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NBA Playoffs: O refúgio que ajudou Stephen Curry a ter alguns dos grandes jogos da história

UM VENTO FRIO corre do lado de fora do ginásio do Cleveland Cavaliers, e o Golden State Warriors está a apenas uma vitória do título da NBA. Ainda dentro da Quicken Loans Arena, uma coisa incomoda o duas vezes MVP Stephen Curry.

Ele tenta esquecer o que acabou de acontecer, o Jogo 3 das Finais de 2018. Os Warriors venceram por 110 a 102 e abriram 3 a 0 na série decisiva, ficando mais perto de varrer LeBron James e conquistar o bicampeonato. Mas em 39 minutos de quadra, Curry fez apenas 11 pontos e acertou só uma bola de três e 10 tentadas.

Uma atuação assim está longe do auge de Curry, ou até de sua média. Chegando na série, um assunto havia esquentado: Curry poderia finalmente vencer o MVP das Finais pela primeira vez? E o Jogo 3 não ajudou em nada.

Veja o Jogo 2 de Warriors x Lakers na semifinal da Conferência Oeste dos playoffs da NBA! A bola sobe às 22h (de Brasília) desta quinta-feira, pela ESPN no Star+.

No ginásio, quando o relógio já marcava 0h30, quase uma hora depois do fim da partida, Curry chegou em Johnnie West, dirigente dos Warriors. Em uma sala ao lado do vestiário, ele pediu para se afastar durante a manhã seguinte.

West relembrou que o time tinha treino marcado. "Não me importo", respondeu Curry.

Durante a conversa, o general manager Bob Myers se aproximou. "O que ele falou para você?", perguntou ele a West.

"Ele quer ir jogar golfe amanhã."

Myers levantou uma sobrancelha, mas não se opondo. A temporada havia sido longa, e com muito em jogo, especialmente contra um time dos Cavs que havia virado uma série depois de estar perdendo por 3 a 1 para os Warriors dois anos antes. A urgência de Curry era clara, e West contou a Myers que não havia muito espaço para negociar - ou rejeitar a ideia.

Sete horas depois, Curry e West foram para um campo particular a meia hora de distância, começando a jogar antes das 8 da manhã. Lá, nos 15°C de uma quinta-feira de versão e sob um céu encoberto, West e Curry jogaram os 18 buracos, e o armador voltou a tempo do treinamento.

No jogo seguinte, 30 horas depois, Curry marcou 37 pontos, acertou sete bolas de três, pegou seis rebotes, deu quatro assistências e somou três roubos de bola e três tocos. Os Warriors fecharam a varrida, conquistando o terceiro título em quatro anos.

West não ficou surpreso. Ele é testemunha de um dos grandes fenômenos do esporte há anos e observou de perto um padrão: como o golfe potencializa a superestrela dos Warriors nos momentos mais importantes.

Com certeza há uma relação entre ele jogar golfe e sua performance em quadra", West disse à ESPN.

Ele cita uma série de sete jogos fora de casa em fevereiro de 2016, quando Curry explodiu: 36 pontos em Atlanta, 42 em Miami, 51 em Orlando e, em Oklahoma City, a lendária bola de três de quase do meio da quadra que venceu a partida na prorrogação.

"Os números dele naquela sequência foram estúpidos", seguiu West.

A média de Curry foi de 36.4 pontos por jogo, com aproveitamento geral de 56%, 57% nas bolas de três e 86% do lance livre.

E o que aconteceu durante aquelas viagens? Várias partidas de golfe, relembra West.

"É meu lugar seguro, sempre posso contar com isso", Curry contou para a ESPN.


PARA CURRY, o golfe sempre foi uma obsessão.

Seu pai, Dell, o apresentou ao esporte quando ele tinha 8 ou 9 anos. Primeiro, dirigindo o carrinho de golfe. Depois, dando as primeiras tacadas. Mas, como Curry diz, a semente foi plantada, e o amor pelo esporte tomou conta. Quando ele tinha 13 anos, em uma viagem da família, Steph bateyu Dell pela primeira vez.

Curry também brilhou no ensino médio. E já jogou no lendário campo de Augusta várias vezes. Além de parceria com empresas de golfe. Com doações nos últimos seis anos, Curry ajudou o programa de golfe da Universidade de Howard a sobreviver.

Em sua casa, a televisão costuma estar ligada no Golf Channel. Ele também tem um simulador do esporte.

E na quadra de basquete, sua mente viaja pelo golfe, visualizando a próxima janela que terá para jogar. Até nas partidas que terminam tarde, Curry organiza seus horários para visitar um campo de golfe.

O golfe se tornou um elemento chave na cultura dos Warriors, e o time tem até um 'clube não oficial' que conta com Curry, Andre Iguodala e West. O técnico Steve Kerr encoraja os jogadores a levarem seus tacos nas viagens mais longas. "É o oposto de todos treinadores que já tive", contou Kerr, que venceu cinco títulos em 15 anos como atleta na NBA. "Seria aterrorizante tentar levar um taco escondido nas viagens. Não havia um jeito."

Kerr quer os jogadores nos campos. Às vezes, ele se junta a eles. "Eu amo", contou à ESPN.

Ele também diz que o golfe ajudou na relação com Curry. "Foi a primeira vez que passamos tempo juntos."

