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NFL: Uma tragédia familiar inspira a luta de Solomon Thomas, do San Francisco 49ers

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NFL: Solomon Thomas, dos 49ers, se abre sobre o drama familiar que o colocou na luta contra o suicídio (7:01)

Defensor do San Francisco 49ers afirma que joga pela memória de sua irmã (7:01)

Era o fim da primeira temporada de Solomon Thomas na NFL. Fora dos playoffs, ele voltou para a casa da família, em Dallas, e usava as instalações da escola em Southlake para manter a forma. Até que a manhã do dia 23 de janeiro mudaria muita coisa.

Sua irmã mais velha, Ella, não estava em casa quando Salomon foi treinar e também não havia aparecido quando ele voltou, no fim da manhã. Ella jamais voltaria para a casa da família.

“Às 13 horas meu pai me ligou e disse o que tinha acontecido. Eu estava sozinho em casa. Eu desmoronei e caí no chão, gritando e chorando. Ella tinha um pitt bull chamado Mickey. O momento ainda está embaçado na memória. A única coisa que lembro é de Mickey lambendo minhas lágrimas”, relatou o jogador do San Francisco 49ers.

Ella, de 24 anos, havia tirado a própria vida na casa de uma amiga.

Separados por dois anos de diferença, e três séries escolares, os irmãos eram muito unidos. Com as diversas mudanças de cidade provocadas pelo trabalho do pai, Chris, os dois mantinham uma relação sadia, com Ella, jogadora de basquete, sempre vencendo o irmão, já com mais de 90 kg e jogando futebol americano, nas brincadeiras de luta.

“Em um treino em Stanford meu técnico de linha defensiva perguntou onde eu tinha conseguido minha ‘malvadeza’. Eu parei e pensei por um minuto e disse para ele que, honestamente, eu fui muitas vezes vencido por minha irmã! Eu não sei se jogaria futebol sem ela. Certamente não teria sido a terceira escolha no draft. Ela sempre foi a inspiração para minha força”, contou.

Ella, de forma trágica, também inspirou Solomon Thomas a buscar alternativas para que outros não tenham o mesmo destino. No último mês, ele recebeu um oferecido pela Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio (AFSP) àqueles que compartilham suas histórias e lutam para ajudar outras pessoas.

COMO NÃO PERCEBI?

Solomon se culpa questionando como não tinha percebido a irmã desta forma. Mas, na verdade, ele tinha, e sempre havia ficado ao lado dela.

Em entrevista à jornalista Molly Knight, publicada em setembro pela ESPN, Solomon conta que a irmã sempre foi ansiosa, colocando em si uma constante pressão e tentando impressionar alguém. No colégio, o irmão de um amigo morreu de overdose e Ella se afundou no luto antes de decidir que os irmãos Thomas jamais brigariam novamente.

Na Universidade de Arkansas, a ansiedade voltou a atacar com força e no segundo ano ela começou a ter dificuldades. “Ela apenas começou a ter notas ruins porque ela não queria fazer o trabalho”, disse, ressaltando que Ella sempre foi boa aluna.

“Também teve um incidente que é realmente difícil falar sobre. Nunca falei sobre isso, mas eu vou falar: ela foi vítima de estupro coletivo e nunca mais foi a mesma. Ela foi para uma casa de fraternidade no campus, e tinha álcool envolvido. Ela tentou dizer às pessoas na faculdade, mas não fizeram nada. No fim, ela deve ter sentido que era culpa dela”, contou.

Ella deixou a faculdade e só foi falar do caso aos familiares anos depois. Neste meio do caminho, um amigo próximo da universidade morreu e outros dois conhecidos faleceram em um acidente de barco. “A depressão foi ficando pior e pior”, disse. Thomas contou que no começo de 2017 eles acharam que as coisas iam melhorar. Ella começou a falar sobre a depressão, procurou tratamento e começou a tomar remédios. Mas a situação não tardou a virar novamente.

No fim de novembro ela largou o emprego e voltou para a casa dos pais, passando a maior parte do tempo dentro do quarto. “O Dia de Ação de Graças foi difícil, mas tivemos um belo e fantástico Natal juntos, como família. Nós quatro e minha avó”, lembrou.

Menos de um mês depois, esta se transformaria em uma das últimas boas lembranças da família.

A DOR DE QUEM FICA

“Todas as fases, a raiva, depressão, a tristeza, culpa, dor, todos os tipos de coisa. Foi duro para eu voltar a ficar bem, levou um tempo”, contou Thomas.

“Eu não tinha percebido que, enquanto ele estava jogando no último ano, ele não estava realmente aproveitando o jogo e estava passando por tudo aquilo. Não que ele não estivesse dando 100%, mas ele não estava 100% lá”, disse o pai do jogador.

Solomon Thomas terminou seu segundo ano com boas atuações, mas ainda longe de corresponder à expectativa que uma 3ª escolha de draft traz. E por isso mesmo Thomas não tem dúvidas em dizer que foi a pior temporada de sua vida, mas não quer usar o luto como desculpa.

Os 49ers entenderam bem a dor do jogador e pouco menos de cinco meses após a tragédia colocaram a família em contato com a AFSP. Os Thomas arrecadaram US$ 30 mil para a causa e, principalmente, descobriram uma forma de transformar a tragédia em algo com um significado maior.

“Sinto que tem alguém lendo isso agora que não sabe como vai conseguir passar o resto de seus dias sem alguém que tirou sua própria vida. Acredite, eu conheço este sentimento. Mas eu sei que isso é possível, por mais doloroso que seja. Você tem apenas que seguir lutando todos os dias”, disse.

“E para as pessoas que estão sofrendo com ansiedade e depressão, por favor não se sinta mal consigo mesmo. Não sinta vergonha. Não é sua culpa. Você está desse jeito por algum motivo. E existe ajuda. Você talvez não encontre o terapeuta certo de primeira, ou o medicamento correto, mas siga tentando, siga lutando. Fale sobre isso. Seja bondoso consigo mesmo”, completou.

Em vida, Ella mostrou a Solomon como ser “durão” dentro de campo. Sua memória, por mais dolorosa que seja, deu algo para o irmão lutar fora de campo.