Em tempos em que as entrevistas parecem todas padronizadas pelo politicamente correto, um pivô em especial vem chamando bastante a atenção na NBA justamente pelo oposto, por falar o que pensa sem temer as consequências que isso pode lhe causar.
E esse homem é Enes Kanter, hoje no New York Knicks.
Kanter é uma verdadeira ‘persona non grata’ na Turquia. Isso porque ele apoia Fethullah Gulen, acusado de orquestrar uma tentativa de golpe de estado em 2016. Centenas de pessoas morreram durante a tentativa, que acabou não tendo sucesso. Tal golpe tentava derrubar o presidente Recep Tayyip Erdoğan.
Pouco depois disso, um jornal ligado ao governo de Erdogan chegou a publicar uma carta do pai de Enes, Mehmet Kanter, deserdando o próprio filho pelo apoio ao golpe.
O pivô, porém, nunca se calou. Chegou até a mudar seu nome nas redes sociais para Enes Gulen. Durante as férias deste ano, chegou a ser preso em um aeroporto porque a Turquia havia cancelado seu passaporte. E, quando liberado, seguiu criticando o governo turco. E de forma ainda mais pesada.
“Eu entendo que não é minha função acusar. Sou um jogador de basquete e meu trabalho é jogar basquete. Mas só estou tentando ser a voz de todas as pessoas inocentes. Claro que eu amo meu país, sou da Turquia. Erdogan é um homem terrível. Ele é o Hitler do nosso século. Sei que é uma declaração muito forte, mas... todas as pessoas que vi morrer, assassinadas, torturadas...”, disse.
Com toda essa situação, ele diz que passou a receber ameaças de morte. Depois, no fim de maio, se disse um ‘homem sem pátria’ e pediu para ser reconhecido como cidadão norte-americano.
O curioso é que Kanter sequer nasceu na Turquia e sim na Suíça, onde seu pai trabalhava à poca.
Mas Enes está longe de ter opiniões fortes apenas fora das quadras. Ele mantém o mesmo temperamento contestado quando o assunto é a bola laranja. E, claro, mantém o mesmo estilo de ‘defensor doos oprimidos’.
Foi assim, por exemplo, que ele comprou briga com LeBron James nesta temporada. Ao ver o astro dos Cavs ‘peitar’ o calouro dos Knicks Frank Ntilikina, Kanter não pensou duas vezes antes de defender o companheiro ainda em quadra. Depois, ainda ironizou LeBron, que tem o apelido de ‘King’ (Rei, na tradução ao português).
"Não me importo com quem você é, como você se auto-intitula, rei, rainha ou princesa. Seja quem você for, nós vamos lutar, e ninguém lá vai nos sacanear. Vamos lá, jogaremos nosso jogo e vamos melhorar a cada dia. Você pode se chamar de ‘Rei’ ou o que for, mas não pode mexer com um calouro daquele jeito. Se vai mexer com alguém, mexa com um adulto. Eu vou morrer por meus companheiros. Aconteça o que acontecer, apoio meus colegas, porque vejo esse time, esse time, como minha família", disse.
Depois, ainda no começo da temporada, teve que se desculpar por pedir a um companheiro de equipe que entrasse em quadra e arranjasse uma briga.
“Não vou dizer para quem, mas disse a alguém: ‘Hey, cara, vá lá e brigue com alguém. Isso vai elevar a energia do ginásio’. É sério. Disse que pagaria a multa, não me importava. Nós precisamos de energia, nós precisamos de uma briga. A torcida vai entrar no jogo e os Blazers (time rival naquela partida) vão ficar nervosos”, disse Kanter, que nem estava em quadra naquela partida.
“A diretoria me disse que não posso dizer coisas assim. É um aprendizado. Me desculpo por isso”, disse no outro dia, quando repreendido pelo que havia dito.
Vale lembrar que Enes Kanter também é conhecido por outra coisa estúpida que fez pelo seu temperamento explosivo. Na temporada passada, quando ainda estava no Oklahoma City Thunder, quebrou o braço ao socar o banco de reservas e acabou afastado das quadras por seis semanas.
Com a bola quicando, Kanter vem tendo uma ótima temporada. Ele tem um duplo-duplo de média com a camisa dos Knicks: 13,3 pontos e 10,1 rebotes por jogo.
