QUANDO ERNIE ACCORSI entregou, no primeiro segundo, o papel com a escolha do então Baltimore Colts no draft de 1983 da NFL, sobrancelhas se levantaram.
John Elway, o mais talentoso jogador disponível, seria o primeiro nome anunciado. O detalhe? Os Colts sabiam há meses que o quarterback não queria jogar em Baltimore.
Quando o comissário Pete Rozelle confirmou o destino de Elway em Nova York, dedos se estalaram e um plano foi colocado em prática.
Uma coletiva de imprensa em San Jose, na Califórnia, foi logo anunciada para horas mais tarde. O contra-golpe logo seria dado.
"Enquanto ficar aqui de pé, eu jogarei beisebol. O futebol americano não está fora de questão. E não me parece bom, vamos colocar desta maneira", disse Elway.
O chamado "garoto de ouro" forçava a saída antes de chegar. Mas não é apenas por isso que o draft de 1983 é inesquecível.
O New York Yankees se envolveu no caminho de Elway. Dan Marino, mais tarde um dos grandes do esporte, foi continuamente desprezado na primeira rodada. Uma ligação fez com que Jim Kelly basicamente desse um "chapéu" espetacular no Buffalo Bills. E inúmeras táticas de negociação marcaram presença em meio a um efervescente ambiente na NFL (tudo detalhado no documentário "Elway to Marino", disponível no WatchESPN).
Vamos a três histórias.
Você pode ver todas estas produções e muitas outras quando e onde quiser no WatchESPN.

YANKEES

O NEW YORK YANKEES queria John Elway. Não era um desejo sem fundamento. O jovem da universidade Stanford havia sido escolhido pela franquia no draft da MLB de 1981.
No verão americano de 1982, Elway recebeu cerca de 150 mil dólares para jogar por seis semanas por uma das filiais dos Yankees.
Sua habilidade no esporte era real. Mas sua paixão pendia para a NFL. E ele usou toda sua relação como uma das mais incônicas franquias do beisebol para pressionar os Colts.
Antes do draft da NFL, Elway visitou o Yankees Stadium. Era um recado claro. Mais claro ainda fora a justificativa oficial para ele não querer defender os Colts.
"Precisávamos de um motivo. E a desculpa para não jogar (pelos Colts) seria: ele é de Los Angeles, jogou em Stanford e gostaria de atuar na Costa Oeste", explica Marvin Demoff, agente de Elway, no documentário "Elway to Marino".
Fora dos olhos do público, tanto Elway como seu pai tinham muitas reservas em relação ao dono dos Colts, Robert Irsay, e ao técnico, Frank Kush.
Quando a escolha dos Colts foi anunciada, o próprio Yankees, na figura do proprietário George Steinbrenner, aproveitou a situação, reforçando que o quarterback iria para a MLB.
No fim, a pressão de Elway surtiu efeito.
Irsay havia assumido o controle da negociação, atropelando o general-manager Ernie Accorsi, e acertou uma troca com o Denver Broncos alguns dias depois: Elway foi liberado pelo primeiro pick dos Broncos no draft de 83 (o offensive lineman Chris Hinton), uma escolha de primeira rodada no draft de 1984 e o quarterback reserva Mark Herrmann.
ESQUECIDO?

DAN MARINO SABIA lançar fundo no campo. Tinha bom porte atlético e liderança. Só não controlava os boatos e as consequências dos mesmos.
No seu último ano atuando no college, ele sofreu com as conversas de que consumia drogas. Se submeteu a testes ao longo da temporada e passou em todos.
"Não tinha motivos e eu provei isso", declara.
Marino tinha esperanças de ser uma das primeiras escolhas. Mas ficou longe disso. Após Elway, Todd Blackledge (sétimo, Kansas City Chiefs), Jim Kelly (14º, Buffalo Bills) e Tony Eason (15º, New England Patriots) foram os outros quarterbacks selecionados.
"É difícil ficar lá sem saber para onde você vai. Começou a me chatear um pouco."
Um dos maiores baques veio no momento do 24º escolhido. Marino tinha certeza de que seria anunciado pelo New York Jets. Mas Ken O'Brien, que tinha bons números na Division II da NCAA, foi anunciado - uma grande surpresa.
No fim, melhor para o Miami Dolphins: a equipe da Flórida tinha a vigésima sétima escolha e pôde ficar com o quarterback.
O DRIBLE
JIM KELLY SAIU sem assinar o contrato. Uma ligação chegara ao escritório do Buffalo Bills. Era um executivo da USFL, então liga que rivalizava com a NFL. A secretária repassou a chamada.
Kelly, que estava prestes a dar sua assinatura, ouviu uma promessa ao telefone: poderia escolher a franquia que quisesse. Eles precisavam dos melhores quarterbacks jogando por lá.
Uma salvação para ele.
"Meu agente perguntou (antes do draft) se tinha alguma franquia pela qual eu não queria jogar na NFL. Eu disse que sim: não queria jogar pelo Minnesota Vikings, não queria jogar pelo Green Bay Packers e com certeza não queria jogar pelo Buffalo Bills".
Após a ligação que o tirou do escritório dos Bills, ele assinou um lucrativo contrato com o Houston Gamblers e foi o principal quarterback da USFL naquele ano.
A HISTÓRIA
O FUTURO PÓS-DRAFT de 1983 todos conhecem.
John Elway levaria o Denver Broncos a cinco Super Bowls e venceria dois nos seus últimos anos de carreira. Dan Marino não foi campeão, mas lidera várias estatísticas até hoje na NFL. Jim Kelly voltaria ao Buffalo Bills após a implosão da USFL, com um contrato lucrativo e como líder de um time que foi quatro vezes consecutivas ao Super Bowl (história contada no documentário "Four Falls of Buffalo").
Hoje, os três são membros do Hall da Fama.
Além deles, Tony Eason também disputou um Super Bowl com os Patriots. Após o draft, pelo menos um destes quatro quarterbacks esteve presente em 11 dos 16 Super Bowls disputados nos anos seguintes.
Com Blackledge e O'Brien, foram seis QBs escolhidos na primeira rodada do draft, um recorde até hoje.
E dá para dizer que a classe de 1983 é diferente: sete atletas daquele draft entraram para o Hall da Fama (Eric Dickerson, Bruce Matthews, Darrell Green e Richard Dent completam a lista) e outros 34 apareceram em Pro-Bowls.
