Quando um treino do Brooklyn Nets no final de fevereiro terminou e os jogadores começaram a deixar a quadra, Kevin Durant pulou de uma mesa de treinamento, pegou uma bola e foi em direção a uma cesta.
Com cada arremesso que ele acertava, qualquer timidez em seus passos desaparecia e uma segurança familiar assumia. Oito meses depois de romper o tendão de Aquiles, ele não estava totalmente pronto para voltar - pelo menos não ainda.
Durant manteve sua rotina de reabilitação, muitas vezes de gorro cinza, da sua scooter à caminhada, da caminhada à corrida, da corrida ao salto e do salto às enterradas. Um dos maiores pontuadores da história da NBA foi reconstruindo a si mesmo desde o básico.
"Se eu tivesse jogado no ano passado, provavelmente teria ficado sobrecarregado por conta da troca de time e do ambiente diferente", disse Durant a repórteres na semana passada. "Mas acho que já ter um ano aqui definitivamente me ajudou a vir para este training camp, porque eu conheço muito bem os treinadores e meus companheiros de equipe agora”.
A única vez que Durant falou com a mídia durante a temporada foi nos dias após a morte de Kobe Bryant. O companheiro de equipe de Durant, Kyrie Irving, considerava Bryant um amigo próximo e mentor. Após uma sessão de filmes dois dias após a morte de Bryant, a equipe de relações públicas dos Nets pediu a Irving que falasse com repórteres, mas ele recusou. Em vez disso, Durant disse que faria isso, permitindo que Irving continuasse em luto e longe das câmeras.
Fora isso, Durant foi uma figura sombria na temporada dos Nets, mas sua presença pairava no ar. Ele chegava à maioria dos jogos no Barclays Center menos de uma hora antes do começo e caminhava para a quadra. Ele era parte observador, parte treinador.
Pouco antes de as escalações iniciais serem introduzidas nesses jogos, a montagem da campanha publicitária dos Nets foi concluída passando por cada jogador do elenco em rápida sucessão, de Jarrett Allen a Joe Harris e o próprio Kyrie Irving. A imagem final: um close penetrante de Durant olhando da tela para a quadra. Ele está de olho neste retorno há mais de 550 dias.
Agora ele está de volta. Esta é sua equipe. Kevin Durant não é mais a figura misteriosa que paira sobre a franquia dos Nets. Ele está no centro de seu futuro e é aí que surgem novas questões. - Malika Andrews
A lesão ainda vai atrapalhar?
O retorno de Durant será o maior teste para os jogadores da NBA e como eles voltam de uma lesão no tendão de Aquiles. Embora essas lesões tenham se tornado cada vez mais comuns, incluindo uma sofrida por Klay Thompson, ex-companheiro de Golden State Warriors de Durant, em um treino no mês passado, ainda temos uma pequena amostra de jogadores voltando delas.
Em média, os jogadores que retornaram de lesões no tendão de Aquiles têm desempenho cerca de 8% pior por minuto do que seria esperado com base em seu desempenho nas últimas três temporadas e no desenvolvimento de jogadores semelhantes na mesma idade.
Há uma grande variação entre o grupo, no entanto. Alguns jogadores, principalmente Dominique Wilkins e o veterano do San Antonio Spurs, Rudy Gay, superaram suas projeções antes da lesão. Outros, incluindo o irmão de Dominique, Gerald Wilkins, e o pivô Mehmet Okur, nunca chegaram perto de recuperar a forma esperada.
A primeira boa notícia para o retorno de Durant, então, é o quão bom ele era antes da lesão. Mais recentemente, quando vimos Durant com força total, durante as duas primeiras rodadas da pós-temporada de 2019, antes de uma lesão na panturrilha, ele estava se apresentando como o melhor jogador da NBA, com LeBron James assistindo aos playoffs daquele ano em casa. Reduzir a projeção de Durant em 8% o deixaria virtualmente igual a Paul George do Los Angeles Clippers, por exemplo.
O conjunto de habilidades de Durant é outro motivo para otimismo. Pode não ser uma coincidência que as duas maiores histórias de sucesso pós-lesão de Aquiles foram alas habilidosos grandes como Durant. Dominique Wilkins não foi o mesmo arremessador ao longo de sua carreira, mas teve os melhores números de sua carreira em bolas de três pontos por jogo (1,7) e aproveitamento (38%) saindo da lesão, quando ele teve uma média de 29,9 pontos por jogo e fez sua oitava aparição consecutiva no All-Star Game.
