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São Paulo tri da Libertadores, 15 anos - Das bolachas de Cicinho à bronca de Juvenal com charuto e uísque: o que só os jogadores viram

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Petraglia lembra final de Libertadores e diz que São Paulo tomou Dagoberto do Athletico Paranaense 'na mão grande' (0:29)

Em 2005, o clube rubro-negro jogou sua partida na decisão do torneio continental no Beira-Rio e não na Arena da Baixada (0:29)

Reportagem publicada originalmente em 14 de julho de 2015.


O São Paulo conquistou pela terceira vez a Libertadores da América há quase 15 anos, em 14 de julho de 2005.* O título foi ganho após a goleada por 4 a 0 sobre o Athletico-PR, em um Morumbi lotado por mais de 70 mil torcedores e com gols de Amoroso, Luizão, Fabão e Diego Tardelli.

E o ESPN.com.br conversou em 2015, no aniversário de dez anos do triunfo, com jogadores daquele grupo tricolor e descobriu histórias divertidíssimas dos bastidores da campanha do clube, que eliminou Palmeiras, Tigres-MEX e River Plate-ARG nos mata-matas até faturar a taça mais cobiçada do continente em cima do time paranaense.

A ida da decisão não foi na casa rubro-negra, e sim no Beira-Rio, do Internacional, em Porto Alegre, porque a Arena da Baixada não tinha a capacidade mínima exigida no regulamento da Conmebol. O clube paulista pressionou pelo cumprimento do que se previa, e o fato fez o principal dirigente do Athletico-PR, atualmente presidente do Conselho Deliberativo, Mario Celso Petraglia, guardar mágoa do rival por anos, como ele mesmo disse ao Bola da Vez, da ESPN Brasil, certa vez (assista no vídeo acima).

O ronco de Danilo

O meia Danilo foi um dos destaques daquele título, principalmente pelos importantes gols marcados nos jogos de ida e volta contra o River Plate, no Morumbi e no Monumental de Nuñez. Só que, 10 anos depois, o então camisa 10 foi lembrado pelos colegas devido a outra coisa: seus poderosos roncos no ônibus.

"O Danilo é brincadeira. Você conversa com ele e pensa que está com dengue (risos). Ele parece que está lento o tempo inteiro, acha que tudo está sempre bom, nada está ruim", contou à reportagem o zagueiro Alex Bruno.

O defensor costumava sentar próximo ao meio-campista no ônibus e sofria com a potência da "serra elétrica" do colega.

"Nossa Senhora, o Danilo roncava toda vez no ônibus, era um absurdo! No caminho para o Morumbi, até mesmo na final, quando todo mundo estava naquela ansiedade e com uma pilha danada, falando pra caramba, tocando um pagode, ele ia dormindo e roncando, parecia uma motosserra (risos)", detalhou.

No entanto, segundo Alex Bruno, a tranquilidade, por vezes até exagerada, de Danilo, foi muito benéfica ao elenco tricolor, que foi no embalo do meia para conquistar o tão sonhado terceiro título da Libertadores.

"Esse cara é um monstro sagrado! Toda tranquilidade que ele tem fora do campo ele leva para dentro da partida. O 'bicho' joga demais, e parece que nas partidas difíceis ele cresce ainda mais", disse.

O lateral direito Cicinho, por sua vez, concorda em gênero, número e grau com Alex e ainda contou mais 'resenhas' do antigo companheiro de equipe.

"Não é à toa que a gente chamava o cara de 'Zidanilo', porque ele é esse cara, todo mundo pensa que é lento, mas não é. Ele faz a bola correr, tem uma qualidade fantástica, não existe meia no Brasil como ele. Mas como ele é muito tranquilo, às vezes te deixa bravo, porque ele dormia do CT até o estádio (risos). A gente falava: 'Como um cara desses vai jogar Libertadores, velho?' (risos)", divertiu-se o ex-ala.

