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Giannis antes da NBA: A história do jovem vendedor ambulante sem pátria que se tornou MVP e faz história no basquete

“A minha vida não foi fácil, passei por muitas coisas. Então, quando eu vi Giannis Antetokounmpo eu logo entendi quem estava na minha frente, quem ele seria e como eu poderia desenvolvê-lo”.

Assim o responsável por descobrir o agora astro da NBA, campeão e MVP das Finais pelo Milwaukee Bucks, falou sobre a primeira vez que o viu, aos 13 anos, jogando basquete com seus irmãos em um parquinho no subúrbio de Atenas, capital da Grécia. Spiros Velliniatis descreveu como um milagre aquela tarde de 2007.

As mensagens em resposta ao pedido de entrevista para a ESPN Brasil vieram quando ainda era de madrugada na Grécia, enquanto o primeiro técnico do MVP da NBA ouvia uma coletânea de músicas religiosas, sem conseguir dormir em meio à preocupação com a pandemia de coronavírus. Ele enviou várias fotos de um jovem Antetokounmpo e, também, de si mesmo – dono de uma história peculiar.

A aspiração do próprio treinador era jogar basquete profissional nos Estados Unidos. “Não deu certo, mas felizmente eu pude realizar esse sonho através do meu pupilo”, disse.

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Em 1986, aos 16 anos, Velliniatis embarcou sozinho em um avião da Europa para a América do Norte, mas a tarefa seria mais árdua do que imaginava. Apesar de jogar pelo Cape Coral High School na Flórida, não conseguiu dar os próximos passos. Então, desistiu do sonho americano e foi servir o exército alemão, cumprindo o serviço militar obrigatório. Ele tem dupla cidadania, grega e alemã. De volta à Grécia, se dedicou a estudar basquete.

Quem vê Giannis jogando hoje em dia mal imagina, mas em um passado não tão distante a realidade que o cercava era completamente diferente.

Filho de imigrantes nigerianos em busca de um recomeço na Grécia, Antetokounmpo e seus três irmãos cresceram longe de luxos em Atenas. Ele vendia óculos, relógios, CDs e outras bugigangas na rua enquanto lidava com racismo, xenofobia e a incerteza de quando seria a próxima refeição. Durante os primeiros 18 anos de sua existência, viveu ilegalmente, sem documento nenhum. A cidadania grega veio apenas quando estava prestes a ser draftado.

“Ele não sabia driblar, arremessar ou fazer uma bandeja. E era muito magro porque comia muito pouco”, relembra o técnico.

“Eu estava procurando jogadores para recrutar para o meu time, o Filathlitikos, e lembrei que dois anos antes, em 2005, tinha visto o irmão mais velho dele, Thanasis Antetokounmpo, jogando em uma quadra de rua. Mas naquela época eu não trabalhava. Então, quando me juntei a uma equipe, comecei a circular pela região de Sepolia procurando por ele. Isso porque, um dia antes, eu tinha tido uma discussão com a diretoria do time argumentando que precisávamos ir atrás de novos talentos. Até que vi Giannis com seus irmãos, eu não sabia que ele existia. E foi um milagre”.

Apesar de preferir futebol quando adolescente, topou o desafio para ajudar a família. O casal de imigrantes também não tinha documentação, o que tornava difícil conseguir qualquer trabalho formal. Os seis viviam amontoados em um apartamento com dois quartos.

“Ele não queria saber de jogar basquete, estava focado mesmo no futebol. Então, a minha estratégia foi prometer que encontraria bons empregos para o pai e para a mãe dele. Foi como uma isca que eu precisei jogar”. Assim, antes da NBA, Giannis jogou basquete pelo Filathlitikos na terceira divisão da liga amadora grega.

O greek freak e seu irmão mais velho, Thanasis, dividiam o único par de tênis que tinham – quando um jogava, o outro ficava de fora e vice-versa, para o rodízio de sapatos ser possível. Dali para frente, muitas noites de sono foram passadas em um colchão de exercícios no ginásio para evitar fazer o longo percurso até sua casa no escuro.

O ex-técnico falou ainda sobre traumas vividos por Giannis e a família.

“Os times não aceitavam imigrantes facilmente, independentemente da qualidade. Achavam que tinham problemas de comportamento. Não estavam acostumados a treinar crianças tão talentosas quanto Giannis, então podavam suas asas. Antetokounmpo tem questões que ninguém pode falar por ele”.

Seu perfil contraria os holofotes– discreto, sem muitas atitudes chamativas, respeitoso com os adversários, preferindo passar longe de provocações.

O jogador de basquete Christos Saloustros, um de seus melhores amigos desde a infância, o descreve como uma superestrela com coração de criança. Os dois se conheceram dez anos atrás, jogando juntos pelo Filathlitikos. Logo a primeira impressão sobre Antetokounmpo mudaria.