Mesmo que Durant perca um pouco de capacidade atlética, ele deve ser capaz de fazer a transição para jogar com mais força no ataque (e talvez até como pivô) em Brooklyn, onde sua rapidez, em vez de seu tamanho, pode se tornar sua maior vantagem. Um conjunto igualmente amplo de habilidades ajudou Breanna Stewart, do Seattle Storm da WNBA, a permanecer a melhor jogadora da liga depois que uma lesão no tendão de Aquiles lhe custou a temporada de 2019. Stewart levou o Storm ao seu segundo título em três anos e foi novamente a MVP das Finais.
A principal diferença entre Durant e Stewart é a idade. Stewart fez 26 anos durante a temporada, enquanto Durant está com 32 e entrando em sua 13ª temporada da NBA. Antes da lesão, esperávamos que Durant começasse a diminuir o ritmo suavemente em seus 30 anos. Se ele puder evitar uma queda adicional após a lesão vai ajudar a determinar se os Nets vão emergir como candidatos ao título. - Kevin Pelton
Como será a parceria entre KD e Kyrie?
Ao vivo no Instagram, Kyrie Irving estava em plena discussão com Kevin Durant.
Antes do primeiro jogo de pré-temporada dos Nets que eles jogariam juntos, eles estavam discutindo o sistema ofensivo do time. Irving estava focado em quantas bolas ele iria receber.
"Que tal sete em vez de oito?" Irving perguntou.
"Pensei que íamos fazer dois post-ups e meio por jogo", respondeu Durant. "O meio é quando eu jogo a bola para você e você apenas a joga de volta para mim”.
Irving tentou explicar sua mentalidade. Ele sente que tem uma vantagem, não importa quem o esteja marcando, não importa o lugar na quadra. Ter um armador que pode conseguir uma vantagem contra qualquer adversário pode ser positivo para os Nets.
"Sim, vamos ver, no entanto", disse Durant, agradando Irving.
Tudo foi feito na base do bom-humor, mas Durant tinha razão. Ele disse que não achava bom para a continuidade do ataque o armador estar sempre embaixo da cesta.
Há uma química clara entre Irving e Durant na maneira como eles pensam o jogo e percebem sua reputação fora da quadra. Eles têm uma conexão que esperam que se manifeste em algo especial dentro da quadra.
Durant buscou esse tipo de parceria ao longo de toda a sua carreira. Isso o levou a jogar com três armadores de calibre, todos dinâmicos e diferentes.
Houve momentos com Russell Westbrook em Oklahoma City quando ele e Durant jogaram de maneira linda um com o outro, não se revezando, mas assumindo o controle. Eles pararam de minimizar suas diferenças quanto mais jogavam juntos, nunca tímidos com as frustrações que vinham de suas abordagens pessoais.
"Há dias em que quero simplesmente ir para cima de você", disse Durant em seu discurso de MVP a Westbrook. "Eu sei que há dias em que você quer fazer o mesmo comigo”.
Os dois cresceram juntos na liga, suas ascensões individuais às vezes complicando a dinâmica da equipe. A energia descontraída de Durant parecia um bom contraponto à teimosia implacável de Westbrook, mas às vezes eles se chocavam. Ambos queriam a mesma coisa; eles simplesmente nem sempre concordavam sobre como chegar lá, no entanto.
A saída de Durant de OKC não teve a ver com Westbrook. Mas se ele quisesse jogar com Russ, ele teria continuado jogando com Russ.
A união dos Warriors foi atraente demais para Durant, e um grande argumento em sua decisão de assinar com eles. Ele olhou para o mantra "força em números" dos Warriors e viu um grupo desprovido de hierarquia, sem falar sobre quem era o Batman e quem era o Robin.
Em Stephen Curry, Durant viu uma estrela inclusiva, alguém com quem era possível construir um relacionamento em pé de igualdade. Mas sempre houve uma tendência de ciúme da parte de Durant. Curry era imune a críticas, livre para arremessar de onde quisesse e adorado pela imprensa.
Antes de assinar com os Warriors, Durant reclamou em particular com amigos sobre a paixão do mundo por Curry e pelos Warriors. Durant queria ser considerado o melhor jogador do mundo e estava atrás de LeBron James depois de vencer o MVP em 2014. Mas Durant essencialmente perdeu uma temporada com um pé quebrado em 2015, coincidindo com a ascensão dos Warriors, e teve que assistir Curry saltando sobre ele.
