O São Paulo celebrará no próximo dia 14 de julho 15 anos de seu tricampeonato da Libertadores da América.* E a caminhada até o título teve vários embates duríssimos, com histórias para lá de fortes, cada uma com suas particularidades. Como a de Rogério Ceni contra o Tigres no jogo de ida das quartas de final, em que o goleiro deu espetáculo e foi o protagonista, mas ainda assim saiu "frustrado" e "chateado".
Como assim?
Naquela noite de 1º de junho de 2005 - e com público pagante de quase 43 mil torcedores no Morumbi -, o então goleiro talvez tenha perdido a sua melhor chance de anotar um hat-trick [três gols na mesma partida] na carreira. E o ESPN.com.br conversou com o ídolo tricolor sobre o assunto, afinal, ninguém melhor que ele mesmo para detalhar.
"E aí vem a parte mais delicada da história. Era para ser uma noite [feliz], foi uma noite feliz, mas era para ser uma noite completa..."
Calma, antes de chegarmos ao lance que fez Rogério Ceni sair "chateado e frustrado" do estádio, vamos primeiro relembrar o contexto daquele duelo e o que o camisa 1 já tinha feito até os 24 minutos do segundo tempo. Não foi pouca coisa.
Únicos invictos e sustos mexicanos
São Paulo e Tigres chegaram para o confronto como os únicos invictos entre os oito sobreviventes daquela edição da Libertadores. Ambos ficaram em primeiro em seus grupos, respectivamente, 3 e 6. A equipe brasileira acabara de despachar o rival Palmeiras nas oitavas com dois triunfos, somando agora uma campanha de cinco vitórias e três empates; já o time mexicano tinha quatro igualdades e quatro vitórias, a última delas sobre o então atual campeão, o Once Caldas, do Equador, e que em 2004 eliminara o São Paulo nas semifinais.
E o time paulista, desfalcado de Lugano, na seleção uruguaia, e do volante Josué, suspenso, começou mal o jogo, apesar do chute de Souza por cima pouco que animou a torcida antes dos 2 minutos. No esquema 4-4-2 em vez do usual 3-5-2 e com o técnico Paulo Autuori tendo optado por Souza e Renan no lugar das baixas, a equipe viu o forte rival chegar pelo menos três vezes com perigo.
Aos 13, Júnior vacilou ao cabecear uma bola para trás, Saavedra avançou e cruzou, De Nigris bateu de primeira na altura da marca do pênalti, mas pegou mal e isolou, para alívio de Ceni; aos 16, o mesmo atacante recebeu, ganhou de Alex e já dentro da área chutou rasteiro para ótima defesa de Rogério, sua primeira ação importante.
Aos 21, contra-ataque rapidíssimo pela direita que acabou com chute de Gaitán de fora da área, a bola desviou em Alex e assustou o arqueiro tricolor. A resposta só veio aos 28, quando Júnior cruzou rasteiro, mas Cicinho não alcançou no primeiro pau e viu Grafite se enrolar com a bola no segundo e mandá-la para fora.
"Tá meio longe pra ele"
Aos 29 minutos, Grafite tentou receber passe de costas para o gol e acabou derrubado. A distância para a meta de Gustavo Campagnuolo era de quase 30 metros, mas mesmo assim a torcida pediu em coro que Rogério batesse.
"Será que é o Rogério Ceni? Tá meio longe pra ele", disse Galvão Bueno, que narrou o confronto pela TV Globo.
Rogério bateu com maestria por cima da barreira de cinco homens, no canto esquerdo do arqueiro argentino. Golaço!
Há 1️⃣5️⃣ anos, com atuação decisiva de Rogério Ceni, o Tricolor goleou o Tigres (MEX) no duelo de ida das quartas de final da @LibertadoresBR.