“Ele era muito magro e a altura não era lá essas coisas. Mas a motivação era de outro mundo. Acho que porque sempre esteve acostumado a estar em desvantagem. Ele começou jogando como armador, tinha muita dificuldade de entrar no garrafão porque sempre era derrubado. Então, ele pegava pesado na academia”.

Giannis não começou integrando o time principal. Ele era sempre o 13º jogador da lista. E isso servia como combustível para crescer, como conta Saloustros.

“Ele não saía nunca do ginásio. Nós chegávamos para o treino da manhã e ele já estava lá, depois íamos para casa e voltávamos mais tarde para o treino da tarde, e ele continuava lá. Então o time perguntava se ele havia almoçado. E ele dizia que tinha comido um lanche ou um salgadinho daqueles de máquina”.

A mãe de Christos costumava colocar bananas e potes de iogurte a mais na lancheira do filho para que ele dividisse com os irmãos Antetokounmpo, assim como a família deles cozinhou para seus companheiros de equipe em muitas ocasiões.

O amigo recorda as histórias vividas antes da fama de Giannis, sempre exaltando a força de vontade do hoje MVP, quando garoto. O momento em que Saloustros percebeu que seu parceiro de time se tornaria grande veio de um episódio de sofrimento.

“Uma vez tínhamos um jogo fora de casa, em Thessaloniki, e todo o time voaria de avião. Mas ele não tinha passaporte nem documento nenhum, então precisava de uma carona de carro ou até poderia ir de ônibus, mas ninguém da equipe conseguiu ir junto. Ele chorou que nem um bebê, falando desesperadamente que queria muito jogar. Foi a partir daí que me dei conta do que viria.”

O Filathlitikos subiu para a segunda divisão do campeonato grego na última temporada de Antetokounmpo por lá.

“Ele estava arrebentando, chegou a marcar 50 pontos em um jogo! De repente, vários olheiros começaram a aparecer no ginásio por causa dele. Mesmo antes dessa época ele olhava para pessoas com camisas de jogadores da NBA e falava: eu vou ser o melhor de todos”.

Alguns anos depois, ele se tornou o que almejava. Venceu o prêmio de jogador mais valioso da NBA em 2019. O reinado como MVP não se alongou muito, entretanto. Durou alguns dias, na verdade. Pelo menos na visão do próprio jogador mais valioso da NBA. A implacável busca pelo êxito pessoal e coletivo fez o grego pedir aos fãs que não o chamassem mais assim durante a cerimônia de comemoração do prêmio em Milwaukee. O motivo? O greek freak queria permanecer focado para essa temporada, até ser eleito novamente o MVP.

Embora conquistas pessoais sejam ansiadas por atletas em todas as modalidades, existe uma estirpe diferente: aqueles que vibram ainda mais com o que um grupo consegue atingir sob a sua liderança.

O maior jogador de basquete da história, Michael Jordan, compartilhava dessa mentalidade. Em comum, os dois tinham o fato de serem vencedores do prêmio individual mais expressivo que se podia levar, antes de se tornarem campeões da liga norte-americana de basquete.

A redenção de Jordan veio após exatos sete anos com o Chicago Bulls, em 1991, embora tenha sido eleito MVP pela primeira vez em 1988. Nas palavras de Jordan, havia um estigma de que, antes de vencer o primeiro título com a equipe, ele não estaria no mesmo patamar de atletas como Larry Bird (Boston Celtics) e Magic Johnson (Los Angeles Lakers).

Giannis está acostumado a colocar o “nós” antes do “eu”, seja no campo profissional ou pessoal.

“Ele tem uma agenda muito apertada, mas, sempre que dá, tenta marcar algo com os amigos. E quando nos encontramos, mal falamos de basquete. Falamos da vida. Se alguém dá um conselho ele ouve atentamente, sempre procura se tornar uma pessoa melhor, aprender coisas novas. E uma coisa que ninguém sabe sobre o Giannis? Ele é um piadista! Consegue te fazer rir até com as piadas ruins, pelo jeito que conta, é engraçado”, revela Saloustros. Hoje, os dois defendem juntos a seleção de basquete grega.

Já seu primeiro técnico lamenta não cultivar uma relação mais próxima com o pupilo, com quem praticamente não tem contato desde o draft da NBA.

E, ao falar sobre a imagem coletiva do jogador grego, fez um pedido – para que parem de colocá-lo em um pedestal.

“Giannis Antetokounmpo é humano, e é isso que o faz digno. Ele não é definido por ser grego, nem africano, ele é Giannis, com todo o bem e mal que vier junto”.

*Matéria publicada originalmente em 7 de maio de 2020