No verão de 2014, Kerr havia acabado de ser contratado pelos Warriors. Nas semanas seguintes, ele, Curry, Dell e Joe Lacob, diretor executivo dos Warriors, jogaram juntos em Pebble Beach. Foi quando Kerr contou sua visão de time a Curry - e se impressionou com o que o armador fazia no golfe.

Um ano depois, a cultura do golfe nos Warriors avançou. Após o Jogo 3, que terminou em derrota para o Memphis Grizzlies e deixou os Warriors atrás por 2 a 1 na série de segunda rodada dos playoffs, Curry e Iguodala jogaram 18 buracos no campo de Mirimichi, que tinha Justin Timberlake como dono. Depois, os Warriors venceram três jogos seguidos e fecharam a série. E, naquela época, eles descobriram que Kerr tinha contatos lendários ao Leste.

Os jogadores se perguntaram o que seria preciso para entrar no paraíso exclusivo do golfe. E um acordo foi fechado: ganhem o título, e Kerr faria acontecer.

Imediatamente depois dos Warriors vencerem o Jogo 6 das Finais contra os Cavs, em Cleveland, Curry e Iguodala se abraçaram em quadra e começaram a gritar: "Nós vamos para Augusta!".

Mais que um hobby para Curry, o golfe se tornou um escape necessário para o astro.


"EM TODOS OS LUGARES QUE VAMOS, alguém quer tirar um pedaço do Steph", disse Kerr. "E ele é tão gentil. Assina milhões de autógrafos e conversa com todos que chegam nele. Isso nunca acaba na vida dele. E tirar algumas horas para se afastar de tudo, ver o sol e jogar o jogo que ama, isso é importante.

"Há modos diferentes de se afastar", contou Myers. "Mas ele não deve ter muitos lugares que pode se sentir livre."

"É o lugar feliz dele", disse o auxiliar dos Warriors Bruce Fraser. "É onde ele fica com a mente livre, rejuvenesce seu espírito e sua alma."

E Curry concorda.

"É tudo que preciso para me afastar do basquete. O ar livre e fresco, a vitamina D. Perto de pessoas boas. E você não se afasta tanto do aspecto competitivo. Mas no golfe, é mais interno. E isso me dá algo a mais para sentir essa energia em quadra."

Curry não é o único da NBA que recorre ao golfe para descansar.

Iguodala contou à ESPN que o esporte foi essencial na bolha de 2020 da NBA, no Walt Disney Resort de Orlando, Flórida.

JR Smith, ex-ala-armador da NBA, começou a praticar o esporte em 2008 e sentiu o impacto: "Era algo que acalmava a minha mente e me deixava em paz para me afastar do jogo", disse ele à ESPN.

Kyle Korver, também ex-NBA, foi outro que recorreu ao golfe enquanto jogava. "Quando eu estava arremessando mal, em vez de ficar arremessando a mais no treino, eu dava umas tacadas, e aquilo parecia calibrar algo no meu cérebro. Era incrível."

Ray Allen, membro do Hall da Fama do basquete, jogou com Curry e com o ex-presidente dos EUA Barack Obama no Martha's Vineyard e contou com o golfe durante seus 18 anos de NBA.

"Seu rosto é conhecido", contou ele para a ESPN. "Todos te conhecem, então você não consegue se afastar. E é um ótimo problema. Mas, na vida real, você precisa desabafar, precisa se afastar do basquete. E o campo de golfe permite isso, ao mesmo tempo em que você compete."

O golfe também cria desafios criativos. Assim como Curry visualiza arremessos de todos os lugares da quadra, ele tenta fazer o mesmo no campo de golfe, contou West, se desafiando e testando os limites do que é possível.

"O mesmo vale para o basquete. Não importa como você está se movendo, driblando, pela esquerda, direita, de dentro do garrafão, de três. Você precisa ver o arremesso antes de tentá-lo. É assim que faço no campo de golfe", explicou Steph.


É UMA TARDE DE SÁBADO em San Francisco, e o sol reflete no Oceano Pacífico enquanto a temperatura bate os 16°C. Exatamente como os jogadores de golfe sonham. Curry, de agasalho, senta em uma cadeira dobrável dentro do Chase Center e pensa como o esporte ajuda no seu trabalho do dia a dia.

Ele mexe a cabeça, buscando em suas memórias, e um sorriso rápido aparece em seu rosto. Ele lembrou de algo bom. Fevereiro de 2016, ele conta, e a pausa do All-Star se aproximava. Curry, sempre em busca de um desafio, decidiu tentar algo novo. Os Warriors enfrentariam o Houston Rockets em casa, antes de irem a Phoenix para enfrentar os Suns no dia seguinte. Curry e Iguodala montaram um plano. Depois do pouso em Phoenix naquela noite, eles acordariam cedo para jogar golfe - na manhã da partida.

"Foi uma vez que eu achei que poderia experimentar algo e ver como meu corpo estaria depois de jogar pela manhã", relembra Curry.

"E eu arremessei bem demais."

Os Warriors venceriam de 112 a 104, com Curry marcando 26 pontos em 30 minutos, com cinco bolas de três, nove rebotes, nove assistências, um toco e um roubo.

No primeiro quarto, Curry converteu um arremesso de três. Kerr e Fraser se olharam no banco e abriram sorrisos.

E Kerr disse para seu auxiliar: "É o jogo de golfe aparecendo."