"Então chegava a hora do jogo, a gente colocava a bola no pé dele e o cara sempre decidia. Ele tem essa chavinha que liga no automático quando atua contra time grande, não precisava falar nada. Já contra time pequeno, ainda mais se o jogo fosse de Paulistão às 16h, a gente dava umas broncas nele: 'Acorda, fio' (risos)", acrescentou, gargalhando.

Cicinho e o pacote de bolachas

Cicinho tinha apenas 25 anos quando chegou à final da Libertadores pelo São Paulo. Apesar de ter jogado muito durante toda a campanha, estava extremamente nervoso antes da partida contra o Athletico-PR, no Morumbi. Tanto é que fez algo totalmente contrário à recomendação de qualquer nutricionista.

"Cheguei no vestiário e flagrei o Cicinho comendo um pacote inteiro de bolacha Passatempo escondido de todo mundo, pra ninguém ver, principalmente o Paulo Autuori [técnico]. Perguntei: 'Que foi, Cicinho?'. E ele: 'Tenho que comer o pacote inteiro, senão não consigo correr' (risos). Eu fiquei na minha e só pensei: 'Esse bicho é doido' (risos)", lembrou Alex Bruno.

O próprio Cicinho confessa o nervosismo antes da finalíssima, mas lembra que foi no embalo de companheiros mais experientes, como Amoroso e Luizão, e teve boa atuação contra o time de Curitiba.

"Aquela Libertadores foi memorável. Os episódios que mais me marcaram foram o Amoroso chamando a responsabilidade, pedindo para jogar a bola nele que ele resolvia. Também teve o Luizão me pedindo: 'Pelo amor de Deus, cruza certinho na minha cabeça, porque sou melhor com a cabeça do que com o pé'. O Lugano gritando: 'Vamos, muchachos, tenemos que ganar'. Eu, como sempre, estava com um frio na barriga danado, ansioso, mas nós fomos campeões!", celebrou.

Alex Bruno também confessa ter suado frio antes da última partida do torneio.

"A noite anterior ao jogo é sempre complicada, aquela pressão de torcida, TV monstrando tudo e você naquela ansiedade, não dá pra dormir cedo, o olho não fecha. Eu sempre faço meus melhores jogos em finais, quando a bola rola eu esqueço tudo, mas antes é sempre difícil", relatou.

Juvenal: uísque, charuto e bronca

Os jogadores são-paulinos de 2005 lembram diversas histórias engraçadas de Juvenal Juvêncio [morto em dezembro de 2015], ex-presidente do clube e que foi diretor de futebol da equipe na época da Libertadores. Uma, em especial, fez o volante Alê cair na risada em plena entrevista.

"O técnico ainda era o [Emerson] Leão, e ele gostava de ser pontual. Quando marcava treino às 7h, era para chegar às 6h30 na Barra Funda. Nós treinamos de manhã e o Tardelli quis descer para o Guarujá com o Souza. Eu disse: 'Tardelli, não vai, isso vai dar m...'. Ele nem deu bola: 'É tudo nosso, fica tranquilo'. Não podia se atrasar para a reapresentação, senão o Leão adiantava o treino para as 7h como castigo", contou.

"Começou a passar o tempo, a gente já ficando desesperado e aí aparecem o Tardelli e o Souza de helicóptero. O Diego falou pro piloto: 'Pode pousar ali no campo do Nacional que aí eu mando (risos)'. No dia seguinte, o Juvenal, que estava fumando aquele charuto gigante e com o famoso copo de uísque do lado, chamou os dois na sala dele: [imitando Juvenal] 'Seu Tarrrrrdelli e Seu Souza, os senhoresssss essssstão multados'. O Tardelli ficou com uma carinha de cachorro que caiu da mudança", sorriu.

Mesmo com Tardelli e Souza multados, o elenco escapou da punição de Leão.

Só que pouco adiantou...

"Uns dias depois, o Falcão [jogador de futsal, que estava no elenco do São Paulo na época] atrasou e não deu outra: treino às 7h da manhã no dia seguinte (risos)", relembrou.

