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Ex-Cruzeiro revela como tirou Boca Juniors do sério com provocação em vitória com golaço de Ronaldo: 'Eles bufavam de tão bravos'

Nesta terça-feira (28), o Cruzeiro recebe o Boca Juniors, no Mineirão, às 21h30 (de Brasília), em duelo pela 3ª rodada da fase de grupos da CONMEBOL Libertadores. O jogaço terá transmissão AO VIVO no plano premium do Disney+.

E quando se fala neste clássico sul-americano, é impossível não lembrar dos dois encontros históricos entre os gigantes em 1994, quando os mineiros possuíam uma equipe fórtissima e um camisa 9 que viria a se tornar um dos maiores jogadores da história: Ronaldo "Fenômeno".

Para aquela temporada, os celestes montaram um elenco de dar inveja: veteranos multicampeões, como o lateral-direito Paulo Roberto, o zagueiro Luizinho, os meias Douglas, Ademir e Luís Fernando Flores e o atacante Roberto Gaúcho, fizeram a mescla perfeita com jovens promessas, como o goleiro Dida, o lateral-esquerdo Nonato e os meias Macalé e Cleison, além do próprio Ronaldo.

O Cruzeiro deu uma prova enorme de força em seu primeiro encontro com o Boca, na mítica Bombonera, pela 3ª rodada do grupo 2.

Os xeneizes usaram uma tática específica para pressionar o jovem "Fenômeno", marcando com uma linha muito alta e deixando R9 várias vezes impedido. Quando ele aparecia em condições, levou botinada atrás de botinada, o que foi minando sua confiança no decorrer da partida e provocando erros nas poucas oportunidades que ele teve de finalizar.

Coube, então, à "turma dos mais velhos" resolver a parada: Paulo Roberto e Roberto Gaúcho, dois dos mais "cascudos" do plantel celeste, abriram 2 a 0, e os donos da casa só foram conseguir diminuir no último minuto de jogo com Beto Acosta. Resultado: vitória histórica dos mineiros em plena Bombonera por 2 a 1.

Esse resultado gerou enorme tensão e expectativa para o "jogo de volta" da 6ª rodada, no Mineirão, em que os dois times chegaram com chances de classificação para o mata-mata. Ou seja: quem vencesse em Belo Horizonte levaria a vaga na próxima fase.

O "Gigante da Pampulha" ficou em silêncio logo aos 3 minutos, depois que o atacante uruguaio Sergio Daniel "Manteca" Martínez abriu o placar para o Boca Juniors com um gol de muita raça.

Os estrangeiros, então, resolveram partir para a boa e velha "catimba". Mas esqueceram que, do outro lado, havia um Cruzeiro "vacinado" contra essas velhas artimanhas...

"Vocês acham mesmo que vão ganhar?"

Um dos estandartes daquele plantel da Raposa era o lateral-direito Paulo Roberto Curtis Costa, que possuía um currículo para lá de invejável quando chegou ao time celeste, em 1992.

Em seu início de carreira, o ala foi campeão do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial de Clubes pelo Grêmio, entre 1981 e 1983. Na sequência, ficou com o braço até dolorido de tanto levantar taças com as camisas de gigantes como Vasco da Gama e Botafogo. Ainda jogou por outras equipes de enorme expressão, como São Paulo e Santos, ganhando ainda mais "cancha".

Extremamente experiente, Paulo Roberto entendeu que, para virar em cima do também forte esquadrão do Boca, seria necessário "entrar na mente" do adversário.

Em entrevista à ESPN, o hoje agente de jogadores revelou as provocações que fez para começar a desestabilizar alguns dos principais nomes do rival, como o meia Alejandro Mancuso, que depois jogaria por Palmeiras e Flamengo no futebol brasileiro.

A "tática" funcionou bem, e a Raposa conseguiu fazer 2 a 1, o que revoltou os argentinos de vez e fez os gringos procurarem briga na parte final do jogo.

A coisa esquentou de vez depois que o próprio Paulo Roberto, que já havia tirado o Boca do sério, começou a fazer sinal de "2 a 1" com os dedos em direção aos adversários, em referência aos placares dos dois confrontos na Libertadores.

A cena entrou para a história e está até hoje imortalizada nos maiores momentos do Cruzeiro e do Mineirão.

"Vamos dizer que a provocação começou da parte deles, porque eles saíram ganhando de 1 a 0 no Mineirão e partiram para 'catimbar'. Aí tem aquelas coisas que todo mundo vê pela TV, mas sempre tem aquelas outras ali ao pé do ouvido que ninguém escuta, né? É só ali dentro de campo, mesmo... (risos)", divertiu-se.

"Eu mesmo falei várias vezes para o Mancuso e para outros jogadores deles quando estava 1 a 0: 'Vocês têm certeza que querem provocar? Vocês acham mesmo que vão ganhar? Nós vamos virar esse jogo ainda...'. Eu falava isso e os caras até bufavam de tão bravos com a gente", revelou.

