Qual seria o seu conselho para pessoas que estão tendo dificuldades com as suas identidades?

"O meu maior conselho é 'take your time' [expressão em inglês que significa algo como 'faça/aja no seu tempo']! Não se apresse, não siga a onda de outras pessoas e não se pressione a fazer alguma coisa que você não queira. Quando você se sentir confortável com você mesmo, quando você tiver certeza e feliz consigo mesmo, tudo vai ficar mais fácil.

Aí, você se assume para quem você achar que tem que se assumir. Ou se achar que você não tem que se assumir, tudo bem também. Heterossexuais não se assumem. Precisamos também parar com essa ideia de que gays devem se assumir.

Eu acho que a gente tem que viver com amor, amar quem estiver próximo da gente. Ache sua comunidade, pois ela é grande e se apoia muito. Quando você estiver pronto e se sentir bem com isso, você não estará sozinho."

Quando você pensava em se assumir, quais foram os piores e melhores cenários que você imaginava? Algum deles chegou a acontecer?

"Eu acho que o pior cenário é aquele onde a pessoa é menor de idade e ser totalmente dependente dos pais. Sempre existe a possibilidade dos pais não darem apoio, suporte, e você achar que está sozinho. Com certeza, esse é o pior cenário. E é o que acontece com muitos jovens hoje.

Hoje em dia temos informação muito mais fácil do que antes e acho que os pais estão mais tranquilos e conscientes sobre como educar os filhos para quando chegar nesse momento onde a criança começa a entender a sexualidade dela, e isso não se tornar um fardo muito grande pra ela.

O melhor cenário acredito que foi o meu, onde assumi minha sexualidade e meus pais entenderam muito bem e me deram apoio e carinho independentemente de tudo. Mas eu também saí de casa muito cedo, aos 14 anos, para tentar viver do meu sonho de jogar vôlei, e só aos 18 anos, quando já tinha minha independência financeira dos meus pais, eu apresentei um namorado para eles. Nunca cheguei para eles e disse que sou gay, mas eles já sabiam pois nunca escondi nas minhas redes sociais. Foi muito natural."

Você se sente pressionado a ser um exemplo ou embaixador para a comunidade LGBTQIA+? Isso é algo que hoje você aceita?

"Sinceramente, nunca me senti pressionado para ser uma espécie de 'embaixador', foi algo muito natural. Ano passado, em 2020, as pessoas comentaram dizendo que eu 'representava muitas pessoas' ou se eu pretendia falar mais sobre isso e ajudar a minha comunidade. A minha resposta foi que quando eu tivesse mais voz, mais relevância, eu falaria muito mais sobre isso.

Eu sempre quis muito ajudar a comunidade LGBTQIA+, sempre falei isso. Então, pra mim, foi muito natural. Recebo muitas mensagens de carinho, de pessoas dizendo que se sentem representadas - e isso é o melhor -, mas nunca me senti pressionado a isso [ser um representante da comunidade gay].

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