Uma foto icônica marcou a vida de Kobe Bryant. Ainda com 11 anos, o Mamba morava na Itália aonde seu pai, Joe, praticava basquete profissional. Durante um dos torneios de verão de 1989, Kobe decidiu tentar um desafio: participar da final dos adultos na equipe de seu pai. A tentativa rendeu a foto: Kobe, criança, sendo marcado por um adulto.
Na segunda-feira, Federico Biagini, o italiano que estava marcando Kobe na foto, revelou a história por trás do momento e falou das dificuldades de marcar uma criança "que não era uma criança qualquer".
"'O que eu devo fazer agora?', era o pensamento de quem deveria marcar você. E aquele cara, para o melhor ou para o pior, era eu, um jogador medíocre das divisões inferiores da Toscana", comenta. "A criança pega a bola... E eu falo para mim 'não se mexe, não faz nada, é uma criança'. A criança arremessa de 3... Nada além da rede, a torcida vai à loucura, meus companheiros de time mostram sinal de descontentamento".
O Mamba, então, repetiu o movimento mais uma vez e Federico ainda não tinha coragem de marcá-lo: nada além da rede mais uma vez. Na terceira, o italiano se viu em um dilema.
Kobe, Federico e a foto icônica - Arquivo Pessoal/ Federico Biagini
"'Me f..., o que eu faço agora?', pensei. Chego mais perto da criança e tento falar com meus olhos: 'por favor não faça'. Sem chance, ele não tem nada além de pura determinação em seu olhar (a Mentalidade Mamba já estava lá?)", relata o italiano que também revela que acabou bloqueando o arremesso de Kobe, apesar da vergonha.
"Eu começo a rir dessa situação tragicômica e falo para o meu técnico 'ou você me coloca no banco agora ou você entra e vem marcar esse moleque'", prossegue.
No fim, Federico se despede de maneira emocionante do "moleque". Confira a íntegra do depoimento, que pode ser lido em italiano aqui.
Fala, moleque. Eu sou o cara de camisa branca nessa foto e demorei dois dias para processar o que aconteceu.
Fala, moleque era o que estava dizendo... Para mim você sempre será aquela criança simpática no Troféu Piattelli no Montecatini Terme em 1989: aquele magricelo com as pernas mais cumpridas, olhos cheios de vida e um sorriso que, depois, encantaria não só o basquete, mas o mundo como um todo.
Uma criança naquela noite, 30 anos atrás, fez algo único e impossível de repetir: entrou em quadra ao lado se pai "Billy Joe" com os "crescidos" durante as Finais de um torneio de verão, com sua camisa batendo nos joelhos e a "pouca-vergonha" dos campeões, mesmo que você tivesse apenas 11 anos. Você tentou deixar uma marca no jogo, ser um protagonista e não só um extra, como você faria pelo resto de sua carreira.
As Finais de um torneio de verão, provavelmente um dos mais importantes na época, jogado em Montecatini durante os melhores anos do basquete na Toscana; na quadra aonde jogavam apenas adultos das Séries A, B, C e D; de Montecatini, Pistoi, Livorno, Siena e Florença; ninguém queria perder, era coisa séria.
Questão de honra, rivalidades locais, coisa do "subúrbio italiano", mas sentimentos e emoções que você levaria, com seu imenso talento, para o basquete do outro lado do oceano.
"Uma criança na quadra, que fofo!" foi o pensamento das 1000 pessoas na arquibancada, entre elas sua mãe que olhava para você quando você entrou.
"Uma criança na quadra, que tédio", pensaram os atletas.
"O que eu devo fazer agora?", era o pensamento de quem deveria marcar você.
E aquele cara, para o melhor ou para o pior, era eu, um jogador medíocre das divisões inferiores da Toscana.
A criança pega a bola... E eu falo para mim "não se mexe, não faz nada, é uma criança".
A criança arremessa de 3... Nada além da rede, a torcida vai à loucura, meus companheiros de time mostram sinal de descontentamento.
Na jogada seguinte, bola na mão da criança de novo... eu penso "chega mais perto, mas não levanta o braço... é uma criança!".
A criança, sem se importar, arremessa de novo para 3... e acerta de novo! A torcida grita novamente, meus companheiros reclamam de novo, meu técnico que não queria perder (ninguém queria) pede um tempo e exige que eu defenda.
Voltamos para a quadra. De novo, a criança tem a bola. A arena inteira quer que a criança arremesse e torce para ele.
Todos os meus companheiros querem que eu defenda e gritam "não deixa chutar!".
"Me f..., o que eu faço agora?", pensei.
Chego mais perto da criança e tento falar com meus olhos: "por favor não faça". Sem chance, ele não tem nada além de pura determinação em seu olhar (a Mentalidade Mamba já estava lá?).
A torcida está fora de si: "arremessa! arremessa de novo!". Levanto meu braço sem sequer olhar para a criança.
Sem pensar novamente, ele pega a bola, maior e mais pesada que ele, e arremessa. Sem querer e inevitavelmente, eu bloqueio o arremesso. O que a mãe dele irá pensar de mim?
A arena grita desapontada comigo, meus companheiros seguem jogando como se nada tivesse acontecido.
Eu começo a rir dessa situação tragicômica e falo para o meu técnico "ou você me coloca no banco agora ou você entra e vem marcar esse moleque".
Certo... o moleque... Aquele moleque, que em poucos anos daria tantas emoções para o basquete de um jeito que ninguém poderia imaginar, incluindo a melhor carta de amor, a melhor despedida que alguém já escreveu.
Adeus, moleque...
Agora faça os anjos se apaixonarem pelo basquete; toda cesta é um plano divino.
Talvez um dia nós joguemos 1 contra 1 novamente e, sem a menor dúvida, você irá devolver aquele toco absurdo enquanto sua filha nos assiste e dá risada.
5,4,3,2,1...
Adeus, Kobe. Foi lindo.
