Christian Wood levantou suavemente seu braço direito no ar e olhou para o ala-armador Spencer Dinwiddie, que tinha acabado de acertar um arremesso de 3 pontos ainda nos tempos de Dallas Mavericks. O novo ala-pivô da equipe tinha acabado de achar um passe em direção ao seu companheiro de time, no estouro do cronômetro, que converteu para aumentar a vantagem a mais de 10 pontos último quarto.
Veja, Wood fez este gesto não pelo reconhecimento da assistência, mas como um gesto não-verbal de desculpa.
Wood sabia que tinha quebrado uma regra não-escrita da NBA.
Ele mandou uma "granada" para o seu companheiro de time, como é conhecido este lance, em que um jogador recebe a bola com uma marcação apertada nos segundos finais dos 24 de posse de bola.
É raro que um passe seja percebido como algo egoísta e que crie tensão entre os jogadores. Normalmente, esta energia negativa acontece nas agressões passivas, com passes mal feitos e coisas parecidas entre companheiros de time. O ato de "lançar uma granada", com tamanha exposição desta maneira, é normalmente seguido por um pedido desculpas pelo atleta que passou a bola, admitindo sua falha, parecido com o gesto que Wood fez para Dinwiddie durante o jogo dos Mavericks, no dia 12 de dezembro, contra o Oklahoma City Thunder.
A "granada" de Wood foi uma exposição gigantesca. Depois que um rebote ofensivo caiu em suas mãos, o relógio da posse do ataque voltou para 14 segundos. Wood tentou uma jogada individual, e quicou oito vezes a bola enquanto saía para o perímetro à esquerda. O calouro do Thunder, Jalen Williams, chegou perto e pressionou a última batida de bola. Wood perdeu a posse, brigou para recuperar a bola e então viu Dinwiddie sozinho, que voltou para o meio da quadra para ajudar seu companheiro em apuros.
Dinwiddie recebeu o passe com menos de um segundo para que o ataque encerrasse, e Shai Gilgeous-Alexander, do Thunder, estava na sua cola, com a marcação apertada. Dinwiddie moveu a bola para o seu braço direito e encontrou espaço para arremessar.
Enquanto a bola fazia sua jornada pelo ar, Wood colocou as mãos sob os ombros, com um requinte de "foi mal", que sua postura indicava com as expressões faciais. Dinwiddie fez a mesma coisa após a bola acertar a tabela e entrar na cesta.
Dinwiddie poderia devolver a "granada", ao invés de arremessar. Não foi realmente uma violação, de acordo com a versão da regra não escrita que o ala-armador aprendeu quando era calouro na temporada 2014-2015, pelo Detroit Pistons. Essa interpretação é permitida para os principais pontuadores do time (Luka Doncic e Dinwiddie naquele momento em Dallas), como uma válvula de escape.
Calouros também são exceções a esta regra, o que significa que está tudo bem que eles tenham um arremesso ruim desse jeito.
"Você pode passar para um de nós ou se Hardy [calouro] estiver, você pode dar a bola pra ele, como se tivesse errado!", comentou Dinwiddie em entrevista para a ESPN, rindo naquele jogo muito antes de ser trocado para o Brooklyn Nets, na negociação por Kyrie Irving: "É diferente quando você é alguém que cria o chute, e obviamente calouros vão fazer o que podem. Mas eu iria chutar. Eu não ligo muito para isso, para ser honesto. Pode passar a bola para mim. Eu estarei pronto o tempo inteiro."
A regra geral é clara: se um jogador está com a posse de bola no fim dos 24 segundos disponíveis para que o ataque encerre sua posse de bola e não consegue achar ninguém livre, o jogador precisa tentar um arremesso por conta própria, ao invés de dar a bola a outro companheiro de time com menos de dois segundos.
Na liga, os jogadores converteram 29,7% dos arremessos contestados depois de receberem um passe com menos de dois segundos no relógio.
"Bem, a ideia é que isso não deveria acontecer, mas às vezes acontece e em algumas situações alguém consegue converter", disse a estrela do Phoenix Suns, Devin Booker, para a ESPN: "Mas ninguém gosta disso. Não é algo proveitoso. Receber um passe com uma marcação tão acirrada, sem espaço para conseguir fazer seu movimento inteiro para o chute e ainda precisar arremessar, é exatamente o lance que acaba com a relação entre os jogadores, porque vários não gostam e ficam nervosos com isso."
Vários jogadores ficam extremamente irritados com 'passes de granadeiros'. Alguns deles causam a maioria dos olhos virados, sinais de frustração e lábios mordidos de raiva.
"Um veterano vai te dizer com certeza: 'Como um pontuador que sou, não passe a bola para mim com um segundo faltando no relógio.'", comentou o treinador do Mavericks, Jason Kidd, que foi armador: "Pode até ser uma regra escrita hoje, mas sempre esteve lá."
Por natureza, porém, as "granadas" são jogadas com mais frequência pelas estrelas do time, já que esses jogadores têm a maior responsabilidade de gerar alguns olhares. A lista feita pela pesquisa da ESPN Stats & Information sobre os jogadores que mais passam a bola com menos de dois segundos para arremessadores extremamente contestados é liderada por cinco atletas que estarão no Hall da Fama: Russell Westbrook, Damian Lillard, Chris Paul, James Harden e LeBron James.
