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NFL: Colin Kaepernick virou ídolo dos 49ers da noite para o dia e símbolo do combate ao racismo

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Quase quatro anos depois, o nome de Colin Kaepernick é um dos mais relevantes nos noticiários norte-americanos mais uma vez. Em 2016, o então quarterback do San Francisco 49ers se postou como um ícone na luta contra o racismo e a brutalidade policial.

A morte de George Floyd reacendeu a mesma discussão, e muitos críticos da ação de Kaepernick repensaram suas ações - entre eles, a própria NFL. E no cenário atual, o retorno do jogador à liga nunca pareceu mais provável, mesmo depois de três temporadas completas sendo um agente livre. São vários os indícios disso.

O comissário da liga, Roger Goodell, afirmou que vai "encorajar" as equipes a contratarem o quarterback, e alguns treinadores estão de olho no negócio. Pete Carroll, do Seattle Seahawks, confirmou que pelo menos uma franquia estaria interessada em tirar o jogador da inatividade e, posteriormente, Anthony Lynn, do Los Angeles Chargers, reforçou que acha que todas as franquias deveriam pensar na possibilidade de chamá-lo para realizar testes.

Mas quem é essa pessoa, que foi muito além dos gramados para se tornar um ícone da história do esporte?

Antes da NFL

Colin não nasceu Kaepernick. Após perderem dois filhos muito cedo por problemas no coração, Rick e Teresa Kaepernick resolveram adotar o garoto, cuja mãe biológica deu à luz aos 19 anos, pouco antes do pai sumir. Os Kaepernick foram bem abertos ao filho sobre a adoção desde muito cedo, uma vez que ambos eram brancos e Colin negro, e o garoto sempre se sentiu confortável.

Colin sempre teve jeito para esportes. Praticou basquete, beisebol e futebol americano na escola. Em todos, se destacou a nível estadual. Mas sua paixão era, realmente, a bola oval. Na quarta série, escreveu uma carta sobre seu futuro, dizendo que gostaria de ser quarterback dos 49ers ou dos Packers (California e Wisconsin, onde já havia vivido).

Antes de atuar como quarterback, chegou a ser kicker e membro de linha defensiva na John H. Pitman High School, à qual levaria sua primeira vitória nos playoffs do torneio estadual. Mesmo atuando bem nos anos de colégio, só recebeu uma única bolsa de estudos para jogar futebol americano, muito em razão de sua mecânica ruim de lançamento e de seu físico, magro e alto, propício à lesões. Por outro lado, recebeu várias bolsas pelo beisebol, tendo se destacado como pitcher.

Ele agarrou a oportunidade de defender a Universidade de Nevada. A fim de melhorar sua condição física, Colin foi redshirt em 2006, apenas estudando e praticando. No seu ano de freshman, começou como safety, mas logo no quinto jogo, após lesão do QB titular, ocupou a posição de lançador, mandando 4 touchdowns e assegurando seu lugar até o fim de sua carreira universitária. Nesse primeiro ano, o time não foi tão bem, terminando a temporada em 6-7, mas o QB mostrou serviço, com 19 touchdowns lançados, 3 interceptações, 2175 jardas aéreas e rating de 150,8, além de, pelo chão, 593 jardas e 6 TDs.

Essa capacidade móvel só causou mais danos aos adversários nos anos seguintes. Como sophomore, Colin se tornou apenas o quinto jogador na história do esporte universitário a fechar a temporada com mais de 2000 jardas aéreas e mais de 1000 terrestres. Foram 22 TDs pelo ar e 17 pelo chão. O time foi melhor naquele ano, chegando ao Humanitarian Bowl, do qual Colin foi MVP, mesmo com a derrota.

Mais progresso nos seus dois últimos anos. Em 2010, como senior, Colin foi selecionado no Draft da MLB pelo Chicago Cubs, mas, como esperado, cumpriu sua última temporada com o Wolf Pack. E aquele foi seu ano mais incrível. Além de campanha 13-1 e vitória no Fight Huner Bowl, o jogador fez seu melhor ano individual, com 3022 jardas aéreas, 21 TDs, 8 Ints e rating de 150.5; e no jogo terrestre, 1206 jardas e 20 TDs.

Ao fim de sua carreira no Wolf Pack, Kaepernick entrou para a história como o primeiro QB a passar para mais de 10000 jardas e correr mais de 4000 na principal divisão do futebol americano universitário. Ele também empatou o recorde anterior de Eric Crouch, de quarterback com mais TDs, com 59. E é claro que muita gente da NFL estava 'babando' por vê-lo com suas cores.