— São Paulo FC (de 🏠) (@SaoPauloFC) June 1, 2020
🇾🇪 São Paulo 4️⃣x0️⃣ Tigres (MEX)
⚽️ Rogério Ceni (2), Luizão e Souza
🗓 01/06/2005
🏟 Morumbi
📺 TV Globo#MemóriaTricolor#SPFCpedia pic.twitter.com/ETQrcLTogE
"Rogério Ceni é o nome dele, cada dia bate melhor na bola, já não tem mais distância!", narrou Galvão após a bola ter balançado as redes do Tigres.
Ceni explicou aquele momento: "Foi uma noite que, pra mim, foi extremamente especial, é claro, pela vitória, um jogo que começou truncado e uma falta em uma distância maior do que as que normalmente eu batia, já encaminhando para a última parte do primeiro tempo. E eu pude fazer aquele gol de falta que eu acho que deu confiança."
Deu mesmo. "Logo depois, o Luizão faz aquele gol em uma bola cruzada", completou. Eram 39 minutos quando Renan e Mineiro fizeram blitz no meio-campo, tomaram fácil a bola e o segundo lançou Grafite, que dominou e enfiou para Cicinho, como uma bala, entrar com tudo pela direita e cruzar rasteiro para o atacante, já dentro da pequena área, apenas empurrar para as redes.
O São Paulo foi para o vestiário, então, tendo superado os sustos mexicanos, com 2 a 0 no placar e a torcida em êxtase.
Espetáculo, vítima e "gênio"
O show tricolor, e de Rogério, continuou no segundo tempo. Logo aos 10, o zagueiro Da Silva vacilou na frente de Luizão, que lhe tomou a bola e ia para o gol quando foi puxado pouco antes da meia-lua. Falta e cartão vermelho.
Campagnuolo levou a mão direita à cabeça. Não se sabe se pela expulsão ou porque se já imaginava que Ceni viria para a cobrança. E ele tinha motivos de sobra para se preocupar.
"Quando volta para o segundo tempo, tem aquela outra oportunidade. Eu já havia jogado contra o Campagnuolo uma Copa Mercosul, não lembro exatamente o ano [foi em 1999], contra o San Lorenzo, e eu tinha feito um gol de falta nele [o segundo da goleada por 4 a 1]", recordou Rogério Ceni.
Rogério bateu de novo com perfeição, outra vez por cima de uma barreira com cinco atletas, mas desta vez mudando o canto, o direito do argentino, sua vítima. Bom, melhor Ceni mesmo explicar.
"Naquela noite, eu tive a oportunidade de, na outra falta, puxar do lado contrário a bola, eu já tinha batido por cima da barreira e na minha cabeça, pensando logicamente como goleiro adversário, eu não poderia tomar novamente o gol naquele canto, então, eu usei aí o pensamento dele, goleiro, como se eu tivesse lá embaixo das traves."
"E foi aonde eu puxo a bola ao contrário, dá o efeito da bola saindo pro canto dele, ele dá um pequeno passo para a esquerda e é o suficiente, a bola entra na lateral da rede e é o suficiente para que a gente faça o terceiro gol, o Souza faz o quarto", detalhou o hoje técnico do Fortaleza.
"Um gênio nas cobranças de faltas!", narrou Galvão Bueno. "O Rogério é um dos melhores batedores de faltas do mundo!", disparou Maurício Noriega, que comentava a partida pelo SporTV.
Era o 22º gol do São Paulo e o quarto de Ceni naquela Libertadores até ali (o 44º de seus 131 na carreira), já que ele faria mais um contra o River Plate na ida da semifinal e acabaria com cinco, sendo o artilheiro do time na disputa ao lado de Luizão. Fechou 2005 com 21 (11 de falta e dez de pênalti), o ano mais goleador de sua trajetória.
Aos 15, Júnior fez lançamento magistral para Souza, que entrou por trás da zaga, matou no peito e tocou na saída de Campagnuolo - 4 a 0, Morumbi ensandecido e uma mão e meia na vaga para a semifinal. Mas dava para ficar ainda melhor.
O hat-trick que não aconteceu
Dava, mas não aconteceu. Aos 23, Souza tocou para Tardelli, que dentro da área driblou lindamente o zagueiro rival e foi derrubado. Pênalti! Rogério Ceni era o cobrador, chance do 5 a 0 escancarada e de um feito que seria inédito e acabaria por ser único na trajetória do goleiro: fazer três gols em um mesmo duelo.