"Eu sempre fui um jogador que nunca aceitou perder, principalmente para argentinos. Contra times da Argentina, a gente sempre se preparava mais para jogar, porque sabia que podiam acontecer as duas coisas: futebol e briga (risos)", gargalhou.

"Então, ali no final, quando a gente já estava ganhando, deu uma confusão boa com o goleiro deles e nossos jogadores. Piorou porque eu comecei a fazer sinal de '2 a 1' e falei para eles: 'Para nós virou rotina ganhar do Boca'", relatou.

Segundo Paulo Roberto, ele e os colegas do Cruzeiro de 1994 seguem com as memórias daqueles confrontos contra os xeneizes até hoje.

"Foi uma grande vitória nossa, que marcou época, até porque o Boca Juniors sempre foi um grande clube e que sempre entrou com grandes times na Libertadores, mas o Cruzeiro daquela época era um clube que dificilmente perdia de qualquer um. Para nós, que participamos daquele jogo, é um motivo de orgulho até hoje", exaltou.

"É muito legal até hoje a gente ter as recordações daquela partida. Lembro sempre do Mineirão lotado, do barulho da arquibancada, e, principalmente, da comemoração daquela grande vitória", completou.

Mesmo "sonolento", Ronaldo decidiu

Ronaldo "Fenômeno" teve números deslumbrantes em sua passagem pelo Cruzeiro. Em duas temporadas, foram nada menos que 44 gols em 46 partidas. Mas não era sempre que ele jogava bem...

Naquele dia, no Mineirão, era exatamente um desses dias "atípicos" para R9, que vinha parecendo intimidado pelas pancadas que levou em La Bombonera. Na transmissão de TV, o matador foi chamado até mesmo de "sonolento", e tanto narrador quanto cometarista pediram insistentemente sua substituição, afirmando que ele fazia sua "pior partida com a camisa" da Raposa.

Coube a Paulo Roberto e aos outros "cobras" do elenco recolocarem o "Fenômeno" no jogo, principalmente depois que o meia Luís Fernando Flores empatou a partida aos 20 do primeiro tempo e tranquilizou a equipe celeste e a torcida que abarrotou as arquibancadas do "Gigante da Pampulha".

"Jogar contra time argentino, seja qual for, seja grande ou pequeno, é sempre uma rivalidade muito grande. E, pelo fato da gente já ter ganho do Boca na Bombonera, a rivalidade entre nós ficou ainda maior, porque o elenco deles era muito bom, assim como o nosso, mas o Ronaldo ainda estava surgindo. No jogo na Argentina, eles deram muitos pontapés no Ronaldo", recordou.

"Eles sempre tentam provocar e provocaram muito o Ronaldo depois no Mineirão, pois ele era garoto ainda. Bateram muito nele. Aí os mais experientes, como eu, o Nonato, o Ademir, começamos a sempre incentivar o Ronaldo, falando que 'ia dar certo', que 'ia dar certo', para ele não parar de tentar", rememorou.

"A gente hoje vê a transmissão de TV daquele dia e fizeram muitas críticas ao Ronaldo, falaram que ele estava meio sonolento, né? (risos). Mas ele sempre foi um jogador decisivo, e, mesmo ainda muito jovem, já dava para ver que ele seria um grande jogador, tanto pela personalidade quanto pelo futebol que ele apresentava", acrescentou.

E estava mesmo escrito nas cinco estrelas que formam o Cruzeiro do Sul...

Aos 23 do segundo tempo, o "Fenômeno" arrancou da intermediária, deixou três marcadores na saudades, driblou o folclórico goleiro Navarro Montoya como se não fosse nada e só rolou de perna esquerda para o fundo das redes, fazendo um dos gols mais emblemáticos da história do Mineirão.

Seria um dos últimos tentos de Ronaldo com o manto celeste, já que, pouco mais de um mês depois, ele se despediu da Raposa para jogar no PSV Eindhoven, da Holanda.

Paulo Roberto, aliás, guardou boa amizade com R9, que foi seu companheiro no Cruzeiro entre 1993 e 1994. Olhando para trás, o ex-lateral se diz orgulhoso por ter conseguido ajudar o jovem "Fenômeno" a se firmar de vez no futebol antes de deslanchar no futebol europeu e se tornar uma lenda do esporte.

"Para mim, ter jogado com o Ronaldo foi um motivo de orgulho muito grande, porque nós ficamos amigos. Eu o ajudei bastante nesse início de carreira, quando ele tinha ali seus 16, 17 anos e subiu para o profissional do Cruzeiro. E ele reconhece isso até hoje, pois toda vez que vai a algum programa de TV fala bem de mim", brincou.

"Eu tenho amizade e carinho muito grandes por ele até hoje, apesar da gente ter pouco contato. Era um menino que naquela época a gente já sabia que ia estourar, pois treinava todos os dias com ele e via o que ele fazia. Não foi surpresa nenhuma para nós vê-lo se tornar o melhor do mundo. Então, foi um privilégio muito grande ter atuado ao lado dele", finalizou.

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