Ascensão e temporada histórica

Uma dessas pessoas era Jim Harbaugh, então head coach dos Niners. Seu pai, Jack Harbaugh, revelou após muito tempo que Jim achava que Kaepernick era "o melhor jogador de todo o Draft de 2011".

Não à toa, a franquia californiana trocou sua escolha com o Denver Broncos para subir no Draft e selecionar o QB no começo da segunda rodada, com a 36ª escolha geral.

San Francisco ainda apostava em Alex Smith, primeira escolha geral de 2005, como titular, e assim continuou na primeira temporada de Kaep.

Sua verdadeira oportunidade surgiu na semana dez da temporada seguinte, 2012, quando Smith sofreu uma concussão contra os Rams e precisou deixar o gramado - este que havia liderado o time em uma boa campanha até então. Naquele jogo, o reserva entrou e saiu com um empate.

No seu primeiro jogo como titular, Kaep brilhou com 69,6% de aproveitamento nos passes, e os Niners atropelaram os Bears por 32 a 7. O impacto do jogador foi tão grande que, após se recuperar da concussão, Alex Smith continuou no banco, mesmo tendo feito uma ótima temporada.

Após título da NFC West e bom rendimento na temporada regular (tendo liderado a liga em jardas por tentativa, com 8,6), suas atuações só melhoraram nos playoffs.

Logo na primeira partida, o QB fez um de seus maiores jogos da carreira, em vitória por 45 a 31 sobre o Green Bay Packers, no round Divisional. Foram 263 jardas aéreas, com 2 TDs e 1 Int. Mas o que realmente machucou a franquia de Wisconsin foram suas pernas. Com 181, Kaep bateu Michael Vick pelo recorde de mais jardas terrestres em um jogo de pós-temporada - ainda anotou 2 TDs pelo chão.

No jogo seguinte, final da NFC, foi segurado pela defesa dos Falcons no jogo terrestre, mas o braço deu conta. 76,2% dos passes foram completados para 233 jardas, 1 touchdown e nenhuma interceptação, o que ajudou no rating de 127,7.

A vitória por 28 a 24 colocou Kaepernick em um clube bem reservado: o de QBs que foram ao Super Bowl logo na primeira temporada de titularidade (e olha que ele só assumiu essa posição na semana 10). Vince Ferragamo foi o primeiro a realizar a proeza, pelos Rams, no SB XIV. Kurt Warner, também pelos Rams, no SB XXXIV, e Tom Brady, pelos Patriots, no SB XXXVI, completam a lista.

Mas naquele SB XLVII, não deu para os Niners. Mesmo recolocando o time no jogo após um começo fraco e um déficit de 18 pontos no terceiro quarto, o QB ficou a uma pontuação da glória. Os Ravens seguraram a vantagem até o relógio estourar, com 31 a 29 no placar.

A derrota não tirou os méritos de Kaepernick ter feito uma das melhores primeiras temporadas de um quarterback na história da NFL.

O ano seguinte também foi ótimo para a equipe, mesmo que o rendimento individual tenha caído um pouco. Agora sem Alex Smith, que já estava nos Chiefs, ele começou todos os jogos da temporada regular, com forma de 12-4 e nova aparição nos playoffs.

Após vitória sobre os Packers (de novo) no Wild Card e sobre os Panthers no Divisional, os Niners caíram para os rivais de divisão Seahawks. Atrás do placar por 6 pontos na reta final do jogo, Kaep converteu uma quarta descida e conquistou mais dois first downs para posicionar seu time na linha de 18 jardas. Mas ao lançar para Michael Crabtree na endzone, Richard Sherman desviou o passe e Malcolm Smith interceptou, em uma das jogadas mais cruéis da carreira do quarterback.

Os Seahawks venceriam o Super Bowl daquela temporada ao massacrarem os Broncos.

Declínio

Antes da temporada seguinte, San Francisco ofereceu a Kaep um novo contrato, que duraria mais seis anos, no valor de até US$ 126 milhões.

Suas estatísticas em 2014 não foram muito diferentes que as da temporada anterior, inclusive, teve mais jardas terrestres e aéreas, além de maior aproveitamento nos passes. Mas a campanha de 8-8 e a 'falha' em chegar aos playoffs já rendeu críticas, em especial após um jogo no Dia de Ações de Graças.

Os Seahawks eram, mais uma vez, os adversários, e os 49ers precisavam da vitória para seguir na luta por uma vaga na pós-temporada, mas Kaepernick fez uma péssima partida. Com 121 jardas aéreas, seu rating foi de 36,5, sem touchdowns, mas com 2 interceptações. O jogo terrestre também não funcionou. Seattle venceu aquela partida por 19 a 3.