As 5 vezes que Ceni fez dois gols em um mesmo jogo:
1999 - Inter de Limeira 1 x 2 São Paulo
2004 - São Paulo 2 x 1 Figueirense
2005 - São Paulo 4 x 0 Tigres-MEX
2005 - Cruzeiro 2 x 2 São Paulo
2008 - São Paulo 4 x 0 Vasco
Lembra-se daquela frase lá em cima? Hora de Rogério dizê-la por completo.
"E aí vem a parte mais delicada da história. Era para ser uma noite [feliz], foi uma noite feliz, mas era para ser uma noite completa, não pelo fato de ficar na história por marcar três gols em um jogo, mas perder um pênalti é sempre decepcionante. Então, eu bato [aos 24 minutos] com convicção e confiança o pênalti, eu já tinha na minha cabeça canto direito e bola no alto. E ela sai, apesar de ela sair longe de distância, ela sai muito próxima da trave, sai cinco, dez centímetros de altura por cima do travessão", detalhou o capitão tricolor.
Campagnuolo não levou o que seria o seu quarto gol de Ceni. A torcida hesitou por um momento, mas quase que imediatamente começou a gritar de novo. Ovação a Rogério e ao time. Mas aquele lance mexeu com o arqueiro.
"E eu acabo, de uma noite logicamente comemorando em paz, muito mais ao final do jogo frustrado por aquele pênalti, por não ter conseguido convertê-lo."
"Mas um jogo sem dúvida especial, dois gols de falta em uma mesma ocasião, algo único, histórico, e dois gols bonitos de falta. Uma pena não ter saído de maneira inteira, completa com o terceiro... com o 5 a 0 que daria mais segurança ainda na classificação e com esse ponto na história de ter feito três gols em uma mesma partida", seguiu o ex-goleiro, contando tudo que sentiu naquelas noite e madrugada.
"Naquela noite, eu fiquei sem dormir um bom tempo, não comemorando os dois gols que fiz, mas, sim, lamentando o pênalti perdido... Mas de qualquer maneira, hoje, passados os anos, passado tanto tempo, foi um feito fantástico, uma coisa que hoje eu não sairia chateado do estádio", relembrou e refletiu o hoje jogador aposentado, 15 anos mais velho (tem 47) e experiente e trilhando carreira como treinador desde 2017.
Para sempre, o dono daquela noite no Morumbi e eterno capitão do tricampeonato do São Paulo na Libertadores da América.
Relembre, abaixo, a ficha técnica daquele jogo:
SÃO PAULO 4 X 0 TIGRES
Local: Morumbi, São Paulo (SP)
Renda: R$ 784.898,00
Público: 42.855 pagantes
Gols: Rogério Ceni, aos 30 minutos, e Luizão, aos 39, do primeiro tempo, e Rogério Ceni, aos 12, e Souza, aos 15, do segundo
Árbitro: Daniel Giménez (ARG)
Assistentes: Juan Carlos Rebollo (ARG) e Horacio Herrero (ARG)
Cartões amarelos: Souza, Luizão, Renan, Fabão, Morales, Álvarez, Sancho e Irênio
Cartão vermelho: Da Silva
São Paulo: Rogério Ceni; Cicinho, Fabão, Alex e Júnior; Renan, Mineiro, Souza (Marco Antonio) e Danilo; Grafite (Diego Tardelli) e Luizão (Roger) Técnico: Paulo Autuori
Tigres: Campagnuolo; Da Silva, Balderas e Álvarez; Morales, Husain (Silvera), Sancho, Gaitán (Peralta) e Saavedra; Irênio e De Nigris (Ruiz)
Técnico: Leonardo Álvarez
*Esta reportagem abre uma série de conteúdos especiais que o ESPN.com.br publicará até 14 de julho sobre a conquista da Libertadores pelo São Paulo em 2005.
