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Há 23 anos, Mike Tyson mordia as orelhas de Evander Holyfield e mudava a história do boxe

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Mordido por Tyson, Holyfield segue eterno rival e confirma volta ao boxe aos 57 anos de idade (0:14)

Evander Holyfield publicou vídeo em suas redes sociais dizendo que voltará aos ringues | via @evanderholyfield (0:14)

"Eu quero uma luta limpa", avisou o árbitro Mills Lane antes do combate começar.

Não foi bem isso que aconteceu na MGM Grand Arena, em Las Vegas, na noite de 28 de junho de 1997. Há 23 anos, Mike Tyson transformou a aguardada revanche contra Evander Holyfield pelo título dos pesos-pesados em um dos momentos mais infames da história do boxe.

Faltando cerca de 40 segundos para o final do quarto round, os pugilistas estavam em um clinch, quando Tyson, irritado com uma suposta cabeçada de Holyfield, mordeu e arrancou um pedaço da orelha direita do adversário, cuspindo-a no chão depois. O boxeador gritou tamanha a dor sentida, pulou em círculos e houve uma troca de empurrões.

Tyson foi para o corner, enquanto Holyfield não parava de sangrar. Após alguns minutos de paralisação, com a entrada do médico para avaliar o pugilista agredido, a luta prosseguiu com o árbitro tirando dois pontos do agressor. O clima era de pura tensão.

Mesmo assim os ânimos não esfriaram. Pouco tempo depois de a luta ser retomada, Tyson mordeu a orelha esquerda do oponente. Houve protesto, mas a luta prosseguiu até o final do round. Assim que a segunda mordida foi revelada, o combate foi encerrado.

Foi então que houve uma confusão generalizada dentro do ringue, que envolveu treinadores e até seguranças. O público também estava enlouquecido com o ocorrido.

Após Holyfield ter sido declarado vencedor, a Comissão Atlética de Nevada (Estado onde fica Las Vegas) cassou a licença de Mike Tyson e aplicou uma multa de US$ 3 milhões, a mais pesada da história da modalide.

Árbitro tinha fama de rigoroso

Mills Lane, o árbitro daquela luta há 20 anos, era um homem com bagagem e experiência em lutas profissionais. Tinha 59 anos e arbitrara mais de 50 lutas profissionais, sendo a primeira em 1971. Lendas como Muhammad Ali chegaram a estar diante dele. Ele foi escolhido para substituir Mitch Halpern, nome vetado pelo estafe de Tyson.

Para a luta, ele recebeu um cachê de US$ 10 mil. Um contraste quando comparado com a bolsa dos lutadores: US$ 30 milhões.

Mills Lane sempre foi questionado se não deveria ter encerrado aquela luta logo após a primeira mordida de Tyson em Holyfield. E sempre se defendeu. "As pessoas que me encontram nas ruas elogiam minha atitude". Na luta, a atitude dele foi descontar um ponto pela agressão e mais um pela gravidade do ferimento causado.

Tyson: retomada

Tyson estava a uma vitória de igualar o nome ao do oponente e ao de Muhammad Ali. O triunfo o faria retomar o cinturão da Associação Mundial de Boxe pela terceira vez em ocasiões diferentes, feito que o equipararia ao dos nomes citados.

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Mordido por Tyson, Holyfield segue eterno rival e confirma volta ao boxe aos 57 anos de idade

Evander Holyfield publicou vídeo em suas redes sociais dizendo que voltará aos ringues | via @evanderholyfield

Mas na prática o confronto representava muito mais.

Aos 30 anos, Tyson julgava-se ainda em condições de figurar no topo dos pesos pesados, buscando enterrar aqueles que pensavam que os três anos de prisão o tinha deixado para trás. Também tentava provar que as lutas que fizera desde o seu retorno não tinham sido fáceis, como se cogitou por alguns especialistas.

Peter McNeeley, Buster Mathis Jr., Frank Bruno e Bruce Seldon não eram vistos como adversários à altura de Tyson. A exceção havia sido o próprio Evander Holyfield, no quinto confronto realizado nessa séria e o primeiro encontro entre eles.