Essa parceria nunca surgiu com Curry. Não havia animosidade, mas uma tensão silenciosa persistia. Durant era o estranho no domínio de Curry, o mercenário contratado para empilhar troféus. Pelo menos com Westbrook, Durant tinha um vínculo. Um para cima e para baixo, mas era algo que eles haviam construído juntos.
A carreira de Durant tem sido cheia de mudanças. Mudança de agentes. Mudança de equipe. Mudança de companheiros. A parceria com o Irving foi uma jogada coordenada, com os dois querendo jogar juntos. Eles são grandes jogadores ofensivos com ideias semelhantes e que podem conseguir uma cesta quando quiserem.
O gerente geral do Thunder, Sam Presti, costuma dizer que Durant é um verdadeiro gênio do basquete. A maneira como ele pensa o jogo e o aborda como um ofício, sempre aprendendo, crescendo, se desenvolvendo. Durant é um jogador ofensivo tão versátil, dotado para marcar com uma eficiência implacável. E dentro desse talento está a capacidade de se adaptar a qualquer estilo, a qualquer companheiro de equipe. Ele vai conseguir seus 30 pontos. E ele pode consegui-los de 30 maneiras diferentes.
Nem sempre será bonito com Irving. Haverá turnovers. Haverá imagens de Durant com a mão para cima, pedindo a bola, parado de braços cruzados enquanto Irving se isola. Haverá momentos de frustração em que Durant agitará os braços ao lado do corpo enquanto Irving se prepara para o arremesso.
Mas isso não significa que algo esteja errado. Como a conversa bem-humorada no Instagram, isso significa apenas que eles ainda estão trabalhando nisso. - Royce Young
Como será o jogo de Durant?
Duas estatísticas resumem as habilidades sem precedentes de Durant como grande pontuador da NBA moderna.
Aqui está o primeiro: aos 24 anos de idade em 2012-13, Durant apresentou números de 50-40-90 enquanto fazia mais de 28 pontos por jogo. Apenas Larry Bird e Stephen Curry podem dizer que fizeram a mesma coisa. Resumindo, KD não apenas consegue cestas, mas também em níveis extremamente eficientes.
E aqui está o segundo:
Melhores temporadas de arremessos de média-distância: 1. Kevin Durant (2018-19): 52,6 FG% 2. Dirk Nowitzki (2013-14): 50,4% 3. Chris Paul (2014-15): 50,4% 4. Kevin Durant (2015-16): 50,3% 5. Kevin Durant (2017-18): 50,1%
*Desde 2013-14, entre 57 jogadores com 500 bolas de dois pontos fora do garrafão.
Os dons de Durant são únicos. Ao contrário de outros pontuadores natos, seus arremessos ainda incluem grandes quantidades bolas de média-distância, e por um bom motivo - ele provavelmente é o jogador mais eficaz desde Michael Jordan nas áreas esquecidas entre o garrafão e a linha de três pontos. Embora esse espaço tenha caído em desuso estatisticamente, o dogma "médio é burro" não se aplica aqui.
Pouco antes de se machucar, Durant tinha acabado de registrar a melhor temporada de pontuação de média-distância da era do rastreamento de jogadores. Essa capacidade de encontrar e converter seus próprios arremessos em qualquer lugar, a qualquer momento na pós-temporada, é o que o tornou o MVP do Golden State Warriors naqueles últimos jogos. Ele pode e vai usar todo o tabuleiro de xadrez com grande efeito. Ele é insuportável. É simples assim.
Mesmo que Durant demore para voltar à forma, ele ainda será um problema para todos os oponentes. Podemos não vê-lo forçando a barra na defesa em posses consecutivas. Isso é bom. Os Nets não precisarão dessa versão do KD até a pós-temporada.
Mas observe Durant na média-distância nos primeiros meses da temporada. Em sua estreia na pré-temporada contra o Washington Wizards, KD fez 12 chutes em 24 minutos. Mais da metade foram bolas de 2 pontos. No primeiro quarto, Irving fez o passe para seu companheiro na ala esquerda. Durant voltou-se para Rui Hachimura, passou a bola por cima da cabeça para o lado esquerdo e depois subiu com a mão do defensor na sua cara. Foi um movimento tão perfeito que a rede da cesta até ficou presa.
Espera-se que ele esteja 100% a tempo, porque Kevin Durant com força total é incrível. Mas mesmo enquanto ele trabalha seu caminho de volta, aqueles doces arremessos de média-distância permanecerão impossíveis de marcar. - Kirk Goldsberry