Juvenal também foi decisivo para segurar o zagueiro Alex Bruno na equipe. Inicialmente reserva, o defensor participou de vários jogos dos mata-matas e teve boas atuações, principalmente contra o Palmeiras, nas oitavas de final.

"Eu era parceiro de quarto do Falcão no São Paulo, imagina o quanto o Leão gostava da gente (risos). Eu tinha acabado de ser contratado do Santo André e ele já me colocou na lista de dispensa. Daí bateu aquele desespero, mas o Juvenal falou: 'Você não vai sair, pelo menos em um jogo terá que atuar'. Então, fui escalado logo contra o Palmeiras, joguei bem e ele garantiu: 'Você vai ficar no São Paulo! Depois do que vi, você pode até ficar encostado com o Leão por um ano, mas não vou te emprestar'", relembrou.

Amoroso não ficou com carrão

Contratado em meio à competição, depois que Grafite se lesionou, o atacante Amoroso foi peça-chave no título são-paulino, marcando contra River Plate, na semifinal, e Athletico-PR, na final. Eleito o melhor em campo naquele 4 a 0 no Morumbi, o jogador ganhou um carrão da patrocinadora do torneio, a montadora Toyota, mas decidiu não ficar com o veículo.

"O Amoroso é um cara fantástico, nunca vou esquecer a humildade e o companheirismo dele. Ele ganhou aquele carrão como prêmio e deixou para os funcionários do clube. Toda vez que eu volto ao São Paulo para visitar, os caras falam disso e o agradecem até hoje", revelou Alê.

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Leci Brandão e Leão

Um dos atletas que mais sofriam com o bullying naquele elenco de 2005 era o lateral esquerdo Júnior. O baixinho foi apelidado pelos colegas de Leci Brandão, devido à semelhança física com a lendária sambista. Isso rendeu um episódio peculiar durante uma das viagens daquela Libertadores.

"O Júnior odiava o apelido, mas não teve jeito, pegou mesmo, porque os apelidos que o Souza colocava pegavam. Você não imagina o tanto que nós rimos no dia em que fomos viajar e encontramos a Leci Brandão no avião! Chamamos os dois, colocamos um do lado do outro e tiramos fotos. Eles eram idênticos (risos)", gargalhou Alex Bruno.

Outro atleta que ganhou uma alcunha foi o meia Danilo.

"A gente chamava ele de 'Mirrrrna' (risos). Só chamávamos eles assim porque ele parecia o Julião Petrucchio, da novela 'O Cravo e a Rosa' [personagem de Eduardo Moscovis]. Ele é caipirão e muito parecido com ele (risos)", divertiu-se Amoroso.

Ninguém tinha coragam, contudo, de colocar apelido no técnico Emerson Leão. Conhecido pela sisudez, o treinador não aliviava nos treinos e nas broncas. No entanto, há um outro lado do comandante que poucos conhecem.

"Um dia, muitos anos depois da Libertadores, encontrei com ele em um cartório, fiquei impressionado, porque saiu de onde estava e foi me cumprimentar. Deu um abraço e aproveitou para dar uma cutucada, já que eu estava com roupa de surfe, porque estava indo para a praia. 'Você não muda, não tem jeito, meu zagueiro (risos)'", relatou Alex.

"O Leão é uma figuraça! Eu aprendi muito, porque ele pegava no meu pé e falava todo dia comigo assim: 'Andorinha que acompanha morcego dorme de cabeça para baixo (risos)'. Ele também sempre falava que 'passarinho que acorda cedo bebe água limpa (risos)', porque gostava de dar os treinos logo às 7h da manhã. Nosso time ganhou tudo, mas o pessoal às vezes atrasava no treino, e o Leão ficava louco", finalizou.

*Esta reportagem é a quinta da série de conteúdos especiais que o ESPN.com.br publicará até 14 de julho sobre a conquista da Libertadores pelo São Paulo em 2005.