A luta ocorreu em 9 de novembro de 1996, mas Tyson foi derrotado por nocaute técnico. Após o combate, seu estafe chegou a reclamar que o rival era desleal, que usara a cabeça várias vezes, golpeando de forma irregular. Ficou a promessa de uma revanche

Holyfield: mais uma prova

Se Tyson coçava a cabeça tentando provar que ainda fazia parte da elite do boxe, Holyfield se irritava por lidar com as dúvidas da imprensa quanto a sua capacidade.

Mesmo vencendo Tyson em 1996, Holyfield viu críticos e, especialmente, torcedores afirmarem que o confronto anterior fora uma "farsa".

"Vou lutar para todos aqueles jornalistas que se acham especialistas em tudo e fazem seus comentários como se fossem os donos da verdade. Vou mostrar a eles que ganhei porque tenho méritos. E vou mostrar ganhando outra vez", desabafou antes da revanche.

Mas Holyfield não era assim tão menosprezado como achava. Prova disso é que o favoritismo no duelo era atribuído à ele. Assim opinavam os especialistas.

Mas a desconfiança de Holyfield tinha justificativas. A bolsa oferecida para Tyson, o desafiante era igual a do atual campeão. Aproximadamente US$ 30 milhões.

Isso ocorreu porque o estafe de Tyson reclamou da proposta inicial, que era pagar US$ 35 milhões ao campeão e US$ 20 milhões ao desafiante. A solução foi equiparar a bolsa.

E depois da luta?

A derrota para Holyfield derrubou Tyson. Ele fez mais dez lutas depois, com cinco vitórias e três derrotas (duas lutas não tiveram vencedor). Despediu-se em 2005, aos 38 anos, com 50 vitórias, seis derrotas e duas lutas "empatadas" (sem vencedor).

Após 28 de junho de 1997, fez duas lutas em 1999, três em 2000 e, depois disso, fez mais uma por temporada até parar. Vale resaltar que entre a derrota para Holyfield e a volta aos ringues, em 16 de janeiro de 1999, passaram-se 567 dias corridos.

Holyfield lutou até 2011, fazendo 20 lutas, com dez vitórias, dois empates, sete derrotas (uma luta não teve vencedor). Entrou nos ringues 133 dias depois de derrotar Tyson.

Despediu-se com 49 anos e um retrospecto de 44 vitórias, dez derrotas e dois empates. Foi campeão mundial quatro vezes. Na Olimpíada de 1984 foi medalhista de bronze.

Hoje, aos 53 anos, ele cogita voltar aos ringues profissionalmente e tem feito várias publicações nas redes sociais mostrando estar em óima forma física. Resta saber qual adversário irá topar enfrentá-lo. Um possível terceiro ato contra Holyfield não está descartado

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Mordidas famosas

Até a mordida de Suárez em Chiellini em 2014, a agressão de Tyson em Holyfield era a mais famosa. Mas não a única. Vale lembrar que durante o Mundial no Brasil o uruguaio atacou o ombro esquerdo do rival, deixando as marcas de seus dentes cravadas no corpo do jogador italiano.

Vítima em 1997, Holyfield foi o algoz em 1980, ainda jovem. Levando a pior em uma luta na Geórgia, ele mordeu o ombro direito de Telum Winters. O ato consta na biografia de Holyfield, que na época escapou de uma punição.

Talvez a primeira mordida a ter imagens registradas foi na NBA, em 1983. Naquele ano, uma briga entre Wayne Rollins, do Atlanta, e Danny Ainge, do Boston Celtics, nos playoffs terminou mal. O primeiro deu uma mordida no dedo do segundo.

Em 1994, o jogador de rugby sul-africano Johan Le Roux foi pioneiro ao morder a orelha de um rival. Ele atacou o neozelandês Sean Fitzpatrick durante um jogo entre os países. Foi um escândalo na época e rendeu uma suspensão de um ano e meio.

Outro caso famoso, a exemplo de Suárez, também ocorreu em 2014. Foi em um jogo de beisebol. Durante uma briga, Miguel Olivo brigou com o companheiro Alex Guerrero e, durante o confronto, mordeu a orelha dele. Guerrero teve de fazer uma cirurgia