Algumas multas também lhe renderam vaias. A NFL puniu o jogador duas vezes naquela temporada, por linguagem inapropriada no gramado e por usar headphones de concorrentes do patrocinador da liga.

2015 foi péssimo. Jim Harbaugh havia deixado a equipe, rumo à Universidade de Michigan, e Jim Tomsula ocupou o cargo de técnico. O quarterback não se entendeu com o novo comandante e as coisas não fluíram em campo. Após vitória na primeira semana contra os Vikings, quatro derrotas consecutivas pesaram na equipe.

A atuação ruim de Kaep na semana oito, em derrota para os Rams, rivais de divisão, foi a gota d'água, e Tomsula o colocou na reserva de Blaine Gabbert, que venceu o jogo seguinte. Para piorar, o quarterback lesionou seu ombro e perdeu o restante da (sua pior) temporada.

Do céu ao inferno em pouco tempo, já corria a especulação de que o jogador gostaria de uma troca, mas ele voltou para a temporada de 2016 com a franquia de San Francisco (após cirurgias no ombro, no polegar e no joelho). Além de tudo, o treinador mudava mais uma vez: Chip Kelly assumia.

O protesto

Quando passava a se tornar um mero coadjuvante na liga, Kaep resolveu usar seu espaço para se posicionar.

Na pré-temporada de 2016, em jogo contra os Packers (realmente, Wisconsin tem uma forte ligação com a história do jogador), ele ficou sentado durante o hino nacional norte-americano, alegando que o país "oprime pessoas negras". Na semana seguinte, a mesma atitude. Nessa altura, as manchetes já são tomadas e a NFL começa a se posicionar. Em primeiro caso, afirmando que a liga encoraja os jogadores a respeitarem o hino de pé, mas não obriga.

Quando Kaepernick se ajoelha pela primeira vez diante da bandeira, em 1º de setembro, quem também se posiciona é o presidente Barack Obama, dizendo que o jogador tem direito constitucional de protestar. Outros jogadores também começam a se unir na ação. Um dos primeiros foi Eric Reid, então companheiro de Niners.

No início da temporada regular, muitos jogadores ao redor da liga começaram a se ajoelhar, quando surge a figura do então candidato à presidência Donald Trump, de postura crítica ao 'desrespeito' com a bandeira.

O quarterback ainda estava se recuperando de lesão, então só voltou a atuar na semana seis, em derrota humilhante para o Buffalo Bills, por 45 a 16. O cenário de derrotas seria algo comum naquele ano, em que o time acabou 2-14, e Kaepernick com rating (até que surpreendente por ter conquistado apenas uma vitória) de 90,7, 2241 jardas aéreas e 59,2% de passes completos. No chão: 468 jardas e 2 TDs.

Ao final da temporada, as especulações de corte dos 49ers só aumentaram, mas quem decidiu quebrar seu vínculo com a equipe foi o jogador, se tornando free agent - situação que está até hoje.

Enquanto, na temporada de 2017, os protestos continuavam mesmo sem a presença do jogador, ele processou os donos de franquias da NFL por se organizarem contra sua contratação. Na queixa, foi incluído Roger Goodell, comissário da liga que, anteriormente, havia dito que não concordava com o protesto, mas apoiava jogadores que lutam a favor de um ideal.

No ano seguinte, os donos de franquias aprovaram uma regra que proibia os jogadores de se ajoelharem durante o hino, de forma que os protestantes tenham sido motivados a ficarem nos vestiários durante sua execução. Mas a regra foi retirada antes mesmo do início da temporada regular de 2018.

A ação contra a NFL só teve frutos no começo de 2019, quando a liga chegou a um acordo secreto com o jogador, de forma que o litígio tenha sido arquivado. Naquele ano, o QB organizou training camps para mostrar às equipes que ainda poderia ser relevante na liga, mas ainda não recebeu propostas, de forma que se passam três temporadas completas desempregado.

Então chegamos ao cenário atual.

A morte de George Floyd pede uma "urgente necessidade de ação", nas palavras de Roger Goodell, de forma que o comissário publica um vídeo no perfil oficial da liga com a seguinte mensagem: "Nós, a NFL, condenamos o racismo e a opressão sistemática das pessoas negras. Nós, a NFL, admitimos que estávamos errados ao não escutar os jogadores anteriormente e não encorajá-los a serem ouvidos e protestarem pacificamente. Nós, a NFL, acreditamos que vidas negras importam".

Se a NFL esteve realmente errada, será que ainda cabe a Kaepernick uma oportunidade de jogar novamente? Ainda à procura de uma equipe, o quarterback tem 32 anos.