Diminuindo a janela para as últimas duas temporadas, dois jogadores jovens estão na lista: Doncic e Tyrese Haliburton, do Indiana Pacers, com Westbrook liderando novamente o grupo.
Se os companheiros de time se queixam sobre estes passes destes jogadores principais, parece que não é diretamente e muito menos em público.
"Você sabe que há níveis de jogadores, então depende de qual jogador está te lançando essa granada para que outra pessoa reclame", comentou o armador do New Orleans Pelicans, C. J. McCollum, para a ESPN.
É claro que todas estas estrelas criam várias oportunidades para seus companheiros de time no estouro do cronômetro também. É compreensível que às vezes coloquem seus jogadores em situações difíceis. O problema e a tensão aumentam quando há uma percepção de que o jogador está protegendo sua porcentagem de aproveitamento no arremesso, fazendo com que outro atleta pague por isso.
"A intenção não pode estar ali", comentou Dinwiddie: "Você não pode simplesmente pensar que encontrou uma situação ruim e colocou outra pessoa nela."
Em alguns momentos, os jogadores não ficam bravos. Só não conseguem ficar livres para o arremesso. Um jogador que não quer receber o passe talvez faça uma infiltração no garrafão nos últimos cinco segundos, só para garantir que não será uma opção de passe disponível.
Há várias formas que alguns jogadores utilizam para proteger a preciosidade de suas porcentagens de arremesso. Uma é continuar com a posse e estourar o cronômetro com ela; outra é esperar o alarme soar, fingir que não ouviu e arremessar. Outra é fazer o passe do mesmo jeito, fingindo que não tinha ideia de que o tempo de posse no ataque estava acabando - se há uma violação, é um turnover para o time, e não é colocado na estatística dos jogadores.
Torcedores e a mídia muitas vezes não percebem este tipo de coisa, mas isso não passa despercebido pelos jogadores. Eles sabem e aprenderam as especificidades da regra não escrita dos seus veteranos, como Dinwiddie em seu ano de calouro, em Detroit, ou apenas por um princípio de quem joga basquete.
"Honestamente, eu não sei sobre a regra", comentou a estrela do Memphis Grizzlies Ja Morant à ESPN, dizendo que nenhum veterano sentou para conversar especificamente sobre isso com ele: "Mas é algo que a gente normalmente fala: 'Erro meu, foi mal' [sobre lançar a granada]. Só se converter, mas, mesmo assim, tem um: 'Foi mal, mas ótimo arremesso'. E você consegue os pontos, então todos ficam felizes. Mas, de novo, se ele faz um arremesso horroroso, que nem toca o aro, que vai longe ou coisa do tipo, eu peço desculpas. Na maioria dos casos, eu mesmo tento arremessar."
A razão principal para que esses passes sejam mal vistos na NBA: a porcentagem de chute afeta os salários dos jogadores e frequentemente é usada nas negociações de contrato.
O ala dos Nets, Dorian Finney-Smith, que chegou na equipe depois da troca por Kyrie Irving, é um perfeito exemplo de como as porcentagens de arremesso impactam no tanto de dinheiro que os jogadores recebem na NBA - e, particularmente, a diferença é gritante entre jogadores da rotação. O jogador assinou por três anos e U$12 milhões (R$63 milhões na cotação atual) para ficar nos Mavs depois de converter 30,3% dos arremessos de 3 pontos nas três primeiras temporadas.
Depois de trabalhar sua mecânica de chute, Finney-Smith aumentou seu aproveitamento (38,9%) em arremessos fora do arco nas três temporadas seguintes, fechando uma extensão de U$56 milhões (quase R$300 milhões) na temporada 2021-2022 - o máximo que os Mavericks poderiam oferecer ao jogador naquele momento.
Finney-Smith disse que era um alvo para essas "granadas", mesmo que ele não se encaixe na categoria de criador de arremessos. O ala se desenvolveu na NBA como um jogador especialista em defesa e chutes de 3 pontos, mas principalmente em arremessar quando estiver livre. Então, Finney-Smith acha ótimo receber a bola algumas vezes no estouro do cronômetro.
"Porque você vai arremessar sem consciência disso", comentou o ala para a ESPN: "Se você não toca na bola há algum tempo, você chuta sem pensar."
É claro que é mais fácil se sentir assim por um jogador no seu primeiro ano de um contrato que durará quatro temporadas, como Finney-Smith.
Outro jogador que não liga por receber estas granadas? C. J. McCollum, que está financeiramente seguro com o que ganhou em sua carreira: algo próximo de U$300 milhões (R$1,6 bilhão) quando a renovação que assinou antes desta temporada chegar ao fim.
McCollum é um pontuador nato e que faz jus ao que dizem sobre "nunca reclamar de arremessar uma bola que consegue". Além disso, ele adora ter tido essa aprovação nos times por onde passou, que o deixavam fazer o que queria quando não havia nenhuma outra opção no final do tempo do relógio.
"Eu sei que algumas pessoas se preocupam com sua porcentagem de arremesso e tentam se preservar", disse McCollum: "Mas eu sou um cara que gosta de arremessar a bola. Então eu não me importo se é uma 'granada' que estão me passando."
